Nem tanto ao mar nem tanto à terra

Praça de Touros do Campo Pequeno, 13.07.2017

Mano a Mano Pablo Hermoso de Mendoza / José María Manzanares

Grupo de Forcados Amadores de Montemor o Novo

Ganadarias : Charrua (para cavalo), Hermanos García Gimenez, Benjumea e Juan Pedro Domecq (para pé).

Direção acertada de Pedro Reinhart (não tem culpa nas voltas a mais, quando o público as pede com maioria, o diretor e bem, na qualidade de intérprete do público, autoriza-as).

Um dos cartéis mais atrativo da temporada lisboeta não foi suficiente para encher as bancadas da centenária praça de touros da capital. Que não se encontrem desculpas no princípio de férias, preços elevados, mais toureio a pé, não justificam a falta de público, era corrida para encher.

Naqueles que marcaram presença o ambiente fez lembrar o mano a mano Diego Ventura/El Juli, em comum e os únicos repetentes foram o Grupo de Forcados Amadores de Montemor. O resultado, esse foi bastante diferente.

Os touros Charrua foram colaboradores, sem apertar, menos claro o segundo (terceiro da noite), e francamente bom o quinto, touro fixo, galope definido, sem se emparelhar ao cavalo e saindo com alegria de todos os terrenos, o primeiro também colaborou, embora com menos franqueza e por vezes emparelhado aos cavalos de Pablo. De apresentação corretíssima, destoando o terceiro, maior que os irmãos de camada, um pouco cuesta arriba, e reservado na lide e depois na pega.

É difícil escrever e descrever Pablo Hermoso de Mendoza, em conversa com um bom amigo e aficionado, durante as suas lides, constatámos que Pablo tem uma tauromaquia tão perfeita, uma equitação tão iluminada que chega a perder-se a emoção nas suas lides, e isto não é mau! Porque tudo o que faz é bem feito, a brega, a ferragem ao estribo, debaixo do braço, as saídas da cara dos touros, o diálogo com o público, a sintonia com os peões de brega, a simpatia que transmite, enfim, tudo o que faz e que assistimos, e o que não faz, mas sentimos. Uma figura indiscutível do toureio, das que merece a pena sair de casa para ver tourear. Pablo triunfou, sobretudo no último, o tal que saía alegre e com galope, quer na garupa, quer na ferragem. Uma das grandes noites de Hermoso nesta praça que tem sido tão difícil para ele.

Confesso que me perdi com as voltas ao ruedo que deu, mas disso trataremos mais à frente.

Pablo convidou Jacobo Botero, suplente nesta noite para cravar alguns ferros, permitindo assim que este jovem cavaleiro tivesse realizado um sonho, toureando em colleras, com esta figura. Mais um por(maior) de Hermoso de Mendoza.

O Grupo de Montemor não teve a noite que desejou seguramente, talvez preparados para touros prontos, com investidas rápidas e reuniões duras, a estratégia gorou-se porque as coisas saíram precisamente ao contrário, touros num estado mais aplomado nas pegas, e que exigiam reuniões templadas, em camara lenta, obrigando os touros a entrar pelos caras e não esperando por eles.

No primeiro Francisco Barreto fechou-se à segunda depois de uma primeira em que o touro o experimentou na reunião, travando e pedindo ou um passo mais atrás, para recolocar a cabeça, ou menos um passo, para que nem tivesse tempo de frenar. Ajudado sem dificuldade, volta para Francisco e Pablo.

O terceiro foi pegado por João Câmara à quinta tentativa. João não entendeu este touro, era efetivamente mais reservado que os restantes, mas não podemos ter na cabeça um conceito de pega, não tira em nada o valor, mérito, ou prestígio ao forcado, mas de facto não se acoplou à maneira de investir, tardo e adiantando o pitón esquerdo, tudo muito devagar. Uma palavra também para os ajudas, que a partir da terceira, transmitiram para a bancada alguma desorientação e insegurança, pondo em causa algumas tentativas do forcado de cara, deve deixar-se sempre recuar um forcado, nunca bloquear o seu recorrido, um touro tem e terá sempre mais força, e com este entrave faz com que o forcado não fique na cara e possa mesmo magoar-se com gravidade, deve sempre criar-se um espaço para a investida do touro, um sitio onde ele coloque a cara, dando o peito, e tirando-se para fora. Se quando se faz isso, se tem uma parede atrás, há um choque que pode não resultar o que aconteceu. Não foi o fim do mundo, nem lá perto, noites assim acontecem, e entendeu-se que perceberam de imediato o que falhou. Volta para Pablo.

