Sonho de uma tarde de Verão

10 de Junho de 2107

Santarém, Praça de Touros Celestino Graça, Primeira Corrida da Feira Nacional da Agricultura

Diego Ventura – Morante de La Puebla – Julián Lopéz, El Juli

Grupo de Forcados Amadores de Santarém, Cabo João Grave

Ganadarias: Maria Guiomar Cortes de Moura (1.º e 4.º), Nuñez del Cuvillo (2.º e 5.º), Garcigrande (3.º e 6.º)

Direção: Lourenço Luzio, discreto, cumpridor e benevolente com os artistas, direção acertada.

Uma nota para a torería de Nuno Narciso, cornetim, que levou para sua casa uma das grandes ovações da tarde.

Shakespeare “sonhou” uma noite de verão e nós aficionados sonhámos uma tarde de verão, com figuras máximas do toureiro, ganadarias punteras, um grupo de forcados centenário, numa praça de primeira categoria.

A primeira nota é negativa, esperava-se uma casa cheia, merecíamos uma casa esgotada, não passou de meia casa, forte ou fraca, ¾, não sei, e pouco importa, fica essa discussão para os foros cibernéticos e redes sociais, pejadas de prós e contras. Devia ter enchido e não encheu.

A segunda nota, mais que positiva, para a empresa, João Pedro Bolota, mais que ousadia, teve a coragem de montar um cartel desta categoria, cartel que em qualquer praça de primeira em Espanha ou França seria de “no hay billetes”, três conceitos distintos de toureio, o Grupo de Forcados Amadores de Santarém e ganadarias de primeiríssimo cartel, o público português não respondeu, uns por birra nacionalista, dia de Portugal sem figuras nacionais; outros por cliché taurino, as corridas apeadas tem que ter sorte de varas, a corrida deve ser integral, e ainda outros, nem sei bem porquê.

Bem, aos nacionalistas podemos responder que ali celebra-se uma feira taurina, dentro de uma feira agrícola, para festejar, com todo o direito e legitimidade, o dia de Portugal, Camões e das Comunidades, tivemos cerimónias oficiais, presididas pelos nossos Chefes de Estado e Governo.

Aos puristas e integralistas no toureio a pé podemos contestar que quando se gosta de ver tourear até o vamos ver a um parque de estacionamento se for preciso e, acrescentamos, desde sempre tivemos corridas mistas, foram a nossa origem, sem sorte de varas e as praças enchiam. Recordo as fabulosas noturnas de verão da Praça de Touros do Campo Pequeno, os toureiros, figuras de então, eram sacadas em ombros até aos Restauradores, não tenho registo de nenhum outro toureiro, que não matador de touros, que tenha tido semelhante tratamento.

Abriu a corrida Ventura com um touro de comportamento típico murubeño, galope cadenciado, pastueño, sem apertar, sem exigir, correndo simplesmente atrás do cavalo, com a cara a meia altura, tudo isto, até se parar. Ventura tentou tudo, todos os recursos, cavalos a entrar pelo touro, qualquer terreno, o oponente não reagia, lide prejudicada pela falta de mobilidade e transmissão do touro.

Estes touros são enganadores, aparentam facilidades e depois a sua condição de parados pode prejudicar as pegas, sobretudo a forcados menos experientes, o que aconteceu na primeira pega dos Amadores de Santarém. Francisco Graciosa pegou ao terceiro intento, num touro que não investia, quando o fazia era brusco e exigia experiência a recuar rápido e na cara, para não o perder e conduzir o touro até ao grupo, nas primeiras duas saiu sem chegar aos ajudas, na terceira e já mais carregado ficou. Volta para ambos.

A Morante tocou o segundo e quinto, podemos resumir a sua passagem por Santarém como uma nuvem pouco ameaçadora num dia de sol, rápida, sem glória e sem pena. Os dois cuvillos que escolheu, muito justos de trapío, não sei se seriam aprovados para Badajoz ou Olivenza, praças de segunda, e de fundo não eram aprovados nem para uma “quema” de machos.

Sem recorrido, sem transmissão, sem finais, caras soltas, melhor o primeiro, mas que os ajudados por alto de Morante não ajudaram, no limite da força, quando lhes era exigido, não aguentavam.

