Só morre quem é esquecido

Praça de Touros do Campo Pequeno, Lisboa, 06.06.2019

Corrida Correio da Manhã – Homenagem a Joaquim Bastinhas

Cavaleiros: João Moura e Marcos Bastinhas

Matador de Touros: Cayetano

Grupos de Forcados Amadores de Portalegre e Chamusca, capitaneados respetivamente por Gonçalo Louro e Nuno Marecos.

Ganadaria: Varela Crujo

Direção: Exmo Sr. Ricardo Dias (direção correta, discreta e muito a favor do espetáculo, realçando a sensibilidade e atenção para a volta à arena na recolha, premiando o quinto touro).

Meia casa de lotação

 

Histórica e culturalmente somos ensinados a temer a morte, de uma maneira mais ou menos fatalista, qualquer Religião nos inculca que na nossa frágil e vulnerável condição humana, a morte significa um fim de algo, não necessariamente o fim de tudo, mas de algo, nem que seja a presença física, aqui sim inevitavelmente.

Só morre verdadeiramente quem é esquecido, quem se perde e dissolve, como a neblina que levanta, pelas vidas que continuam.

Joaquim Bastinhas está vivo, continua vivo no toureio de Marcos, no toureio dos seus Colegas, nas palmas batidas de pé pelos espetadores, nos pares de bandarilhas colocados por todas as praças de touros, nas praças de touros, nas tertúlias, nas conversas, em suma, na nossa memória, não mais poderemos privar, mas temo-lo tão bem guardado nas recordações.

Joaquim Bastinhas vive porque só morre quem é esquecido.

Meia casa foi a lotação da Corrida Correio da Manhã em noite mais outonal que primaveril, começando a função com a Homenagem Pública da empresa, artistas e Família de Joaquim Bastinhas, bem no centro da Arena.

Passando à corrida propriamente dita, enquanto as gentes se acomodavam nos seus lugares, chegavam atrasadas, por costume, mau, mas costume, cumprimentavam uns e outros, tiravam as primeiras selfies, João Moura com apenas dois cavalos deu uma lide irrepreensível ao primeiro Varela Cujo, touro bem feito, ligeiramente quebrado de lombo, montado e investindo soltando a cara e com as mãos nos capotes, demasiado atacado de peso.

Com um conhecimento perfeito dos terrenos onde touro e toureiro deviam estar, deixou todos os ferros numa colocação perfeita. Quem sabe, e muito, não esquece, pena que tenha tido pouco eco, não foi uma lide emocionante, de transmissão, mas de muita técnica.

Pegaram o primeiro os Amadores de Portalegre, à segunda tentativa carregada, com o primeiro ajuda colado ao forcado de cara Ricardo Almeida, que na primeira não se conseguiu fechar, sofrendo derrotes para cima. Pega bem rabejada pelo Cabo Gonçalo Louro.

Volta para ambos.

O segundo touro, no mesmo tipo e comportamento que o primeiro, menos gordo, tocou a Marcos, que roubou a primeira grande e emotiva ovação ao pisar a arena.

O touro transmitia e trazia velocidade, condições que agradam a Marcos e permitem o seu conceito de toureio, ferros de praça a praça, começando logo com uma porta gaiola a dobra-se com o Varela Crujo.

Ferros e lide a alta velocidade, ladeares e transmissão para as bancadas, terminou com o par à Bastinhas e a explosão rompeu, já apeado, no centro da arena enquanto o cavalo recolhia para a Porta dos Cavalos.

Marcos toureava não só esta corrida, mas a saudade, o sentimento, as emoções, e esteve por cima de todas elas.

Pegaram os Amadores da Chamusca através Francisco Borges, que não conseguiu ficar na primeira, mas sim na segunda com todo o grupo a ajudar bem.

Volta para ambos e segunda volta para Marcos Bastinhas.

No terceiro instalaram-se burladeros e saiu Cayetano num touro com muita nobreza, bem feito embora também atacado de carnes para a sua estrutura, baixo, a transmitir muito nos primeiros tércios e cuja maior virtude foi o tranco e o galope, de todos os terrenos e todas as investidas foram a galope.

Cayetano recebeu com verónicas de joelho fletido, dobrando-se e meia discreta de remate.

No tércio de bandarilhas destapou-se a pouca confiança dos bandarilheiros, habituados ao tércio de varas, o Varela Crujo saia a galope e com velocidade e foi o cabo das tormentas, dificuldade na colocação, na fixação e na ferragem, a correr, deixar o que se podia e fugir saltando trincheira. Tércio fortemente assobiado.

Na muleta o touro era mais agradecido nas distâncias do que nas proximidades, aqui protestava nos finais e soltava a cara, queria terrenos de fora e bem embarcado, o que fez até ali. Cayetano assim não entendeu e foi fechando a faena numa circunscrição pequena, o touro rachou e fartou-se. Faena com pouco eco, melhor pelo lado esquerdo, ficou por ver vê-lo vir de longe.

Volta.

No quarto e sem perder tempo e nem a feijões, João Moura recebeu à porta gaiola, para depois apertar com ferros de carregar as sortes, pena que o touro tenha tida menos mobilidade e não tenha permitido maior eco na faena, embora toda a maestria e sabedoria tenham ficado naquela arena.

Pegou João Fragoso, por Portalegre, à segunda, na primeira tentativa saiu antes da chegada dos ajudas.

Volta para ambos.

O touro da corrida estava resenhado para quinto, colorado bem feito, baixo, com o galope e tranco ideais, sempre a responder, sem emparelhar e a perseguir, fixo e saindo de todos os lados, foi sempre em crescendo.

Marcos, já noutra velocidade mais lenta, que o animal pedia, iniciou com uma porta gaiola vistosa e vertiginosa, ferros de praça a praça e emoção na arena e nas bancadas, para rematar a marca da casa: par e apoteose.

Bernardo Borges, pelos Amadores da Chamusca, fez a pega da noite, touro saindo de largo, com alegria e velocidade, reúne com Bernardo e derrota-o para cima e para o lado, parecendo que o despejava, mas a vontade e moral, misturadas com a sorte, fizeram-no regressar à cara do touro para não mais sair, o grupo entrou rápido e fechou a pega mais aplaudida da noite.

Duas voltas para ambos, na primeira acompanhados pelo Ganadero.

Volta para o touro na recolha aos currais.

O sexto Varela Crujo, muito no tipo dos irmãos, aliás toda a corrida veio muito homogénea em morfologia, havendo alguns demasiado gordos para a estrutura, mas todos baixos e bem feitos de hechuras, investindo nos capotes soltando a cara e marrando com as mãos, foram melhorando ao longo das lides.

O sexto foi recebido de verónicas por baixo, obrigando e levando o touro para os médios. Foi melhor bandarilhado que o primeiro e na muleta repetiu-se um pouco o que havia passado no primeiro, os touros queriam distância, eram mais agradecidos por fora e de largo, Cayetano foi encurtando terrenos e toureando em redondo, com um piton direito bastante melhor que o segundo, ficando curto por ambos, nos finais dos muletazos, mas pela esquerda defendia-se mais.

Faena aplaudida e volta.

 

Marcos saiu em ombros, pertencia-lhe esse troféu, toureou dois touros com os quais esteve francamente bem, toureou as suas emoções, as emoções do público e as expetativas de ambos.

Joaquim Bastinhas esteve tão presente que não se vendo, podemos vive-lo e viver por ele, no toureio do Marcos, nos pares de bandarilhas, nas palmas batidas.

Só morre quem é esquecido, Joaquim Bastinhas vive em todos nós.

 

Bernardo Salgueiro Patinhas

 

 

 

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