« O objetivo de todas as nossas ações é nos libertar da dor e do medo » Pensamento do dia de Epicuro


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Qual é o propósito de todas as nossas ações? O que nos impulsa a agir de determinada forma? Por vezes, por trás das nossas escolhas, ambições e rotinas, estão **motivações menos evidentes** do que imaginamos. Quando algumas pessoas se retraiem, esta questão adquire uma nova dimensão. Épicuro, frequentemente resumido à busca do prazer, apresenta uma reflexão mais profunda sobre o que dá sentido à existência. A sua filosofia não considera o prazer, o conforto ou o entretenimento como fins em si mesmos, mas sugere que as nossas ações convergem para um mesmo horizonte: **libertar-nos da dor e do medo**.

Essa diferença é crucial, pois o objetivo não é definido pelo que se acumula, mas pelo que se deseja eliminar. Uma distinção frequentemente negligenciada ao se explorar sua filosofia.

É importante ressaltar que não somos médicos, psicólogos ou terapeutas, e este texto não se destina a fornecer conselhos personalizados. A nossa intenção é editorial, explorando textos antigos sobre angústia e morte, colocando-os em perspectiva com investigações contemporâneas. As pesquisas mencionadas refletem tendências observadas em diferentes grupos de indivíduos e não devem ser interpretadas como recomendações pessoais.

O que Épicuro realmente quis dizer com “Qual é o propósito de todas as nossas ações?”

Esta reflexão origina-se na **Carta a Menécio**, uma das três cartas de Épicuro que chegaram até nós por meio de Diógenes Laércio. Esses textos curtos ainda hoje permitem compreender sua visão do felicidade e da vida.

No entanto, Épicuro enfrenta um grande mal-entendido. Atualmente, referir-se a alguém como “epicurista” geralmente evoca a ideia de boas refeições e prazeres refinados, algo que o filósofo grego provavelmente não se veria refletido.

A visão que tinha do prazer era bem mais comedida. Embora considerasse o prazer importante, ele via-o principalmente como a eliminação da dor, e não como a acumulação de sensações agradáveis.

David Konstan, autor do artigo sobre Épicuro na Stanford Encyclopedia of Philosophy, destaca que o filósofo **”tende a descrever o objetivo pela negativa, como a ausência de dor física e de perturbação mental”**.

Essa distinção se relaciona com uma questão sempre atual: será que a felicidade reside mais no prazer ou no sentido que atribuímos à nossa existência?

Duas formas de liberdade: a do corpo e a da mente

Épicuro sublinhava duas dimensões. A primeira envolve **não sofrer fisicamente**. A segunda, **alcançar a serenidade da mente**.

A primeira dimensão parece bastante intuitiva. Ninguém precisa de uma longa argumentação filosófica para entender que uma vida sem dor física é preferível a uma dominada por ela.

A segunda dimensão revela um aspecto mais profundo de sua filosofia. A tranquilidade da mente não era, aos seus olhos, um luxo a ser buscado só depois que todos os outros problemas estivessem resolvidos; era, de fato, uma das finalidades da existência.

Os seus discípulos resumiriam mais tarde seu pensamento em **quatro princípios**. Não temer os deuses, não temer a morte, perceber que o bem é relativamente fácil de alcançar e que as dificuldades podem ser suportadas.

Portanto, o medo ocupa um lugar significativo nesta concepção.

Por que Épicuro valorizava tanto o medo

Para Épicuro, dor e medo não estavam no mesmo patamar. A dor física muitas vezes podia ser limitada, temporária ou suportável. Já o medo poderia invadir a existência muito antes do que tememos acontecer.

David Konstan explica que Épicuro **”considerava o medo inconfessado da morte e do castigo como a principal causa da ansiedade nos seres humanos, e essa ansiedade, por sua vez, como fonte de desejos extremos e irracionais”**.

O seu raciocínio torna-se especialmente interessante. Um medo pode alimentar uma **preocupação permanente**, que pode, por sua vez, levar à busca incessante por dinheiro, reconhecimento, status, entretenimento, entre outros.

O problema é que esses desejos podem nunca ser suficientes se sua verdadeira origem residir em outro lugar. Essa ideia ecoa uma reflexão sobre a dificuldade em estar satisfeito com o que se possui quando se persegue constantemente aquilo que se deseja.

Para Épicuro, agir apenas sobre os desejos, sem examinar os medos que os alimentam, equivale a tratar das consequências em vez de lidar com suas origens.

A morte é realmente algo a temer?

Aqui surge um dos raciocínios mais célebres de Épicuro. Na sua Carta a Menécio, ele convida o leitor a **acostumar-se a ver a morte como nada para nós**.

Esse raciocínio baseia-se numa ideia simples: tanto o bem quanto o mal pressupõem que estamos conscientes do que sentimos. A morte, por outro lado, marca precisamente a eliminação dessa consciência.

Konstan resume o argumento afirmando que **”a morte, insiste Épicuro, não nos diz respeito, uma vez que enquanto existimos, nossa morte não existe e, quando ela ocorre, deixamos de existir”**.

Dito de forma mais simples, nunca encontramos a nossa própria morte como uma experiência consciente. Épicuro deduz que **”a vida não é terrível”** para quem compreende realmente que não precisa temer o estado de não ser.

Esse argumento continua obviamente a ser debatido. Desde há séculos, filósofos opõem-se a ele, argumentando que não tememos necessariamente a experiência da morte, mas sim a perda de tudo o que ainda poderíamos viver.

Assim, Épicuro não encerra o debate; propõe antes uma forma radicalmente diferente de considerar esse medo.

Como entender “Qual é o propósito de todas as nossas ações?” hoje

Seria fácil transformar a filosofia de Épicuro em uma receita moderna contra o estresse ou concluir que devemos viver sem ambição e evitar riscos. Isso, no entanto, seria uma leitura superficial de suas ideias.

Seu pensamento nos incita a olhar para as raízes de nossas inquietações. O que realmente nos assusta? E quantos dos nossos comportamentos estão organizados em torno de coisas que tememos antes mesmo que aconteçam?

A liberdade desejada por Épicuro não consiste em se tornar insensível, mas sim em um estado onde **o medo não dirige continuamente as nossas escolhas**. Uma reflexão que pode ser relacionada, com as devidas cautelas, a uma questão contemporânea: como a nossa mente às vezes alimenta a própria preocupação?

Talvez seja assim que possamos reler hoje sua reflexão sobre o propósito das nossas ações. Não como um convite para acumular constantemente prazer, mas como a busca de uma existência menos dominada pela dor e pelo medo.

Quando o medo relacionado à morte, à perda ou uma ansiedade persistente se torna avassalador, essa reflexão filosófica não substitui, evidentemente, o acompanhamento de um profissional qualificado.

Este artigo foi elaborado com intuito informativo e de reflexão. Não constitui, de forma alguma, um parecer médico, psicológico ou profissional. As noções aqui expostas baseiam-se em pesquisas publicadas e observações editoriais, e não resultam de uma avaliação clínica. Para a sua situação particular, recomenda-se a consulta com um profissional qualificado.

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