Os avós mais queridos pelos netos não são aqueles que os presenteiam com presentes, mas sim aqueles que os fazem sentir que realmente importam, segundo a psicologia

Os Avós Mais Amados e a Importância do Tempo de Qualidade

Os avós que mais marcam os pequenos não costumam deixar as suas memórias mais bonitas numa caixa de brinquedos. O que perdura ao longo dos anos são momentos de simplicidade. Uma conversa, um gesto de carinho ou o sentimento de ter sido verdadeiramente ouvido podem superar qualquer presente material. Assim, os avós mais queridos pelas crianças não são necessariamente aqueles que oferecem os melhores presentes, mas aqueles que oferecem algo ainda mais valioso: tempo e atenção genuína.

Um presente traz imediatamente entusiasmo: as crianças correm, brincam e se maravilham, tornando aquele que o trouxe o centro das atenções. No entanto, frequentemente, após algum tempo, esse brinquedo fica esquecido num canto.

Anos mais tarde, quando um adulto recorda o avô com quem teve uma ligação especial, suas lembranças costumam ser diferentes. Ele relembra aquele que fazia perguntas, ouvia suas histórias até o fim e mostrava interesse sincero pelo que pensava. A psicologia revela quão importante é sentir-se ouvido, reconhecido e levado a sério na infância, significando que essas relações possuem um valor inestimável.

O Que o Dinheiro Realmente Pode Trazer

No que toca à relação entre avós e netos, o apoio material e a proximidade emocional são frequentemente colocados no mesmo patamar. Contudo, as pesquisas sugerem que os efeitos não são os mesmos.

No âmbito do projeto «Flourishing Families», investigadores acompanharam 408 famílias, distinguindo claramente o investimento emocional dos avós do seu apoio financeiro. Crianças entre 10 e 14 anos foram seguidas ao longo de um ano.

Os resultados mostraram que o envolvimento emocional dos avós estava associado a mais comportamentos altruístas e cooperativos, tanto imediatamente como um ano depois, em famílias monoparentais e biparentais. O apoio financeiro, por outro lado, foi ligado a um maior compromisso escolar, mas apenas em crianças de famílias monoparentais.

Simplificando, o dinheiro pode, evidentemente, ser útil, especialmente em momentos de dificuldade financeira, mas não pode ser comparado à presença emocional constante.

Uma estudo envolvendo 1 515 adolescentes britânicos revelou uma observação semelhante: um maior envolvimento dos avós estava relacionado a menos dificuldades emocionais e a um aumento nos comportamentos prosociais, especialmente em famílias monoparentais ou reconstituídas.

Os Avós que Fazem a Diferença: O Sentimento de Importância

Gordon Flett, um psicólogo canadiano, dedicou grande parte da sua investigação ao conceito de “mattering”, que pode ser traduzido como o sentimento de ser importante para os outros. Este sentimento é distinto da autoestima; enquanto a autoestima diz respeito ao valor que atribuímos a nós mesmos, o sentimento de contar depende da percepção de que a nossa presença importa para alguém.

Os estudos de Flett identificaram ligações entre um baixo sentimento de importância, a depressão e o desespero. Desde a infância, somos particularmente sensíveis a sinais que indicam se uma pessoa nos ouve de verdade ou se apenas nos dá atenção superficial.

Os avós, normalmente não sobrecarregados pelas responsabilidades diárias que os pais enfrentam, podem oferecer uma atenção diferenciada, com menos pressão. Esta qualidade de escuta está entre os traços que definem quem mantém um laço especial com os netos.

Tomar a Criança a Sério: Gestos Simples Que Fazem a Diferença

Afirmar que é necessário “ouvir os netos” parece óbvio, mas na prática, tudo se resume a detalhes. Em resposta à pergunta “O teu dia foi bom?”, uma criança pode simplesmente responder “sim”. Questões mais específicas, como “Com quem almoçaste?” ou “O que te fez rir hoje?”, podem abrir a porta a conversas mais profundas.

Fazendo isso, o avô demonstra que se preocupa e valoriza o universo da criança. O Centro on the Developing Child de Harvard propõe um mecanismo semelhante ao conceito de “serve and return” (“troca recíproca”), onde a criança manifesta interesse, emoção ou intenção, e o adulto responde de forma atenta.

Trabalhos dedicados à resiliência infantil destacam também a importância de uma relação estável com pelo menos um adulto atento e disponível, que pode ser um pai, um avô, um professor ou outra pessoa próxima.

Os avós que exercem uma influência positiva sobre os netos não se distinguem apenas por grandes gestos, mas pela maneira como se fazem presentes.

As Histórias da Família e a Construção do Eu das Crianças

Os psicólogos Marshall Duke e Robyn Fivush, da Universidade Emory, desenvolveram um questionário de vinte questões sobre a história familiar. Os jovens sabem de onde vêm os seus avós? Como os pais se conheceram? Conhecem as dificuldades enfrentadas pela família?

Numa estudo com 66 adolescentes entre 14 e 16 anos, uma maior familiaridade com a história familiar estava correlacionada com uma autoestima elevada, um sentido de identidade mais sólido e menor ocorrência de problemas comportamentais.

Embora a pesquisa assinale que a dinâmica familiar pode influenciar essas correlações, o rol dos familiares em narrar suas histórias, mesmo as mais difíceis, também é crucial. Ouvir um avô contar um erro, uma decisão errada ou uma fase complicada pode mostrar a um adolescente que as dificuldades fazem parte da vida e que é possível superá-las.

O Que as Pesquisas Não Conseguem Confirmar

Os resultados disponíveis devem ser interpretados com prudência, uma vez que muitas pesquisas sobre as relações entre avós e netos são de natureza observacional, dificultando a distinção entre a presença dos avós e o funcionamento familiar em geral.

Uma estudo britânico que acompanhou crianças em três períodos indicou uma influência menos expressiva do que frequentemente se apresenta. Outra síntese da literatura científica também sugere que, enquanto a envolvência dos avós pode ser benéfica, a sua influência está dependente do contexto familiar e não deve ser exagerada.

O Que Fazem os Avós Mais Amados de Diferente

No cotidiano, não é preciso fazer muito para fortalecer esses laços. Fazer uma pergunta genuína, ouvir a resposta e recordar-se dela nas semanas seguintes já pode fazer a diferença.

Contar a história da família, incluindo seus episódios complicados, cumprir compromissos e aceitar que às vezes a criança tem algo a ensinar são formas eficazes de demonstrar que o pequeno é importante.

Os avós mais queridos não são, portanto, necessariamente aqueles que os netos se lembram pelas prendas que ofereceram. Muitas vezes, são aqueles que fizeram os netos sentirem-se ouvidos, valorizados e importantes, e esse tipo de recordação não se encaixa num embrulho de presente.

Este artigo é apresentado apenas para fins informativos e reflexivos. Não constitui aconselhamento médico, psicológico ou profissional. As noções apresentadas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, não resultando de uma avaliação clínica. Para a sua situação específica, consulte um profissional qualificado.

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