Ribeiro Telles – Exaltação do Toureio Equestre em noite de Apoteose

Ribeiro Telles – Exaltação do Toureio Equestre em noite de Apoteose

  • Almeirim, 16 de Setembro de 2022
  • Cavaleiros: António Ribeiro Telles, Manuel Telles Bastos, João Ribeiro Telles, António Ribeiro Telles filho e Tristão Ribeiro Telles
  • Forcados: Chamusca e Aposento da Chamusca
  • Ganadaria: Passanha
  • Lotação esgotada
  • Direção de Marco Cardoso assessorado por José Luís Cruz

A semana começou chuvosa, para gáudio geral, mas, essencialmente, para quem vive da actividade agrícola, porém, a sexta-feira já despertou sem precipitação e com temperatura muito agradável, o que proporcionou uma noite tão amena na Arena d’Almeirim, a rebentar pelas costuras com um público simpático e afectuoso, manifestamente apreciador do toureio equestre e admirador da Família Ribeiro Telles, cujos cavaleiros no activo compunham tão invulgar cartel.

As circunstâncias envolventes ao próprio espectáculo prenunciavam uma noite de êxitos e os toiros da Ganadaria Passanha, bem apresentados e com satisfatórias condições de lide, também deram o seu contributo, pois exigiram que quem os enfrentou soubesse ao que ia, mas, sem serem bravos, facilitaram o labor dos marialvas da Torrinha. Foi uma noite memorável, coroada com a volta do maioral da Ganadaria após a lide do quinto toiro da noite, e do próprio ganadeiro, na volta triunfal com todos os protagonistas.

António Ribeiro Telles, o decano toureiro da família, enfrentou o toiro que mais cobrou, no entanto, o saber, o valor e a apurada técnica deste ilustre cavaleiro permitiram-lhe construir uma lide portentosa, fiel ao conceito clássico que caracteriza o seu labor, mas diversificada e alegre pela brega que ministrou, nunca deixando o hastado fixar-se em terrenos de querença, e colocando emotiva e vistosa ferragem, muito aplaudida pelo conclave. Volta muito merecida.

Manuel Telles Bastos, que tem toureado menos do que em temporadas anteriores, é outro cultor do toureio que se aprende na Torrinha, tão densamente aprendido com seu querido avô. Bregando vistosamente para preparar cada sorte, citando frontalmente, a mostrar-se bem e a conceder a primazia de investida ao seu oponente, cravou a ferragem em sortes emotivas e pisando os terrenos do toiro. Elegante e com senhorio, Telles Bastos desenhou uma lide muito agradável, séria e perfeita, que o público sufragou com o vigor das suas ovações.

João Ribeiro Telles vive um momento de forma extraordinário, assente na valia da sua “quadra”, mas, sobretudo, na qualidade técnica e artística que consegue exibir com uma assinalável regularidade, mais parecendo que todos os toiros que enfrenta reúnem as melhores condições para alcançar os triunfos. E tal não é tanto assim, pois, é o ginete da Torrinha que apresenta válidos argumentos para todas as situações. João Ribeiro Telles conseguiu caldear o classicismo de seu tio António com a expressão estética, de um inebriante perfume, que caracterizou a tauromaquia de seu pai, demonstrando como o conceito clássico permite novas abordagens, não constituindo qualquer estagnação técnica. João rubricou nesta noite uma actuação portentosa na qual explanou com eloquência os seus atributos, lidando superiormente o seu oponente, elegendo os melhores terrenos, e culminando sortes frontais de uma emoção arrepiante, destacando-se pelo seu brilhantismo o ferro com que rematou tão extraordinária lide.

António Ribeiro Telles (Filho) já é, apesar de ainda ser “praticante”, um senhor toureiro, tão vastos são os conhecimentos que exibe na arena, onde mexe o toiro como mandam as regras, e desenha sortes com um tal mérito e valor como se já toureasse há anos a fio. Alegre e comunicativo, António tem o condão de conquistar o carinho do público, que se lhe rende inquestionavelmente, ovacionando-o com calor e muito afecto. No entanto, manda a verdade que se diga, que o jovem marialva não se poupa e cumpre com distinção o que espera de um toureiro da Torrinha. Enfrentou um toiro que lhe pediu contas e que o jovem marialva bem soube aproveitar rubricando uma actuação de elevado quilate.

O mais jovem toureiro da Família, Tristão Guedes de Queiroz, enfrentou um toiro colaborante, frente ao qual expendeu uma boa lide, assente numa brega correcta e perfeita, entendendo bem os terrenos do toiro e as suas distâncias, e cravou certeira e emotiva ferragem, privilegiando as sortes frontais consumadas em reuniões muito apertadas. Evidenciando uma certa irreverência, tão natural na sua idade, Tristão empenha-se em impor o seu estilo, alegre e dinâmico, mas onde nota muita intuição e uma certa maturidade e segurança. Rematou a sua bela actuação com um vistoso “violino” que o público ovacionou com carinho e vibração.

O último toiro da corrida foi lidado pelo magistral quinteto de cavaleiros, sob a batuta, sabedora e lúcida, do Maestro António, que recebeu o toiro à porta gaiola e cravou dois ferros compridos muito aplaudidos. Entrou em praça Manuel Telles Bastos e, após duas passagens em falso, colocou um meritório ferro curto, tendo em seguida João Ribeiro Telles colocado mais um portentoso ferro, após vistosa preparação com seu primo Manuel, e já em ambiente de justificada apoteose coube a vez aos mais jovens marialvas da Família contribuir para o espírito festivo que já se vivia na arena e nas bancadas, correspondendo com mais dois ferros curtos colocados em sortes muito apreciadas. Mestre António deu sinal para terminar a lide e o público, plenamente rendido à exibição de todos os marialvas da Torrinha, brindou-os com uma tremenda ovação, amplamente merecida.

Nas pegas estiveram em grande plano os valorosos Grupos de Forcados Amadores e do Aposento da Chamusca, que, se tal ainda era possível, acrescentaram mais brilhantismo e emoção ao que nos foi dado viver nesta noite almeirinense. Pelos Amadores da Chamusca foram solistas Nuno Marecos, o Cabo do Grupo, que consumou boa pega ao primeiro intento, Miguel Santos que, igualmente, consumou a sua sorte num único intento, e Francisco Rocha, que à segunda tentativa concretizou uma valorosa pega. Pelo Aposento da Chamusca Francisco Montoya consumou a sua sorte à primeira tentativa, com eficaz ajuda de Pedro Coelho dos Reis, que viria a lesionar-se, Vasco Coelho dos Reis consumou boa pega, à segunda, e Francisco Souto Barreiros fechou-se com alma e decisão, consumando a sua sorte à primeira tentativa.

Enfim, viveu-se uma noite histórica a favor da Tauromaquia e, especialmente, na consagração do toureio equestre e da “Escola da Torrinha”, que tanto continua a contribuir para a valorização e dignificação da Festa em Portugal. Parabéns a todos os bandarilheiros e aos campinos que também valorizaram a corrida com as suas acertadas intervenções, e a Custódio Castelo e João Chora, que abrilhantaram algumas lides ao som da guitarra portuguesa e da viola de fado. Marco Cardoso, assessorado pelo Dr. José Luís Cruz, dirigiu o espectáculo com acerto e competência.

 

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