Sonhos “de segunda”

Crónica

Sonhos “de segunda”

Começa a tornar-se hábito escrever sobre Marco Perez, talvez porque Marco Perez é o nome da ilusão de milhares de jovens que sonham ser toureiros e é a chama que não deixa apagar a esperança num futuro risonho para a tauromaquia.

Marco Perez é um menino de apenas quinze anos de idade, mas cujo sentimento quando toureia aponta uma maturidade que apenas está ao alcance dos mais experientes, dos predestinados. Este jovem está hoje anunciado para tourear num festival taurino numa das mais importantes feiras taurinas sul-americanas, na de Cali, para terminar assim em grande aquela que foi uma temporada sonhada. Um jovem que carrega às costas um sonho, um daqueles sonhos duros e que necessita de valentia e muita força de vontade para o alcançar. Todos os jovens têm sonhos que acreditam que conseguirão cumprir.

Jovens que sonham em ser jogadores de futebol, atores, entre tantas outras coisas, mas Marco Perez sonha ser figura do toureio. Este jovem foi impedido de dar mais um passo no cumprimento do seu sonho, ao ser impedido de tourear esta tarde em Cali. Certamente não será o fim do sonho, nem lá perto, mas uma pequena pedra no sapato do jovem toureiro. Mas será que alguém pensa proibir um jovem de quinze anos de jogar futebol ou representar numa peça de teatro? Será o sonho desse jovem um sonho “de primeira” e o de Marco Pérez um sonho “de segunda”? Afinal de contas, como um dia disse Orson Welles, “o toureiro é um ator a quem acontecem coisas verdadeiras!”.

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, proibiu Marco Perez de atuar em Cali, segundo ele, para sua segurança. Mas será que passa pela sua cabeça proibir um jovem da mesma idade de jogar futebol para que não tenha um acidente em campo?
São coisas diferentes, claro está, mas não será certamente menor o prazer sentido por Marco Perez quando pisa um ruedo que o prazer de um jogador de futebol com a bola nos pés. Conforta que o sonho “de segunda” de Marco Perez é superiormente valorizado por toda a família taurina, sendo prova clara disso a aplaudida volta ao ruedo que ontem deu na Monumental de Cali, a convite dos três toureiros atuantes, Emílio de Justo, Alejandro Talavante e Andrés Roca Rey, com uma praça em pé em sinal de profundo respeito e admiração pelo jovem.

Mas não se pode pensar que estes acontecimentos inadmissíveis apenas têm lugar na América do Sul, visto que temos em Portugal um jovem promissor de seu nome Tomás Bastos, filho do bandarilheiro David Antunes e sobrinho do saudoso matador de toiros José Júlio, que tem iguais aspirações de ser matador de toiros e, por uma inacreditável questão etária, se vê impedido de começar desde já a traçar o seu caminho. E ainda menos podemos pensar que esta é uma questão da sociedade atual, dado que a 18 de junho de 2009, passados já treze anos, o então bezerrista mexicano Michelito Lagravere, na altura com 11 anos de idade, foi impedido de tourear na Praça de Toiros do Campo Pequeno, numa novilhada de promoção aos novos valores. Mas Michelito Lagravere é a prova de que, mesmo com todos os impeditivos burocráticos, é possível um jovem sonhador ter futuro no mundo tauromáquico. O mexicano traçou o seu caminho no seu país e voltou no passado ano a terras de Portugal, onde atuou, doze anos de pois, na Ilha Terceira, mano-a-mano com o português David Gomes.

Tudo isto porque os sonhos “de segunda”, quando se luta por eles e se dá tudo para os alcançar, têm mais sabor que os “de primeira”.

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