No segundo, um jabonero sujo, conseguiu tirar três derechazos que não chegaram a aquecer o público. Não teve touros, verdade, mas também não teve muita disposição, tudo isto se aceitaria se não estivesse acartelado com aquele miúdo novo de Velilla, Julian Lopéz, el Juli.

Silencio e assobios em ambos os touros, assobios que na minha interpretação foram repartidos entre o touro, desilusão e falta de presença e o toureiro, pouca disposição.

Passo já a descrever o quarto, toureado por Ventura, um touro de comportamento típico murubeño, galope cadenciado, pastueño, sem apertar, sem exigir, correndo simplesmente atrás do cavalo, com a cara a meia altura, tudo isto, até se parar. Pensarão os senhores a esta altura que me enganei, que é exatamente o mesmo que disse do primeiro.

E disse, não por engano, mas então no que foi diferente? Tinha mais cara e parou-se debaixo da sombra, quando o primeiro se parou em sol/sombra, de resto não mudou muito.

Ventura mais uma vez esteve profissional, os cavalos mais que voluntariosos, a pisarem terrenos de compromisso e a tentar sacar tudo o que havia dentro dos Maria Guiomar, pena que foi pouco, não podemos deixar de realçar a doma, tranquilidade, arranjo e torería dos cavalos de Diego, vão a sítios impressionantes e levam os touros, enquanto galopam, colados nas garupas e pescoços, vale a pena assistir sempre.

Luis Seabra, após brinde ao antigo Cabo Diogo Sepúlveda, pegou à primeira, bem ajudado pelo grupo. Destaco o seu valor em não ter desfeito a pega e já na cara do touro, carregando, sempre com a perna para a frente e nunca sapateando, estar ali custa muito, desfazer a pega num touro parado significa mais capotazos, mais mexidas, em algo que dificilmente vai mudar, a condição do touro, assim carregou, recuou e fechou-se bem à primeira, entrando pelo grupo que fechou com discrição. Volta para ambos.

Deixei para o fim o mais encastado, mais bravo, mais transmissor de toda a tarde: El Juli, se ainda havia dúvidas sobre a sua supremacia no reino da tauromaquia, ali ficou dissipada, afinal não são precisos ovos para fazer omeletes, Juli é capaz de, com outros ingredientes, brindar-nos com manjares dignos de estrelas Michelin.

El Juli toureia em Santarém como em Madrid, em Aracena como em Sevilha, e em Chilpancingo como na México. A sua entrega, dedicação e disposição são simplesmente impressionantes.

Trouxe dois Garcigrandes, de presença aceitável e trapío no limiar, sendo o segundo mais anovilhado, no primeiro depois de o tratar muito bem, pronto y en la mano na saudação de capote, já ao som de La Vírgen da la Macarena, superiormente tocada pela Banda de Alcochete, desenhou uma faena de inteligência, toda a favor do touro, melhor pela direita, faltando finais por ambos os lados, pôs o touro a investir bem, nas proximidades, uma das principais qualidades do oponente foi a humilhação, cara por baixo nas investidas, Julian colocando-lhe a muleta tão bem que o touro já vinha humilhado antes dos embroques.

Santarém teve o privilegio de ver uma faena de inteligência, é verdade que com pouca mobilidade, mas entregado e desfrutando, e claro, com isso fazendo desfrutar. Sonora ovação e volta muito aplaudida para Juli.

O último, um manso perdido, sem um passe, ou talvez não, Julian inventou uma faena, aproveitando a inércia do touro que fugia dos muletazos, escoiceava, protestava, toureou-o onde ele deixava e se podia, nos curros, no sol, correu literalmente por todos os tendidos para lhe roubar muletazos.

O garcigrande nada lhe deu, foi-lhe tudo roubado e não creio que nas mãos de outro, o resultado fosse igual.

Explosão nas bancadas perante um toureio que foi o mais bravo e encastado da tarde, sem necessidade talvez, mas para Juli todas as tardes são tardes para jogá-la, e ontem, mais uma vez, foi o que vimos.

E assim se passou uma tarde de calor, uma tarde de verão que todos sonhámos, mas que apenas e só foi um sonho numa tarde de verão, talvez se sonharmos mais vezes se possa vir a concretizar.

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