Perante o dilúvio, João Telles aqueceu

Crónica

Quem diria que em pleno mês de agosto, uma chuvada sem tréguas fizesse adiar por 24 horas a Corrida das Festas da Praia. Reagendada para a tarde do dia 6, a Corrida à Portuguesa onde perfilavam no cartel os cavaleiros António Telles, João Telles, e João Pamplona, teve início pelas 18h30 na Monumental de Angra do Heroísmo, com uma casa fortíssima e com as bancadas repletas de cor, dando mote a um ambiente que se quer de festa. São Pedro presenteou aos aficionados uma tarde nublada e com uma humidade sôfrega, mas as travessuras não ficariam por aqui.

Completavam o cartel os grupos de forcados de Coruche, os Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, e os “anfitriões” do Ramo Grande. Aos anunciados toiros de David Ribeiro Telles e Rego Botelho, juntava-se a ganadaria terceirense de João Gaspar.

Após cortesias, abriu praça o cavaleiro António Telles frente a um toiro de Rego Botelho, com o nº 11 no costado e o mais pesado da corrida (573kg). Depois de cravar ferros compridos desiguais, trocou de montada e espalhou aquele perfume clássico, que o faz diferenciar dos demais. De tricórnio na cabeça cravou uma serie de bons ferros curtos, logrando uma lide regular perante um RB que era uma estampa, um aliado de peso que cumpriu mesmo sem grande exuberância. Pelos Amadores de Coruche, assumiu a função o cabo José Tomás, que ao primeiro intento consomou uma pega vistosa e de valor, premiada com tremenda ovação dos presentes.

Seguiu-se João Telles, ficávamos em família mas com estilos diferentes. Ao jovem da Torrinha coube em sorte um toiro da ganadaria de David Ribeiro Telles, com o peso de 458 kg, um mulato bragado que apareceu na arena distraído e desinteressado. Realizou uma faena segura e que chegou às bancadas, nuns ferros citou de curto, noutros deu vantagem ao oponente que foi de menos a mais e que metia bem a cara por alto, destacando-se o terceiro ferro em que rematou com brega cingida e um quinto curto numa reunião perfeita e com o toiro a transmitir. Alexandre Vieira, com a jaqueta da Tertúlia Tauromáquica Terceirense, pegou à córnea e à primeira tentativa, com o hastado a arrancar de pronto.

O terceiro da ordem, o nº 46 da ganadaria de João Gaspar foi lidado pelo cavaleiro local João Pamplona. O toiro saiu com pata e foi bem recebido por Pamplona, que cumpriu na ferragem inicial. Por esta altura, a chuva voltava a querer estragar o espetáculo. Depois de um primeiro curto descaído, corrigiu a mão, cravou a gosto, e escutou música. Andou sóbrio frente ao cornicurto, na colocação do quarto ferro carregou a sorte e levou um toque na montada, redimindo-se com um último ferro bem cravado de alto a baixo, realizando uma lide correta, mas sem chegar com ímpeto às bancadas. Os amadores do Ramo Grande pegaram à terceira tentativa, sendo cara o jovem Rui Dinis.

Com a chuva a começar a cair copiosamente (sem cessar até ao final), a corrida prosseguiu sem tempo para intervalo. Nas bancadas, poucos arredaram pé, provando uma vez mais que esta é terra de gente que venera a Festa Brava faça chuva ou faça sol. Os aficionados mais precavidos muniam-se de guarda-chuva, e assistiam à quarta lide. Dos curros saiu mais um exemplar de João Gaspar, com o nº 48 e a acusar na balança 456 kg. Desde cedo percebeu-se que António Telles teria que puxar dos galões, uma vez que o toiro começou a refugiar-se em tábuas, e denotou problemas nas mãos, condicionando até certo ponto a mobilidade. O clã Telles deu a lide possível ao seu oponente, com pouca história, cravando a sesgo e quase sempre junto à porta dos curros. O forcado Tiago Gonçalves, dos Amadores de Coruche, ficou na cara do toiro à segunda tentativa.

Abençoado pela chuva, e mostrando ser um valor assumido da tauromaquia, João Telles arrecadou ao quinto da ordem e segundo do seu lote a lide da tarde, manchada apenas pelo excesso de ferros (a pedido do público). Na retina ficou gravado um primeiro ferro curto de grande emoção, ao quiebro e numa reunião bem ajustada, frente ao hastado de Rego Botelho com o nº 22. O toiro transmitia e João Telles aproveitou para repetir a dose, arrancou de praça a praça e nos terrenos do oponente reuniu com batida ao pitón contrário. O cavaleiro trocou de montada, e em sorte violino cravou um curto, seguindo-se dois ferros de palmo, numa altura em que o toiro rachava reservava-se nas tábuas. Problemas para os homens da Tertúlia Tauromáquica Terceirense e para o forcado da cara Luís Sousa. Mudaram-se os terrenos, mas com o toiro sempre fechado e sem arrancar, consomaram a custo, contudo à primeira tentativa.

Com a arena a ficar ensopada e a denotar condições para a prática do toureio a cavalo, assumiu responsabilidade o jovem da Quinta do Malhinha. O último da tarde, com o ferro da ganadaria de David Ribeiro Telles, acabou por recolher aos curros sem ser lidado. João Pamplona ainda tentou realizar a faena, mas depois de um susto ao receber o toiro, em que a sua montada escorregou, e por pouco não foi colhida, tomou-se a decisão mais sensata e dava-se por terminada a corrida. Semblante triste em João Pamplona e nos forcados do Ramo Grande, que viram as suas actuações reduzidas a um toiro.

O espectáculo foi dirigido pelo director Rogério Silva, assessorado pelo médico veterinário José Paulo Lima. Ressalva para os pasodobles executados pela Banda Filarmónica da Sociedade Recreio Lajense, e ainda para a despedida do forcado Filipe Lemos, do grupo do Ramo Grande. Não fosse São Pedro, a corrida certamente teria sido bem mais agradável. Na memória, aquela primeira pega de José Tomás e a chama intensa de João Telles.

 

Imagem: Não corresponde ao espectáculo em questão

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