Sentir-se sozinho em um longo casamento não vem da ingratidão, mas de uma falta de atenção

Sentir-se só numa relação longa raramente decorre de uma ausência palpável. Esta solidão instala-se subtilmente, nos pequenos vazios do quotidiano, quando os olhares já não se buscam como antes. Este fenômeno é silencioso. Não rompe a harmonia, mas transforma a proximidade em mera rotina. Um certo dia, sem saber exatamente quando, um percebe que o outro se tornou tão familiar que já não é realmente olhado.

Num suave e frio inverno, num pequeno apartamento situado à beira da cidade, um casal na casa dos cinquenta janta em silêncio após um dia comum. Juntos há mais de vinte e cinco anos, ele serve um pouco de vinho no copo dela sem que ela precise pedir.

Ela coloca o pão junto ao seu prato, como sempre fez. A televisão está ligada, mas sem som, mais pela presença do que por ser acompanhada. Nenhum dos dois fala realmente há vários minutos. E, no entanto, nada parece estranho nesta ausência de palavras.

Mais tarde, cada um se ocupará numa sala diferente

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Ela folheia um livro sem realmente ler as páginas. Ele consulta o telefone, absorto em informações sem muita importância. Descruzam-se no corredor, trocando algumas frases práticas e gestos simples. Nada hostil, nem frio.

Contudo, antes de se deitar, ela sentir-se-á estranha, com uma sensação indefinida, como se tivesse vivido o dia sem ter estado verdadeiramente conectada a alguém. Como se ninguém lhe tivesse realmente falado. Como se não tivesse sido realmente olhada.

Ele falara, é verdade. Contou sobre uma reunião, uma preocupação passageira, uma anedota trivial. Ela respondeu e escutou. Mas nada disso preencheu a necessidade mais profunda de se sentir ainda um pouco enigmática para quem já pensa saber tudo sobre ela.

É esta solidão de se sentir só num casamento longo que quase ninguém consegue descrever com precisão

Pois a linguagem para a nomear esbarra incessantemente na gratidão. Ela ama-o. Escolheria-o novamente. E sabe que é afortunada. No entanto, sob a superfície de uma vida realizada, persiste uma dorzinha que não se dissipa em saídas românticas, nem aparece formalmente como um problema que o casamento poderia resolver.

Basta observar casais casados há quinze, vinte, trinta anos para que o mesmo padrão se desenhe sob a gratidão. Uma solidão peculiar que não contradiz o amor, não anuncia o divórcio e não se entrega às soluções habituais. É a solidão de ser perfeitamente conhecida num âmbito, mas obscurecida em muitos outros.

Geralmente, interpreta-se que se sentir só num casamento longo é sinal de um problema conjugal: uma deriva, um fracasso, um sinal de alarme.

Os livros sobre terapia de casal tendem a apresentá-la dessa forma, assim como a maioria dos artigos de imprensa. Presume-se que se um cônjuge se sente ignorado, é porque procura em outra parte, que o casamento está a flutuar ou que um dos dois comete algo de errado. Mas esta interpretação ignora a verdadeira mensagem deste sentimento. Não se trata sempre de um julgamento sobre o parceiro, mas muitas vezes de um reconhecimento sobre o que o conforto e a rotina substituíram sem o seu consentimento.

O que desaparece é uma certa atenção: aquela que se recebe de alguém que ainda busca conhecer-nos. A atenção que se tem por uma verdadeira pergunta feita por uma pessoa que ainda não conhece a resposta. No início de uma relação, ambos são intérpretes.

Observamo-nos. Percebemos as variações de humor, questionamo-nos sobre o significado de um pequeno comentário, consideramos uma opinião isolada como um índice valioso. Esta atenção interpretativa é a essência de ser verdadeiramente olhado, escutado, compreendido. É também extraordinariamente difícil de manter ao longo das décadas, pois toda a estrutura de um lar está contrária a isso.

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O recurso que as pessoas gastam a cada dia

A rotina não é tão prejudicial como por vezes se sugere. Ela é a infraestrutura que permite a duas pessoas partilhar um teto sem ter de renegociar cada decisão comum sempre que surge uma nova situação.

Quem paga as contas? Quem chama o canalizador? Ou quem lida com os sogros? Sem esses hábitos definidos, a vida familiar torna-se extenuante.

Com eles, a vida é possível. O lado negativo é que esses mesmos hábitos que facilitam o dia a dia, obscurecem progressivamente a questão da identidade de cada um. Os papéis tornam-se rígidos. A atenção à interpretação diminui. O parceiro deixa de ser um desconhecido a compreender e transforma-se numa entidade conhecida com a qual simplesmente se deve conviver.

