Por que algumas pessoas se fecham quando estão chateadas, um reflexo frequentemente aprendido na infância segundo a psicologia

Certas reações são fáceis de interpretar erroneamente. O silêncio, por exemplo, pode dar a impressão de rejeição ou de um desejo de castigar o outro. Contudo, por detrás dessa atitude pode estar um mecanismo bem diferente. A psicologia ajuda a entender por que algumas pessoas se fecham quando estão incomodadas. Elas não são necessariamente desprovidas de emoções e não buscam sempre punir os que as rodeiam. Em muitos casos, permanecer em silêncio é um reflexo aprendido numa família onde expressar desacordo poderia gerar tensões abruptas.

O que pode parecer desprezo ou punição pode ser uma reação de proteção desenvolvida desde cedo.

Imagine alguém que pergunta ao parceiro o que está mal. Como resposta, recebe um encolher de ombros e um curto “nada”. Minutos depois, a outra pessoa permanece em silêncio no sofá, com o rosto fechado e o olhar desviado.

Essa atitude pode parecer deliberadamente fria e distante.

Entretanto, interiormente, a experiência pode ser diferente, como se o sistema se estivesse a proteger e as palavras se tornassem temporariamente inacessíveis.

Por que algumas pessoas se fecham antes mesmo de encontrarem suas palavras

Imagens Pexels e Freepik

Após décadas a observar conflitos entre casais, o psicólogo John Gottman descreveu um fenómeno conhecido como «stonewalling», que pode ser traduzido por bloqueio ou fechamento emocional.

As suas pesquisas indicam que as pessoas que se murmuram no silêncio durante uma discussão podem estar a experimentar uma forte ativação fisiológica. Essa ativação pode manifestar-se através de um aumento da frequência cardíaca, libertação de hormonas relacionadas com o stress e um desencadear de uma reação semelhante à luta ou fuga. Os trabalhos de Gottman sobre o stonewalling revelam que, por detrás de uma aparente frieza, pode haver um autêntico transbordo emocional.

Nesse estado, encontrar as palavras certas torna-se particularmente difícil. Algumas pessoas se encerram não porque não têm nada a dizer, mas porque temporariamente não conseguem organizar o que sentem.

Este mecanismo ajuda a entender o que acontece no momento. No entanto, não explica por que essa reação se torna um hábito.

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Um hábito que pode ter raízes na infância

Algumas pessoas se fecham porque cresceram em um ambiente onde a expressão das emoções poderia alterar instantaneamente a atmosfera familiar.

Não se tratava necessariamente de grandes conflitos. Podia ser um pai que deixava de falar durante dias, uma tensão repentina à mesa ou um comentário que era suficiente para ofuscar uma noite inteira.

Os investigadores Patrick Davies e Mark Cummings estudaram esses mecanismos no contexto da teoria da segurança emocional.

As suas pesquisas mostram que as crianças expostas a conflitos parentais significativos podem desenvolver maior vigilância, evasão e medo face a tensões.

Pesquisas posteriores também descreveram em algumas crianças uma hipervigilância em relação ao ambiente. Elas tornam-se particularmente atentas a mudanças de humor e tentam antecipar o que poderia perturbar o equilíbrio familiar.

Gottman e Lynn Katz também se interessaram pela forma como os pais percepcionam as emoções dos seus filhos. Alguns acolhem a raiva ou a tristeza como emoções a compreender e a acompanhar. Outros buscam principalmente fazer com que desapareçam rapidamente.

Uma criança pode então aprender a observar a atmosfera em vez de partilhar o que sente. Anos depois, essa estratégia pode ainda manifestar-se nas suas relações.

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Quando as pessoas se fecham, o silêncio pode também ferir o outro

pessoas se encerram

Entender a origem de um comportamento não significa ignorar suas consequências.

Kipling Williams, investigador na Universidade Purdue, estuda há muito o ostracismo e a exclusão social. Os seus trabalhos demonstram que ser ignorado pode provocar um sofrimento comparável, em certos aspectos, ao que se associa à dor física.

Essa experiência pode ameaçar várias necessidades fundamentais, como o sentimento de pertença, a autoestima, o controle e a sensação de que se é importante para os outros.

Williams ressalta ainda que o silêncio pode tornar-se uma maneira particularmente difícil de excluir alguém.

A pessoa silenciosa não busca necessariamente punir o seu parceiro. No entanto, para aquele que espera uma resposta, o resultado pode ser doloroso.

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O ciclo que realmente alimenta o conflito

Um parceiro deseja falar. Outro se retira. Quanto mais o primeiro insiste, mais o segundo se sente encurralado e se fecha. Quanto mais ele se fecha, mais o parceiro busca uma reação.

Em psicologia da comunicação, esse mecanismo é frequentemente chamado de padrão «pedido-retirada».

Uma meta-análise realizada por Paul Schrodt, baseada em 74 estudos envolvendo mais de 14 000 participantes, revelou uma associação entre esse funcionamento e dificuldades relacionadas com a satisfação relacional, a intimidade e a comunicação.

O problema não reside, portanto, necessariamente em uma só pessoa. Muitas vezes, é a sequência entre insistência e retirada que acaba por aprisionar os dois parceiros.

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Como as pessoas que se fecham podem sair deste mecanismo?

Para aquelas pessoas que se fecham quando se sentem sobrecarregadas, pode ser mais útil explicar o que se passa do que desaparecer no silêncio.

Uma frase como « Estou demasiado tenso para continuar agora. Preciso de vinte minutos e depois retomamos » permite criar uma pausa sem romper a comunicação.

Gottman recomenda geralmente uma interrupção de pelo menos vinte minutos para que diminua a ativação fisiológica associada ao conflito.

Contudo, é importante anunciar que a conversa irá retomar. Uma pausa claramente definida permite recuperar a calma; um silêncio sem limites pode ser vivido como rejeição.

Para o outro parceiro, insistir numa resposta quando a pessoa já se encontra sobrecarregada pode reforçar o seu afastamento. Pode ser mais construtivo deixar passar este momento, assegurando que a discussão será retomada.

Algumas pessoas se fecham porque aprenderam desde cedo a observar e acalmar a atmosfera à sua volta. Esta capacidade pode ter sido útil na infância, mas não é sempre adequada para relações adultas.

O silêncio não significa, portanto, indiferença. Às vezes, revela que uma pessoa continua a usar um antigo mecanismo de proteção numa situação onde poderia agora aprender a comunicar de outra forma.

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Este artigo é fornecido a título informativo e reflexivo. Não constitui, de forma alguma, um conselho médico, psicológico ou profissional. As noções apresentadas baseiam-se em pesquisas publicadas, bem como em observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para a sua situação particular, consulte um profissional qualificado.

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