Sónia Matias entrevistada pelo Diário de Noticias

Sónia Matias em grande entrevista ao DN, sobre a sua encerrona na Nazaré.

Leia a entrevista na integra:

 

“De casaca azul, Sónia Matias entra na arena para fazer história

Aos 38 anos, Sónia Matias vai cumprir, hoje à noite na praça da Nazaré, um dos grandes sonhos: lidar os seis toiros da corrida, tornando-se a primeira mulher em Portugal a fazê-lo. A toureira tem feito uma preparação intensa para este dia, que considera muito especial. Revela que vai estrear uma casaca brilhante e azul, da autoria de Fátima Lopes, e leva para a terra do surf 12 cavalos e uma enorme vontade de agradar a um público que sempre a acarinhou

Deixou de fumar, passou a ter mais cuidado com a alimentação, faz caminhadas e soma milhares de horas a montar e treinar os cavalos. Assim se prepara a cavaleira Sónia Matias para a corrida de hoje à noite na Nazaré, em que é a única cabeça-de-cartaz a lidar os seis touros. Chamam-lhe “tourear em solitário” ou encerrona, um feito para qualquer toureiro e nunca realizado em Portugal por uma mulher. Aos 38 anos, sente-se preparada, e nada melhor para o fazer do que com as gentes do mar e as mulheres de sete saias, onde é particularmente acarinhada. E, hoje à tarde, quem passear pelo Sítio, na Nazaré, provavelmente vai encontrá-la à conversa com as tremoceiras.

“Tinha esse sonho e propus a ideia ao empresário da Nazaré, que gostou e disse que tinha pernas para andar. Já me tinham feito a proposta há uns anos, mas achei que não estava preparada, agora senti que tinha chegado a altura.” Não pretende marcar uma data, não pensa em abandonar a tauromaquia tão cedo, garante que não foi para acrescentar mais um recorde ao currículo por ser a primeira mulher a lidar todos os touros, também que não é para agitar as águas para o seu lado, simplesmente achou chegada a altura. “As pessoas pensavam que ia deixar as corridas, assumiram que era uma tourada de despedida, tive de explicar a quem não tem cultura taurina.”

A praça da Nazaré tem uma arena pequena, considerada difícil por muitos toureiros, dificuldades que Sónia Matias diz serem compensadas com o carinho do público. “É o cenário perfeito, tenho uma grande simpatia pelo povo nazareno, em particular pelos aficionados, e a praça tem uma iluminação e uma estrutura únicas. Uma das razões para realizar esta corrida foi a minha ligação à Nazaré, as pessoas são muito acolhedoras, as mulheres têm muita garra, não tenho palavras. E o mar, o céu, tudo é especial.”

Uma ligação confirmada pelo crítico tauromáquico Maurício do Vale: “O segredo maior da Sónia é comunicar com o público. É importantíssimo saber comunicar e ela tem essa capacidade, o que acontece particularmente na Nazaré. É um público que se entrega, que gosta de correr riscos e, nesta corrida, é um risco multiplicado por seis. Mas não há bela sem senão. Tem uma arena muito pequena, é preciso ter uma quadra [cavalos] à altura não só para responder às exigências de cada toiro como para lidar os seis toiros em solitário.”

Os cavalos pesaram, e muito, a cavaleira sente que tem a quadra certa. “Consegui juntar 12 bons cavalos que penso que me dão todas as condições para tourear seis touros.” Destaca o Atrevido, um puro árabe de 21 anos retirado das lides no ano passado e que volta à arena – “as pessoas têm uma grande paixão por ele” -, há também um Ronaldo, o Sultão, além de muitos lusitanos e um árabe, puros e cruzados. São o Orelhas, o Bolero, o Monforte 1, o Mágico, o Amoroso, o Alma Viva, o Artista, o Monforte 2, o Obelix 3 e o Ernesto, nomes formados pela inicial atribuída aos nascidos nesse ano. Quase que se ofende quando lhe perguntamos o preço de um cavalo. Argumenta que os valores são muito variados e a ligação afetiva que tem com cada um implica que não tenham preço.