Conforto e intimidade emocional

Um recente report sobre relações duradouras da NPR estabeleceu claramente um compromisso: conforto não é sinónimo de partilhar uma intimidade emocional. E as condições que geram conforto, insidiosamente, privam os casais das condições propícias à proximidade emocional. Não se diz que o conforto seja algo negativo, mas sim que é um elemento nutritivo diferente da reconhecimento, e que um casamento baseado apenas num não pode sustentar-se indefinidamente sem o outro.

Este é o elemento estrutural que a maioria das pessoas negligencia quando tenta entender a sua própria insatisfação. O cônjuge não é o culpado. O casamento não está a ruir.

A atenção que se presta ao outro em casa organizou-se apenas por imperativos logísticos. Quando se olha para a forma como se sentia observado outrora, de forma espontânea, pela curiosidade, pela novidade, isso foi cedido gradualmente à mera obrigação de se recordar do outro.

Quando alguém se recorda de muitas coisas sobre si, isso não é negligenciável. É muito importante. Um parceiro que conhece o nome da sua irmã, que nota a tensão nos seus ombros antes de uma chamada, que adivinha o que está a comentar sobre o seu chefe há nove anos: isso representa uma intimidade que as relações mais recentes não podem oferecer.

Mas recordar tudo isso, é recordar quem você foi. Não é uma questão de quem você é hoje. E a solidão mencionada pelos casais casados há muito tempo situa-se quase sempre nesse vazio.

O que o sentimento de solidão revela realmente num casamento longo

A Psychology Today explorou o fenómeno da desconexão nas relações comprometidas. O que alguns descrevem como um sentimento de solidão compartilhada, quando os parceiros habitam o mesmo espaço, mas cessaram de procurar o vínculo emocional.

Esta formulação é importante porque questiona a lógica binária que a nossa sociedade continua a impor: ou estamos sozinhos, ou estamos acompanhados. Na verdade, pode-se estar cercado de pessoas e ainda assim sentir-se emocionalmente só, e estas duas situações não se anulam mutuamente.

A solidão não é a ausência dos outros, mas a incapacidade de comunicar o que nos parece mais essencial na vida. Dentro de um casamento duradouro, essa incapacidade raramente se manifesta através da hostilidade, mas sim pela eficiência.

A conversa que exigiria uma hora e meia de atenção reduz-se a um simples relatório. Os sentimentos que necessitariam de explicações são expressos através de um humor familiar, do qual o parceiro já conhece os caminhos. A tradução funciona. O reconhecimento é real. E, no entanto, algo se perde nesse comprimido.

Quem sente essa perda não é ingrato. Geralmente é muito grato, o que explica, em parte, porque esse sentimento é tão desestabilizador e difícil de expressar. Gratidão e solidão não deveriam coexistir. A sociedade não prevê uma categoria para o cônjuge que, sem hesitar, escolheria novamente essa pessoa e que, mesmo assim, se deita à noite com uma sensação de invisibilidade.

Assim, esse sentimento é reprimido, ou transformado em ressentimento face a trivialidades, ou ainda escondido como prova de um falhanço pessoal em encontrar a felicidade.

A versão de «ser reconhecido» que foi substituída

O que geralmente falta às pessoas ao descrever este tipo de solidão não é a paixão, mas sim a interrogação. O ato de ser questionado. A curiosidade despertada. A experiência de ver alguém considerar o conteúdo dos seus pensamentos como um território a explorar, em vez de um território já mapeado.

No início de uma relação, essa interrogação ocorre porque ainda não existe um mapa. Mais tarde, ela deve ser escolhida, e as condições que facilitam essa escolha são essenciais: tempo livre, poucos compromissos, familiaridade limitada. Tudo passado em calma.

Quando o olhar do outro permanece vivo

Um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology sobre o «modelo de desenvolvimento de si mesmo» demonstra que os casais que permanecem próximos são aqueles que continuam a considerar-se como pessoas em evolução, em vez de retratos acabados.

A argumentação do psicólogo era que os casais que ainda estão próximos se veem como pessoas em desenvolvimento, e não apenas como representações finais.

Essa perspectiva é útil porque coloca o trabalho numa dimensão clara. Este trabalho não reside na alquimia, mas na recusa em parar de questionar, em acreditar que o mapa está completo. É considerar o outro como uma pessoa cuja vida interior continua a ser escrita, mesmo após trinta anos de vida em comum, que, na teoria, deveriam tornar toda questão desnecessária.

A dificuldade não reside na preguiça. Fazer perguntas reais à pessoa com quem se vive exige uma energia que a vida adulta já consome amplamente. O trabalho. Os pais envelhecendo. Os filhos, se existirem. O dinheiro. A saúde. O peso cumulativo da gestão de um lar.

