Referências

Crónica

Em todos os setores da nossa vida, temos referências, seja nas partes profissional, familiar ou nas relações de amizade. Os Forcados não são exceção e, desde o dia em que se chega a um grupo de Forcados, começa- se a observar e absorver tudo o que ali se passa.

Um Forcado principiante vai tentar imitar o cite de alguém que adora ver em praça, fechar-se como outro que viu agarrar-se como ninguém, ajudar como aquele que nunca se desvia e assim sucessivamente. Será o próprio a escolher as suas referências individuais, mas será o Grupo que o irá guiar nas referências coletivas.

Os ensinamentos começam logo no primeiro treino, continuando na primeira fardação, na primeira pega e durante toda a vida de um Forcado. Chegará o dia em que ele próprio será uma referência para quem chega de novo, mas nem nessa altura terminará a aprendizagem e a evolução, pois, nesta arte, aquele que pensar que pega tudo e menospreza o desafio que em pela frente, tem uma tareia inglória à espreita. Pode até perder ou controlar o medo, mas jamais se pode perder o respeito pelo touro. É certo que as tareias são inerentes à vida de qualquer Forcado, mas são muito mais facilmente superáveis por aqueles que se veem como uma peça de uma obra grandiosa que é o Grupo, ao invés daqueles que se acham no centro de todas as objetivas.

Habituei-me a ver, nas praças desmontáveis, grupos a darem as primeiras oportunidades aos seus jovens valores. É algo delicioso ver um jovem Forcado a enfrentar o seu primeiro touro, a ansiedade do cara, os “nervos” do cabo que, geralmente, está mais interventivo nestes dias, os ajudas mais velhos preocupados com o “menino”. Apesar de haver a responsabilidade inerente a qualquer corrida, vive-se um ambiente de aprendizagem, com alguns dos Forcados mais consagrados, não fardados por opção, a tentarem também passar os seus ensinamentos aos mais novos. Ao vermos a alegria estampada nos rostos daqueles miúdos, que acabaram de fazer aquilo por que têm andado a lutar, por vezes, durante anos, nos treinos, ferras, corridas sem se fardarem, lembramo-nos que também nós já fomos assim, emocionamo-nos e o grupo respira saúde. Isto é Escola!

Hoje, existem demasiados grupos e poucas corridas por Grupo, por isso, cada vez é mais difícil dar oportunidades aos mais novos para evoluírem em corridas de menos responsabilidade. Este fator vai provocar uma evolução mais lenta nos Forcados e, por vezes, quando chega o dia das corridas importantes, o cabo “tem” de apostar em Forcados com pouca experiência. Assim, é comum ver, em corridas importantes, Forcados que percebemos terem pouca experiência, o que não é criticável, tendo em conta os tempos que vivemos e, sobretudo porque, na maior parte dos casos, não existe alternativa. Contudo, a pouca experiência jamais justifica a falta de vontade, o desnorte e até Forcados mal fardados que vemos em algumas ocasiões, nestes casos, percebe-se que o Grupo falhou,

principalmente, na parte de passar as referências básicas do que é ser Forcado.

Tenho consciência que, nesta época de poucas corridas por grupo, seja difícil, por vezes, dizer que não, mas é, precisamente, essa coragem de dizer não que marca muita da diferença existente entre Grupos com e sem Referências. Há caminhos para somar atuações, que são fáceis, mas verdadeiramente vergonhosos, como o que vimos recentemente de “grupos” que atuaram em espetáculos de recortadores, o que demonstra de forma categórica que há pessoas a envergar uma jaqueta que não fazem a menor ideia do que ela representa nem do peso que tem.

Atualmente, o maior exemplo público, da aprendizagem dos valores do que é ser Forcado, é a Associação Praça Maior!

Que lufada de ar fresco na nossa Festa, que chapada de luva branca a todos aqueles que só querem tirar dinheiro e protagonismo, sem dar nada em troca! Eles, como antigos forcados, sabem que, para o Grupo de Santarém, é importante que a “sua” praça tenha vitalidade e terão achado que a arena onde viveram momentos inesquecíveis não podia deixar de ter corridas de toiros. Posto isto e, imagino eu, quando já pensavam ter dado todo o seu contributo ao Grupo, aceitam o desafio de ser empresários da Celestino Graça. Isto é ser Forcado! É saltar à arena sem garantias de sucesso, sem receber nada em troca (entidade sem fins lucrativos!!!), motivados pela amizade e aficion. Enganem-se os que pensem que, na arte de pegar touros, só existe o citar, carregar, recuar, etc., coisas que estes Senhores também fizeram e sem mácula. É sim toda uma forma de encarar a vida e os desafios que aí é transmitida e que os fez, certamente, abdicar de tempo que poderiam dedicar à família, aos amigos, à profissão e dedicá- lo ao Grupo, à Celestino Graça e à Tauromaquia. Para esta Associação, envio daqui um forte abraço de amizade e admiração!

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