Uma quadra que obrigou ao aluguer de um segundo camião, para ligar os 80 quilómetros que separam a Labrugeira – onde a cavaleira tauromáquica vive atualmente – à Nazaré, local da corrida, a partir das 22.00. Também levou à intensificação dos treinos nas semanas que a antecederam, no picadeiro Quinta Velha, um espaço que alugou recentemente porque as instalações de Samora Correia tornaram-se pequenas. Tem perto de 30 cavalos, na maioria vocacionados para a tauromaquia e outros para a equitação, já que ali funciona uma escola. “Venho sempre muito cedo e saio muito tarde, almoço a correr. São 12 cavalos, tenho de os montar diariamente, e há sempre coisas para resolver.” Por exemplo, comprar as fitas para adornar as crinas dos cavalos. Ou reservar bilhetes para os aficionados mais chegados, já que a praça tem só 4400 lugares.

Vai estrear uma casaca, recorrendo mais uma vez à estilista Fátima Lopes. Também é repetente no tom, o azul, a sua cor preferida, embora tivesse pensado em ir vestida de verde. “Vi os azuis e não resisti, só pedi que fosse azul e tivesse muito brilho.” Amarelo é que nunca, e esta é uma exigência da maioria dos cavaleiros. É superstição: um toureiro morreu quando vestiu de amarelo pela primeira vez. E claro que não irá pôr o tricórnio (chapéu) em cima da cama. Aconteceu recentemente com a “moça de espadas”, a Catarina, que prepara toda a indumentária e a ajuda a vestir, houve discussão séria. Acontece que a corrida correu “muito bem”.

Sónia Matias espera dormir bem nessa noite – o que para ela significa seis horas de sono -, partir da Labrugeira depois do almoço, jantar qualquer coisa para estar na praça duas horas antes da corrida – “são muitos cavalos para aquecer” – e recolher-se para concentração antes da saída do primeiro touro. Só nessa altura decidirá com que cavalo irá tourear nessa lide, e assim sucessivamente nas seis vezes que sair para a arena. Repetirá a volta de agradecimento outras tantas vezes, desde que tenha corrido bem, esperando que seja uma noite com saída em apoteose.

A artista reconhece que é bastante supersticiosa, pelo que o dia acabará com o acender da vela, o que também acontece antes de tourear. “Acendo sempre uma vela no hotel, antes e depois.” Reza às senhoras de Fátima e de Marcarena (a padroeira dos toureiros), tem sempre um santinho no bolso e também costumava usar um terço, mas perdeu alguns e acabou por tatuar um rosário no pulso. Tem, ainda, a tatuagem de um cavalo no corpo, fará uma terceira já que lhe disseram que as tatuagens têm de ser em número ímpar.

Nova vida no concelho de Alenquer

Sónia alugou há um ano o picadeiro da Quinta Velha, na Labrugeira, no concelho de Alenquer, acabando por trocar a casa de Alcochete por uma na localidade, onde se sente muito bem integrada. Também aprendeu a gostar de vinho, já que o que ali não faltam são vinhas e adegas. “Há muitas vinhas, é só campo e vinhas. É um meio rural e acho engraçado os casais que trabalham no campo. Vejo passar os senhores e as senhoras, sempre aos pares, marido e mulher, andam sempre juntos.”

Uma quinta imensa, quase às portas de Lisboa, e pela qual paga 500 euros de aluguer mensal. Tem boxes para 17 cavalos, picadeiro e arena, também um espaço para toiros, um de maior porte para que os cavalos se adaptem à presença de toiros na praça. Vários hectares ladeados por vinhas. “É uma paisagem lindíssima e isto é muito sossegado, sem rede de telemóvel na maior parte dos sítios, tenho o que preciso para me concentrar.”

Gente aficionada e com quem fala ao se cruzar na vila, que lhe oferecem ajuda, produtos hortícolas, também conselhos. Vaidosa no vestir e na forma como se apresenta – “tenho muito cuidado com o cabelo, unhas, sou muito feminina” -, simples e sem peneiras no trato.