No tempo de preencher a máquina da louça, a atenção necessária a um reconhecimento mútuo já se esgotou. Então, oferecemos simplesmente a nossa presença. Corpos na mesma sala, televisão ligada, o conforto de um silêncio compartilhado. A presença é valiosa. Mas estar presente não é suficiente para responder a uma pergunta.

Por que a solidão de se sentir só num casamento longo é frequentemente mal interpretada

A interpretação errada mais comum desse sentimento, por parte da pessoa que o vive, é pensar que significa que o casamento foi um erro. Essa interpretação é quase sempre falsa e perigosa. Pois conduce a decisões baseadas num diagnóstico errôneo. O casamento em si geralmente não é o problema. É a forma como o interpretamos que é problemática, e estas são duas questões diferentes que exigem reações distintas. Terminar o casamento não restabelece a atenção à essa interpretação. Simplesmente remove a relação onde essa atenção residia.

A segunda interpretação errônea é acreditar que esse sentimento significa que o cônjuge deixou de se importar com o outro.

Geralmente, isso também é falso. Em casamentos longos, a atenção frequentemente se traduz em gestos concretos. O parceiro que percebe que precisa de renovar a receita, que assume o controlo numa semana difícil, que se apresenta no hospital sem que se peça.

Essa atenção concreta é uma forma de amor, e muitas vezes mais fiável do que o reconhecimento verbal que se recorda com nostalgia, evocando os começos da relação. Mas essa atenção concreta não dá a sensação de ser olhado, pois ser olhado não é uma questão de organização. É uma questão de curiosidade.

A terceira interpretação errônea, talvez a mais comum, é acreditar que esse sentimento significa que o parceiro solitário precisa de mais amigos, de mais lazer, de uma vida social mais rica. Isso é às vezes verdade. Muitas vezes não, pois o que falta não é a estimulação, mas o reconhecimento por parte da pessoa que tem mais legitimidade para conhecê-lo. Nenhuma vida social, por mais intensa que seja, pode preencher essa lacuna.

Já explicou-se que a exaustão social não está sempre relacionada à introversão. Pode tratar-se da fadiga específica de desejar uma conversa verdadeira e obter apenas diversas conversas educadas. O mesmo raciocínio aplica-se ao casal. Os substitutos não são suficientes, porque a necessidade fundamental é de uma atenção particular, vindo de uma pessoa específica.

O que acontece quando esse sentimento de solidão num casamento longo é nomeado?

Quando a solidão é expressa sinceramente no seio do casal, não como uma acusação ou um ultimato, mas como um consolo do que realmente sente quem a expressa, geralmente verifica-se que o outro cônjuge também sente, de maneira menos evidente, esse mesmo sentimento.

Ambos notaram a diminuição da atenção e compreensão mútua. Ambos temeram abordar o assunto, pois isso poderia ser visto como uma queixa, e num casamento longo, uma queixa é percebida como uma ameaça. Então, ambos permanecem em silêncio, e esse silêncio torna-se a nova norma, que a solidão ressalta.

A intervenção, quando ocorre, raramente é espetacular. Em vez disso, consiste em reativar progressivamente o hábito de interpretar. Faz-se uma pergunta cuja resposta é imprevisível. Escuta-se a resposta sem categorizá-la. E considera-se um pequeno comentário como um índice em vez de uma afirmação inquestionável.

Acredito que nada disso requer terapia, retiros ou novo vocabulário.

Isso exige comportar-se, em certos momentos, como alguém que ainda não conhece tudo sobre o outro. Após trinta anos, a questão de saber se isso é realmente possível é uma dúvida que poucos ousam abordar honestamente. O casamento, por sua vez, continua a fornecer provas do contrário.

Décadas de pequenos-almoços, de discussões e de suspiros previsíveis em momentos previsíveis. Comportar-se como se essas provas não fossem suficientes é, de certa forma, ir contra o conhecimento que se acumulou sobre a pessoa amada.

Alguns casais conseguem. Muitos não. Aqueles que não conseguem não estão a falhar na acepção que a nossa sociedade entende. Descobrem, simplesmente, tarde demais, que o conforto que levaram décadas a construir tem um preço: um recurso cujo fim desconheciam. E que o que essa solidão exige pode ser, talvez, irreversível, apenas lamentável, ou impossível de satisfazer pelo que o casamento atualmente pode oferecer.

Este artigo é fornecido para fins informativos e de reflexão. Não constitui, de forma alguma, um parecer médico, psicológico ou profissional. As ideias apresentadas baseiam-se em pesquisas publicadas e em observações editoriais, não resultando de uma avaliação clínica. Para a sua situação específica, consulte um profissional qualificado.



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