O meu Campo Pequeno

Crónica

125 Anos…

É difícil tentar imaginar todas as noites de glória que passaram pelo tauródromo Lisboeta, a quantidade de sensações que as pessoas experimentaram na arena ou nas bancadas ao longo destes 125 anos.

Palco principal e catedral do toureio a cavalo, acabou também por acolher todos os grandes interpretes da arte de Montes. Belmontes, Bienvenidas, Gallos, Manolete, o nosso grande Manuel dos Santos (primeiro como matador e mais tarde como um dos mais recordados empresários) todos tiveram as suas tardes de glória neste baluarte da arquitectura neo-Árabe que marcou várias gerações de aficionados. Toiros de morte, colhidas trágicas, momentos indeléveis na história da tauromaquia mundial.

São várias as recordações de corridas inolvidáveis que comecei por ouvir do meu avô, depois do meu pai, e finalmente as que desfrutei pessoalmente.

A minha relação com o campo pequeno começa cedo, ainda mal sabia andar e já ía ao campo pequeno (na altura não havia estas polémicas da idade mínima para se assistir ao espectáculo), lembro-me de ser uma amostra de gente e já tinha um cartão de lugar cativo que era furado à volta pelo fiscal no número correspondente à corrida dessa semana, ficava na contra-barreira quatro ou cinco lugares à esquerda do inteligente (na altura não havia esta porta grande). Como na altura o meu pai era o veterinário da praça a corrida para mim começava mais cedo, à hora do desembarque e do sorteio, devo confessar que durante esses primeiros anos, fui sempre mais seduzido pelos corredores e recantos escondidos da praça do que pelo que se passava na arena. Lembro-me de brincar aos toiros com o Jorge Miguel que era filho do guarda da praça que vivia por baixo das bancadas perto dos curros, o Jorginho ainda foi bezerrista no final dos anos 80 e conhecia a praça como ninguém.

A mística que tinha a antiga capela, aquela rampa estreitinha que dava acesso à trincheira e onde havia umas bilhas de água para os artistas, os corredores largos com os balcões de bar gigantes, o acesso à zona das cavalariças (na altura era possível ver os cavalos ao intervalo), a velhinha e escura enfermaria…

Fui parar à enfermaria pela primeira vez com apenas 10 anos, nas corridas com menos público achava interessante (ideias de criança) dar a volta à praça a saltar os gradeamentos que dividiam os sectores. Valeu-me uma fractura num dedo do pé com uma “recolocação” no sitio à antiga por parte do médico da praça.

Fui crescendo e tendo o campo pequeno sempre presente, a quinta feira era o dia mais esperado da semana, com colegas de escola ou com as primeiras namoradas, o programa era sempre o mesmo, corrida antecedida de um jantar na Namur ou na atração recente que era o Mac Donald’s da AV. da República (o primeiro de Lisboa).

Os bilhetes eram os da “juventude” para os camarotes de 2ª Ordem sempre em conta. as primeiras cervejas nas roulotes que estavam na porta principal, momentos inesquecíveis como espectador. Lembro-me de ficar impressionado com uma corrida do Victor Mendes com Miuras (até vistos do “galinheiro” pareciam enormes), da encerrona do Maestro João Moura, e tantos pormenores de tantos outros toureiros, tantas conversas de aficionados antigos, e de toureiros retirados. Personagens irrepetíveis da festa como o António “Espanhol” a vender o Novo Burladero, ou o Pimentel a gritar das bancadas e, à saída a velhinha que vinha sempre pedir uma moedinha (durante décadas sempre presente inclusive depois da remodelação).

A praça do Campo Pequeno acabou por se tornar um dos pilares na minha formação como jovem aficionado e foi lá que pela primeira vez passei à prática. Estava na bancada a assistir a uma tenta publica e treino dos Amadores de Lisboa por volta dos meus 16 anos quando o Cabo José Luís Gomes me convidou a descer e a “experimentar” dei por mim pela primeira vez a saltar a trincheira sem ser a brincar, não tinha noção nenhuma do que estava a fazer mas o bichinho ficou, a verdade é que tempos mais tarde estava a fazer as cortesias nesta arena com o peso da jaqueta de Lisboa aos ombros, tornou-se na praça que mais me assustava. A mística mantinha-se e agora cada vez mais apimentada com o medo do toiro.

Com a experiência que vinha a acumular como forcado e a ilusão de pegar um toiro no campo pequeno, chega o grande balde de agua fria… A praça ía fechar para uma profunda remodelação.

Foram anos de apreensão e angústia. Na altura estudava num externato mesmo ao pé da praça, foram meses a olhar para as obras a ver escavações por todos os lados e a velhinha praça a ser mutilada. À hora do almoço tentava escapulir-me para dentro dos tapumes para espiar melhor, achei que tudo estava perdido e que toda a mística iria desaparecer. Com o aproximar do final das obras, comecei a ficar mais tranquilo, afinal parecia não ser assim tão mau, as condiçoes dos curros e das cavalariças surpreenderam-me muito.

Ao fim de 6 longos anos de espera somos convidados a pegar a corrida de inauguração, confesso que foi o momento mais arrepiante da minha vida, as cortesias da reinauguração da praça… o romper dos aplausos naquela acústica arquitectada eram avassaladores.

Tive de dar a mão à palmatória, o Campo Pequeno mantém-se com a mística de outros tempos e com outro conforto e outro glamour e com grandes cartéis.

Desde então vivi grandes momentos com o meu grupo e como aficionado neste “novo” Campo Pequeno, mas asseguro-vos que nenhuns ficaram marcados como aqueles do passado, em que um menino de calções tentava saltar a trincheira gigante cheio de ilusões e sonhos que só este sitio proporciona.

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