Tratam-na como sendo da terra, conta que as abordagens mais intensas são quando se desloca para as corridas. Muitos que lhes dão os parabéns, outros para criticar a profissão que escolheu. “Estão no seu direito de se manifestarem desde que respeitem quem gosta. No Campo Pequeno estão 20 pessoas a manifestar-se à porta e 7500 a bater palmas lá dentro”, argumenta.

Licenciou-se em Engenharia Ambiental, onde se cruzou com colegas que eram contra as corridas de touros. “Não tinham o real conhecimento da tauromaquia. Quando lhes expliquei, alguns tornaram-se aficionados e outros aprenderam a respeitar.” Por isso, não acredita que a festa brava irá acabar. “Poderá haver uma transformação daqui a muitos anos, mas acabar nunca. Realizaram-se três corridas no último fim de semana [ela toureou em Riachos (Torres Novas) e em Sizandro (Caldas da Rainha)], todas esgotadas.”

Acompanham-na oito pessoas: o apoderado, a moça de espadas (o que também é uma inovação na tauromaquia}, dois bandarilheiros, três empregados e um camionista. Deixou de ser uma empresa familiar – o pai era o seu empresário, o irmão e a irmã também trabalhavam para ela -, o número de cavalos tem aumentado, nada que, para Sónia Matias, signifique que se ganha muito na tauromaquia. “Claro que não poderia ter esta dimensão se não tivesse condições financeiras, mas também não sou uma pessoa de muitos gastos. E sou feliz”, justifica, para sublinhar: “Gasto muito mais com os cavalos, em garantir que tenham boas condições e que se apresentem bem.” Mostra onde estão os produtos de higiene, a medicação e as vitaminas. Para essa felicidade contribui, também, a partilha da vida amorosa com o seu bandarilheiro João Pedro, conhecido no meio por Juca.

A primeira mais uma vez

Sónia Matias volta a fazer história hoje à noite, não só como mulher mas também entre os cavaleiros homens, muitos poucos lidaram os seis toiros em Portugal, reconhece Maurício do Vale (ver entrevista). E, por estar no momento certo à hora certa, acabou por ser a primeira cavaleira portuguesa a profissionalizar-se, segundo o crítico tauromáquico. Conta que Ana Batista, de quem foi apoderado, toureava há mais tempo, fez muitas corridas em Espanha, mas acabou por se prejudicar porque a sua alternativa estava marcada para o dia de Sónia. “Ela pensou que como mulher não devia usar o traje de homem, mas sim o traje antigo da mulher, jaqueta e saia/calça, andaram com papéis de um lado para o outro a pedir autorização e, entretanto, o pai de Sónia, que era quem a representava, o seu o empresário, aproveitou a oportunidade. A Sónia Matias fez a alternativa a 18 de junho, no dia de anos da Ana Batista.” Duas mulheres com estilos bem diferentes, Matias a transformar cada lide num espetáculo e Batista num estilo mais clássico.

Passaram 17 anos da alternativa e 26 de quando começou a tourear. Uma menina de Lisboa, estudava no Colégio Manuel Bernardes, que não descendia da família tauromáquica e aprendeu a montar nos cavalos que se alugavam na Costa de Caparica. Tinha 6 anos. Aos 10 disse que queria ser toureira e aos 12 começou a participar em festivais tauromáquicos. Tem uma família com possibilidades económicas, que viu que o desejo era mais do que um capricho e mudou de armas e bagagens para Alcochete e instalou em Samora Correia tudo o que lhe era preciso para se tornar a cavaleira de hoje.

Num bom momento, tanto do ponto de vista profissional como pessoal, Sónia Matias quase que gostaria que a corrida de hoje já tivesse acontecido, tanto é o entusiasmo com que a aguarda. “Tenho consciência de que nem tudo depende de mim, que também depende dos cavalos e dos touros. Fica-se sempre um pouco ansiosa, mas também estou contente e feliz, o que se sobrepõe a todos os nervos.”

Fonte e imagem: dn.pt

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