É comum reparar em comportamentos curiosos, mesmo sem lhes prestar atenção. Um desses gestos quase automáticos, que muitos adotam sem consciência, é a tendência de andar de um lado para o outro enquanto falam ao telefone. Já se apanhou a passear pela casa durante uma chamada, sem se dar conta? É surpreendente como os nossos pés, por vezes, tomam o comando enquanto trocamos palavras com alguém querido.
De acordo com a psicologia, **existe uma razão científica** para a necessidade de movimento que algumas pessoas sentem ao falarem ao telefone: está relacionado à forma como o cérebro processa a informação. Curiosamente, muitas pessoas permanecem imóveis durante essas conversas; por isso, se você é daquelas que faz os centauros a caminhar, saiba que é uma exceção à regra!
A necessidade de se mover para processar a informação

Quando lhe dá vontade de andar pela casa enquanto conversa ao telefone, é porque o seu cérebro necessita desse movimento para processar a informação, especialmente na ausência de referências visuais.
Se você tende a estar sempre em movimento durante as chamadas, já reparou que esse ímpeto não surge quando está a tomar um café com amigos ou em conversas cara a cara?
Não se trata apenas de considerar que seria indelicado andar de um lado para o outro numa esplanada. É também porque, nas conversas presenciais, o seu cérebro capta sinais visuais do interlocutor, o que facilita a compreensão do que está a ser dito.
Esses sinais visuais transmitem emoções, às quais o cérebro reage. Ken Fogel, doutor em psicologia, salienta que, “quando uma pessoa está presente, não somos os únicos a sentir essas emoções; elas circulam de uma parte para a outra.”
Ele acrescenta: “Mas ao telefone, é como se estivéssemos a manusear uma batata quente que não podemos passar a ninguém.” Aqui é onde o movimento faz a diferença. Ele ajuda o seu cérebro a processar tanto os sinais que envia como aqueles que não recebe do interlocutor.
C aqueles que se movimentam ao telefone utilizam esse movimento para **liberar espaço mental** e compreender melhor a conversa.
A perspetiva das neurociências

Num vídeo recente, Kyle Cox, um criador de conteúdo especializado em neurociências, explorou este fenómeno, explicando, à semelhança de Fogel, que o cérebro assume o controle durante uma conversa telefónica, levando-nos a caminhar e, assim, libertando espaço mental para processar a informação ouvinte e formular a resposta.
Cox observa que “o cérebro **necessita de movimento** para processar uma conversa verbal em tempo real na sua totalidade”, fenômeno que recebeu o nome de “recrutamento motor”.
Além disso, ele esclarece que algumas pessoas não precisam de se deslocar ao falar ao telefone, sendo que “processam a informação verbal sem recrutamento motor.”
A marcha como motor de reflexão e criatividade
Fazer os centauros enquanto se fala ao telefone também **ajuda a refletir**, estimulando a criatividade. O nosso cérebro é verdadeiramente extraordinário. Quando precisa de refletir, automáticamente encontra formas de evitar distrações que poderiam desviar a atenção do objetivo.
Quando anda ao telefone, o objetivo é participar ativamente na conversa.
<p, mas essas interações não se limitam a meros trocadilhos. Algumas exigem mais reflexão, e o movimento torna-se especialmente importante.
De fato, **uma pesquisa de 2014** estabeleceu um vínculo direto entre a marcha e o pensamento criativo, confirmando que algumas pessoas necessitam desse movimento quase automático para permitir ao cérebro processar a informação e gerar ideias.
Gesticular para melhor pensar

Fazendo movimentos enquanto fala ao telefone, a ação não é muito diferente do que gesticular. Podemos questionar a sua relevância, uma vez que quem está do outro lado não vê, mas uma **pesquisa da Universidade de Washington** revelou que gesticular enquanto fala, mesmo ao telefone, tem benefícios para quem se movimenta, mais do que para quem apenas escuta.
Os nossos gestos inconscientes podem surpreender-nos. O complexo de rede neural que sustenta as nossas atividades, tanto conscientes quanto inconscientes, permanece, em grande parte, como um mistério.
Compreender essas ações automáticas ajuda-nos a entender melhor a nós próprios e a apreender o nosso funcionamento, evidenciando que até as ações mais simples exigem uma significativa atividade cerebral.
Portanto, o ato de andar enquanto se fala ao telefone não é um mero tiques, mas sim uma resposta **natural do nosso cérebro** à falta de referências visuais. Mobilizando o corpo, a mente processa melhor a informação, regula emoções e estimula a reflexão, podendo até potenciar a criatividade.
Este gesto automático ilustra o vínculo profundo entre movimento e pensamento, lembrando-nos que, às vezes, o cérebro utiliza o corpo como ferramenta fundamental para se comunicar e para compreender o mundo que nos rodeia.




