Os toiros salvaram-me a vida

Crónica

Sim, “salvaram”. Parece estranho, mas é verdade. Se não fossem os toiros, eu não era a pessoa que sou hoje e não lidava com o acidente da mesma forma.

 Um acidente pode sempre acontecer fazendo as coisas mais “parvas”; mas se for a fazer a coisa que mais gostamos, encaramos tudo de maneira diferente — tal como um piloto ou um lutador de boxe. O que os forcados me deram foi muito mais do que eu dei aos forcados. Deram-me resiliência, educação e sentido de hierarquia — na minha opinião, três pilares fundamentais na construção de um indivíduo.

 Resiliência no sentido da capacidade, enquanto indivíduo, conseguir lidar com os problemas de outra forma, adaptar-me às mudanças, superar obstáculos ou resistir à pressão nas situações mais adversas. Podemos ver isso quando um forcado “cresce” para o toiro cada vez que falha, quando compreende o toiro e se adapta a ele um pouco mais, ou quando recupera de uma lesão para voltar a fazer aquilo que mais ama.

Educação no sentido da capacidade de, enquanto ser humano, estar disponível para aprender e ensinar — o chamado “saber ouvir” ou falar quando realmente temos algo significativo para dizer. E com estes pilares aprendemos a respeitar hierarquias, algo que, na minha perspectiva, se tem perdido no tempo em que vivemos.

São estes os ensinamentos que aplico no meu quotidiano, que me fazem encarar todos os meus problemas de maneira diferente. No entanto, como é evidente, também me vou abaixo e tenho momentos difíceis e terríveis. As pessoas não imaginam o que é viver com uma tetraplegia, o que é necessitar de ajuda para as tarefas mais básicas, ainda para mais num país em que não existem praticamente nenhuns apoios para pessoas para o mesmo problema do que o meu. Mas nesses momentos, agarro-me à minha resiliência — e alguns factores inerentes à resiliência são a boa administração de emoções, o controlo dos impulsos, o optimismo e a auto-eficácia. E quando dou por mim, no dia seguinte acordo ainda com mais força e com um sorriso na cara, como que um forcado quando se levanta para a sua segunda tentativa, sacudindo apenas a poeira e gritando mais alto para o toiro, superando assim o medo e crescendo para o seu oponente.

Por vezes, acho-me estúpido. Mas não sei viver de outra forma. Como é óbvio, o acidente fez-me relativizar as coisas. Não precisamos de muito para sermos felizes — basta ter saúde, conseguir pagar as nossas contas, que tudo esteja bem com a nossa família e amigos para que possamos ser felizes. Por vezes, queixamo-nos e esquecemo-nos de que, afinal, temos tudo.

O problema é que a sociedade de hoje se encontra vinculada a valores errados. Tabelamos a nossa felicidade pelas fotografias que vemos dos outros nas redes sociais, que por vezes, são apenas tristezas camufladas com bons retratos e imagens.

Esta minha visão da vida nunca seria possível se não tivesse sido forcado. É verdade que existem riscos, mas o risco é a chave para desfrutar. Sem riscos, a recompensa não sabe tão bem. Os tempos de forcado foram os melhores da minha vida.Por isso, o meu “conselho” para todos vós é que se foquem no que realmente vos dá felicidade duradoura e não naquilo que vos faz felizes momentaneamente, que tenham esperança e que lutem pelos vossos sonhos.

A vida é bela. Basta simplificarmos as coisas.

Um bom ano para todos.

Nuno Carvalho Mata

https://youtu.be/Iztn3OB5s6s

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