Rouxinol, Pamplona e pegas com estrela de Merced(es) – crónica da Corrida das Festas da Praia 2023

“Para disfrutar do toureio não bastam os olhos. Aos que não têm a sensibilidade adequada, escapa-lhes a essência do mesmo: veem apenas os movimentos exteriores sem perceberem a sua ligação com uma profunda disciplina, do mesmo modo que as pessoas sem ouvido para a música conseguem perceber os sons, mas não a sua relação harmónica.” José Alameda.

Praça cheia, grande ambiente e expectativa, mesmo que nem sempre fosse entendida a relação harmónica entre os sons que brotavam da arena. Corrida das Festas da Praia com um curro de Rego Botelho (2) (RB), Casa Agrícola José Albino Fernandes (1) (JAF) e João Gaspar (3) (JAF). Discrepância de números, por ter sido rejeitado um exemplar JAF ao não atingir o peso regulamentado (430Kg) no “Regulamento Geral dos Espectáculos Tauromáquicos de Natureza Artística da Região Autónoma dos Açores”, para corridas em praças de primeira categoria.

Com homenagens começou a tarde: a Luís Rouxinol pela sua estreia, há 36 anos, numa Corrida realizada no âmbito das mesmas festividades, ao Grupo de Forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense (GFATTT) pela celebração do seu 50º aniversário e ao Grupo de Forcados Amadores de Merced (Califórnia-EUA) (GFAM) pela passagem dos seus 15 anos de existência.

Abriu praça um bom exemplar JAF (nº170, 448Kg). Bem rematado, mas escasso de cara, deu boa conta de si e investiu com som. Luís Rouxinol tirou partido do bom oponente que tinha pela frente e, com todo o seu conhecimento e recorte toureiro, rubricou uma boa lide a mostrar que vinha para triunfar. Variado nas escolhas de terreno e correcto nas cravagens, chegou cedo às bancadas. O seu segundo toiro (JG, nº94, 455Kg) saía desligado das sortes e tinha pouca transmissão. O Cavaleiro do Montijo palmilhou terreno e gradualmente foi conseguindo colocar no toiro o que ele não tinha, explorando assim o pouco que ali havia. Lide correcta e com ligação ao público, terminada com um par de bandarilhas em terrenos de dentro.

Sónia Matias regressou à ilha Terceira passados largos anos. Da sua presença fica na retina o soltar do cabelo, em ambas as lides, e a constante colocação das mãos da montada no estribo da Praça. Cravagens a aliviar e preocupação com o público…faltou tourear. O “Fidalgo” (JG, nº5, 433Kg) carregava pouco e foi enquerençando nos tércios, pedindo que lhe mexessem com os terrenos, já o “Pendular” (RB, nº94, 559Kg) entregou-se à luta, merecendo outro tipo de lide, para que pudesse expressar o seu comportamento em pleno. Sobrou toiro. Voltas à arena e música, durante as lides, deveriam acontecer como prémios para bons desempenhos e não apenas porque…sim!

Para Tiago Pamplona saiu um RB corpulento (nº5, 522Kg) brocho de córnea. Distraído e ficando-se curto na investida, não complicou, numa lide em que se viu inteligência e saber. O Cavaleiro adequou-lhe a lide, obrigou o toiro a ligar-se e saiu em bom plano. A corrida havia de fechar com um bom exemplar de JG (nº1, 472Kg). Um toiro que foi crescendo com o desenrolar da contenda, empregando-se e dando boa réplica aos mandos do cavaleiro. Pamplona desempenhou a função com uma constante ligação ao toiro. Toureou bem: bregou com correcção e esteve criterioso na preparação das sortes, pautando as viagens com o ritmo certo. Também desta forma se chega às bancadas, fazendo vibrar não só quem apenas sente a música, mas também quem entende a harmonia. Pelo segundo ano a sair em plano de triunfo na Corrida das Festas da Praia.

Nas pegas estiveram em praça, pelo GFATT: o jovem João Bettencourt que à segunda efectuou uma boa pega, sendo muito bem ajudado pelo grupo; João Vieira sentiu o poderio do toiro que teve pela frente e fechou-se à 3ª com ajudas mais carregadas; João Silva que se fechou à segunda, depois de ter estado menos bem na cara de um oponente que pedia contas. Pelo GFAM: João Azevedo (cabo) moralizou o grupo com uma boa pega à primeira tentativa, tal como haviam de ser as restantes pegas do grupo. João Vitorino esteve valente numa rija pega e, a finalizar, Aaron Sauer, que apesar de tropeçar no momento da reunião, fechou-se com querer, sendo muito bem ajudado pelo grupo.

A corrida foi dirigida, com alguma condescendência, por Mário Martins, auxiliado pelo médico veterinário Vielmino Ventura. A abrilhantar, a Banda da Sociedade Filarmónica Recreio Lajense. O intervalo da Corrida foi animado pela Escola de Pandeiros de Santa Bárbara e os Aprendizes de São Brás.

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