O quinto, o melhor da noite, no que a cavalo diz respeito foi pegado por um dos grandes da atualidade, reúne valentia, valor, que são coisas diferentes, e estética, por vezes um pouco exagerada! Ontem não foi o caso. Francisco Borges salta a trincheira, brinda e cita de forma diferente, sabemos que é ele, ontem tinha um touro que não permitia tanta torería, talvez tenha levado demasiado tempo no cite, um touro que pedia mais cercanias para poder vir com alegria, o que fez no cavalo, mas no final estava esgotado e pedia que o alegrassem. O touro saiu galopando mas a menos e Francisco recebe-o já mais atrás e talvez de uma forma que o tenha surpreendido, não estava à espera de uma reunião por baixo, inteligentemente adaptou-se às circunstâncias e fechou-se à primeira, num animal que não ofereceu dificuldade aos ajudas.

No capítulo de a pé, o outro aliciante da noite foi o debute de Manzanares no Campo Pequeno. Depois de alguns anos de “namoro” não correspondido, a coisa lá se deu.

Variado de capote em toda a noite, inovador na muleta (rodillas no chão) em alguns momentos, ressaltou sobretudo a lide ao quarto, um touro de García Jimenez (encaste JP Domecq) que lhe permitiu tourear a 2km/h, sobretudo com derechazos, rematados com passes de peito intemporais. Boa faena, medida, num animal que sem acabar de ser bom, calhou nas mãos certas e inspiradas de José Marí. Volta ao ruedo.

O primeiro de Benjumea, um touro com menos condição, mais justo de força, quando obrigado, por ambos os lados, soltava a cara, protestava e ficava curto. Talvez o início de faena, nada a favor do touro, tenham prejudicado. Volta ao ruedo.

O sexto da noite, um Juan Pedro mais feio e despegado do chão que os restantes, teve um bom pitón esquerdo, mas Manzanares pouco se viu, convidou Joaquim Ribeiro Cuqui, suplente nesta noite, para rematar a faena.

Ora, se já educadamente o havia convidado a sair num tércio de quites, para que não ficasse a zeros, e pusesse também o seu grãozinho de areia na noite lisboeta, o público queria ver Manzanares, com todo o respeito por Cuqui, que depois até acabou por dar um tanda de derechazos, a primeira, mais corretos que José Marí.

O pior foi que Manzanares, a pedido do público, coisa que até o próprio surpreendeu, deu duas voltas ao ruedo.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Lisboa não é Villanueva del Fresno, com todo o respeito por esta simpática vila raiana.

Nem a Porta Grande do Campo Pequeno é uma zona de acesso pedonal aos bares e WC, porque parece, se me descuido e passo ali a caminho de um xixi, corro o risco de ser sacado em ombros, sorte a de quem me leva, que não chego aos 80kg, e que o velhinho hotel Francfort, no Rossio, foi substituído por hotéis ali na 5 de Outubro, senão o caminho era longo.

Reitero, a culpa não é da empresa, Direção dos espetáculos ou dos próprios artistas, que até ficam surpreendidos. A culpa é do público que as pede. Temos de ser mais rigorosos, para que haja dignidade, temos, nós espetadores, que dar dignidade e respeitarmos algumas regras.

Se queremos festa, vamos aos Santos Populares, se queremos touros, cartéis com esta categoria, temos de saber ser criteriosos, senão não passamos de personagens, de chapéu de aba direita comprado na Loja do Chinês, ou de Malva de plástico apanhada no cabelo, da mesma duvidosa procedência, que aplaudem de pé o senhor, moço de arena, que tão dignamente limpa os cócós deixados pelos cavalos.

Mas isto é sempre a minha opinião, outras haverá e seguramente bem melhores.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra.

A corrida foi agradável, poderia ter sido mais, não fossem estes episódios, talvez a próxima seja melhor, aliás, é sempre essa a nossa esperança de aficionados inconformados.

Como dizia um Currista fundamentalista, depois de 5 tardes de assobios e broncas numa feira de Abril –“Curro! El año que viene te viene a ver tu Puta Madre!…y yo…”

Uma última palavra para a quem ainda tenha paciência para a ler: as pressas sempre foram más conselheiras, nisto da informação, seja ela taurina ou não, o que importa talvez seja bem informar e não informar primeiro, mas mal ou deturpado, as pressas podem levar a isso. Mas outra vez, não passa da minha opinião, que nem jornalista sou.

Isto para explicar a minha preguiça na hora de cronicar, talvez seja o último, mas as pressas…essas são para ladrões e maus toureiros.

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