Selecção do Lusitano

Crónica

Decidi escrever este artigo sobre o cavalo Puro Sangue Lusitano e a importância que o toureio tem na Raça actualmente.

Há dias alguém escreveu num espaço do facebook que deveríamos voltar a fazer do Lusitano o melhor cavalo de sela do Mundo, referindo-se a fazer do mesmo competitivo na disciplina de Dressage. Pois eu considero que o Cavalo Lusitano é o melhor cavalo de sela do mundo! Não podemos exigir que o nosso cavalo seja o melhor cavalo numa disciplina que foi desenvolvida a pensar nos cavalos “warmbloods” centro-europeus, animais com características completamente diferentes do Puro Sangue Lusitano – PSL, ainda assim, penso que este terá uma palavra a dizer neste tipo de competição.

Mestre Nuno de Oliveira deixou uma escola sem par, onde será ainda o intérprete máximo, sendo as montadas quase invariavelmente cavalos PSL ou muito barrocos. Essa equitação apaixonou centenas de amantes do cavalo por essa Europa fora que descobriram no PSL a docilidade e capacidade de executar os exercícios de concentração como mais nenhum outro cavalo. Chegou o mercado do Brasil, onde, a princípio, julgo que não haveria um objectivo funcional na aquisição dos produtos, os brasileiros eram próximos aos portugueses e ao terem contacto com o nosso cavalo apaixonaram-se pela beleza e “arrogância” em todas as atitudes; graças aos criadores brasileiros aumentou exponencialmente o efectivo da raça, e têm hoje enorme importância na funcionalidade pela aposta e sucesso do PSL em Dressage, com os seus cavaleiros olímpicos a concursarem exclusivamente em cavalos Lusitanos (Luiza Tavares de Almeida, a título de exemplo, já participou em três edições dos Jogos Olímpicos com três cavalos PSL diferentes). Em boa hora chegou depois a disciplina de Equitação de Trabalho, onde os ginetes portugueses com montadas PSL são, sem excepção, Campeões Europeus e Mundiais. O PSL é ainda um cavalo ideal para jovens ou adultos com pouca experiência nas provas de hipismo ou mesmo para lazer. Actualmente há uma aposta muito forte dos criadores de PSL na Dressage, e começam a aparecer resultados muito positivos e, sobretudo, que nos permitem sonhar com voos mais altos. É esta versatilidade que me leva a defender ser o melhor cavalo de sela do mundo!

A minha tese e motivo que me levou a escrever este artigo é reflectir sobre a influência que a selecção do PSL para o toureio tem no sucesso da raça em tão variadas funções!

Focando-me agora mais na Dressage que é a aposta em voga, acredito piamente ser através das boas linhas de toureio que vamos obter produtos mais bem sucedidos nesta modalidade. Como referi acima, acredito, e os apaixonados pelo nosso cavalo devem acreditar, que o PSL tem uma palavra a dizer na Dressage de grande nível. Sobretudo depois de Totilas com Edward Gal, a disciplina teve um “boom” de espectacularidade que aproximou a equitação enquanto desporto à equitação enquanto Arte, com um cavalo que apesar de ser um super atleta, tinha a graciosidade de movimentos dos cavalos barrocos. Este facto pode em tudo ser benéfico para o PSL na disciplina, pois “abriu os olhos” dos juízes internacionais para um tipo de prova mais brilhante e emotiva, independentemente da correcção da mesma. Os exercícios de concentração com “joelho”, andamentos elevados, os galopes mais reunidos e as piruetas são “a praia” do nosso cavalo (os indivíduos com qualidade, claro está).

Com alguma decepção e receio pelo destino da Raça, verifico que alguns criadores mais recentes, e até talvez mais antigos que não são aficionados, tendem a considerar que as linhas de desporto têm de ser diferentes das linhas de toureio. Quanto a mim, a grande mais valia da raça é a boa índole, entrega ao cavaleiro (sempre pronto a dar mais do que a condição física parece permitir), a capacidade de se voltar num “palmo de terreno”, aumentar e reduzir o galope subitamente, tudo características conferidas pela secular selecção para o toureio, que é causa de óptimos adjectivos e versatilidade no cavalo lusitano actual.

Procurar os trotes “grandes” como os dos “warmbloods” é renunciar aos andamentos elevados e capacidade de concentração do PSL, e ficamos com produtos que não são “carne nem peixe”. O cavalo lusitano não é um super atleta, devemos procurar sim melhorar a capacidade atlética, mas fixando sempre as características originais da raça, se as perdemos, perderemos uma raça com uma identidade única atrás de um sonho quimérico, uma utopia que não é mais do que querer fazer do lusitano um comum cavalo centro-europeu, com um nefasto desfecho se todos enveredarmos por aí.

Não pensem os leitores que sou contra todo o lusitano que não provém de linhas toureiras, temos exemplos de linhas Alter-Real, nomeadamente descendentes do Xaquiro CI que têm provas dadas em Dressage e equitação de Trabalho, e são inquestionavelmente animais com relevância funcional na Raça, com capacidade atlética acima da média. Ainda assim, acredito e tenho verificado que os melhores produtos com essas ascendências são aqueles que têm na sua genética também linhas com provas dadas no toureio.

Acho sim que se deve seleccionar os animais pela sua capacidade atlética, correcção de andamentos, mas não olhar para os animais de toureio como as “pilecas do pica-pica”, animais ultrapassados nos tempos que correm e em desuso para a raça moderna. A boa cabeça característica do PSL que lhe confere espírito de sacrifício e de colaboração com o cavaleiro, sempre pronto a dar mais, assim como os bons galopes que temos na Raça, ao toureio o devemos, não tenho quaisquer dúvidas (em relação ao galope basta observar o cavalo vizinho Pura Raça Espanhola – PRE e fica fácil entender que o fim do toureio a cavalo em Espanha por proibição de D. Filipe V em meados do Séc. XVII resulta na menor qualidade funcional no cavalo PRE actual).

Julgo que o Novilheiro MV será ainda actualmente a maior referência do PSL no desporto (esteve em 12º no ranking mundial de cavalos de saltos, na dressage ainda não atingiu nenhum esse patamar. Fez ainda provas de Concurso Completo de Equitação nos moldes antigos e muito mais exigentes, e Dressage até nível de “Saint George”) filho do Firme SA e da Guerrita MV é curiosamente (ou não!) irmão pleno do Opus 72, uma das nossas maiores referências a tourear… São ainda ambos progenitores de inúmeros animais que se distinguiram a tourear e a competir em desporto!

Esta é a minha opinião, enquanto aficionado e apaixonado pelo Puro Sangue Lusitano. Aceito outras. Mas fico grato ao toureio não só pelo que desfruto ao assistir a esse espectáculo assim como por todo o sucesso que permitiu à Raça e acredito plenamente, ainda muito está por vir!

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