O Cerco a Lisboa

Crónica

Depois de em 1147 termos tido o cerco a Lisboa por motivos de Reconquista cristã da Península Ibérica e que culminou com a conquista desta cidade aos mouros pelas forças de D. Afonso Henriques, em 2021 os “mouros” são agora outros e o cerco a Lisboa exerce-se pelo espartilhar da liberdade cultural da capital do país.

Mas o cerco não começo hoje, ontem ou na semana passada. O cerco vem sendo apertado paulatinamente desde há algum tempo a esta parte, tendo sido o primeiro sinal de que as catapultas inimigas já disparavam, o retirar dos sinais de localização do Campo Pequeno, as imagens alusivas a toureiros.

Lembro-me perfeitamente de nesse dia ter comentado com algumas pessoas que este era o primeiro dia da ofensiva inimiga, ao que me responderam: “Taxa, lá estás tu com o teu mau feitio. Isso não significa absolutamente nada”. Encolhi os ombros e pensei para comigo: “Deixa-os falar que a razão, essa, revela-a, o tempo”.

Depois do episódio da sinalética, seguiu-se o comportamento errático de um homem que como Presidente da Câmara Municipal de Lisboa condecorava os forcados, mas que como primeiro-ministro dava as mãos ao PAN aumentando o IVA dos bilhetes das corridas de toiros ou admitindo a possibilidade de apenas poderem passar a assistir aos espectáculos, maiores de 16 ou 18 anos.

Nessa altura voltei a falar com as mesmas pessoas com que tinha falado antes e disse-lhes: “Então e agora? Também tenho mau feitio?” Responderam-me que já não era uma questão de mau feitio, mas que estava a tirar partido político de uma situação pontual.

Voltei a encolher os ombros e pensei: “Bom, estes precisam de mais tempo. O que passou ainda não chegou”.

Meses depois era a ministra da cultura quem dizia que a tauromaquia era uma questão de civilização e não aceitava uma oferta de um grupo de forcados que a aguardou numa visita de Estado que efectuou”.

Nesse dia já não fui eu a procurar o pessoal. Ligaram-me e disseram-me: “Epá, começo a achar que é como tu dizes, mas ainda assim pode ter acontecido que a senhora não tenha aceite a oferta apenas por não querer receber presentes quando está em representação do Estado”. Ri-me e pensei:” Bom, já é um passo, mas ainda não é desta”.

Já mais recentemente, quase em catadupa, surgiram os episódios do cartaz com a cara de António Costa e de André Silva, quanto a mim erradamente criticado, das medidas incompreensíveis que permitem ao Campo Pequeno dar concertos musicais mas não corridas de toiros, e aí, bem, aí, os sinos tocaram a rebate e já me disseram: “Tinhas razão, está o baile armado”.

Esta semana, no manifesto eleitoral para as próximas autárquicas em Lisboa, Partido Socialista e Livre firmaram finalmente um acordo já badalado nos mentideiros que visava tornar pública a sua oposição aos toiros em Lisboa.

Ontem sim. Ontem ligaram-me alguns e disseram: “Porra pra isto, (digo porra porque não posso escrever o que me disseram) vão acabar connosco em Lisboa dentro de pouco tempo”.

Acabarão? Não sei.

Mas sei que para não serem capazes de o fazer, o sector tem de se mobilizar. E para minha profunda tristeza tudo se mantém sereno, sem que se assista a qualquer reivindicação de relevo.

A pergunta que deixo é: Afinal, quando vamos enfrentar os “mouros”? É que se for apenas quando o cerco já não nos permitir respirar, será tarde. Nesse dia, o telefonema que vou receber ou fazer será apenas para lamentar: “Acabou”.

Não o quero receber nem efectuar.

 

Ultimos Artigos

Artigos relacionados