Neurociências: por que sempre procrastinamos o que deveríamos fazer agora

Todos nós conhecemos bem este sentimento: sabemos o que precisamos fazer, mas encontramos sempre uma boa razão para adiar. Prometemo-nos que vamos começar “mais tarde”, mas o tempo passa sem que consigamos realizar qualquer tarefa. A procrastinação reside precisamente no facto de termos plena consciência do que devemos fazer, mas não conseguimos agir. Então, por que motivo é tão difícil?

Pesquisas recentes em neurociências revelaram um mecanismo cerebral específico por detrás dessa tendência frustrante. Entender como funciona esse mecanismo pode ser a chave para finalmente resolver as tarefas que adiamos incessantemente.

Ainda dizemos “vou fazer mais tarde”, mesmo sabendo que não é a melhor decisão, porque o nosso cérebro está predisposto a funcionar dessa forma. É fácil encarar a procrastinação como um defeito de caráter ou como preguiça.

No entanto, um estudo realizado com macacos na Universidade de Quioto, no Japão, mostra que isso é, na verdade, uma função normal do cérebro.

E para acalmar os céticos, isso não significa que nunca vão realizar nada!

Imagens Freepik

Os cientistas descobriram que o cérebro dos macacos, bastante semelhante ao nosso, possui um circuito neuronal que se ativa sempre que é necessária uma ação, especialmente quando essa ação está associada a uma experiência desagradável.

Essas investigações podem lançar luz não apenas sobre os comportamentos de procrastinação mais comuns, mas também em condições onde a motivação está profundamente afetada, como certas formas de depressão ou outros distúrbios mentais.

Para melhor compreender este mecanismo, os pesquisadores de Quioto estudaram macacos em uma situação bem simples: os macacos, com bastante sede, deviam escolher entre duas tarefas para obter água. Em uma tarefa, a água estava acessível diretamente. Na outra, tinham que suportar um sopro de ar desagradável para conseguir a recompensa.

Apesar de estarem com muita sede, os macacos hesitavam e, por vezes, evitavam a água para escapar dessa sensação incômoda. Os cientistas observaram que esse comportamento estava ligado à interação entre duas regiões cerebrais: o estriado ventral e o pálido ventral, envolvidos na motivação e no processamento das recompensas.

Ao compreender e modular esses circuitos, pode ser possível reduzir a tendência de evitar tarefas desagradáveis, tanto em macacos como em humanos.

Este estudo mostra que procrastinar não é uma questão de preguiça, mas uma reação normal do cérebro ao desconforto. Na próxima vez que adiar uma tarefa, lembre-se de que o seu cérebro está apenas tentando lidar com o que ele percebe como uma experiência negativa – e que a chave pode estar na forma como motivamos e estruturamos as nossas ações.

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Os cientistas acreditam que este circuito neuronal atua como um verdadeiro “freio à motivação”, uma proteção natural do nosso cérebro para evitar a exaustão.

Eles descobriram que a manipulação desta via neuronal podia causar nos primatas comportamentos extremos: ou uma compulsão, ou uma apatia total.

Para aprofundar suas pesquisas, utilizaram um medicamento capaz de inverter o efeito dessa via. O resultado foi impressionante: os macacos deixaram de hesitar em ir beber, mesmo que isso significasse suportar o sopro de ar desagradável.

Os pesquisadores afirmam que este circuito funciona da seguinte maneira: o estriado ventral detecta uma experiência desagradável e inibe as funções do pálido ventral, bloqueando a motivação sempre que temos de realizar uma tarefa que não desejamos fazer.

Mas por que o nosso cérebro se sabota assim, sabendo que realizar a tarefa seria benéfico a longo prazo?

Na verdade, trata-se de um mecanismo de defesa contra o esgotamento profissional. Suas intenções são boas, mas talvez mal direcionadas. Afinal, será que é mesmo o cesto de roupas para dobrar que nos leva a um colapso?

Não nos esqueçamos de que a procrastinação é algo universal.

Todas as pessoas adiam algumas tarefas de vez em quando. As estudos revelam que apenas 20 a 25% dos adultos são procrastinadores crônicos em todo o mundo.

Isso significa que a maioria de nós pode se dar ao luxo de desacelerar um pouco sem riscos. Às vezes, procrastinar não é nada mais do que uma forma que o nosso cérebro encontra para nos dizer: “tire uma pausa”.

Essas descobertas podem ter implicações mais amplas para a saúde mental. Os cientistas esperam que isso ajude a compreender e a desenvolver tratamentos terapêuticos e medicinais para distúrbios, como a depressão ou a esquizofrenia, onde a motivação está severamente reduzida.

Para o resto de nós, é pelo menos reconfortante saber que o que nos impede de realizar algumas tarefas domésticas pode ser apenas uma ilusão criada pelo cérebro.

Portanto, vamos ao trabalho! Dobre essa roupa… ou melhor ainda, faça algo mais agradável. Porque, às vezes, ouvir o seu cérebro não é uma má ideia.

Conclusão:

A procrastinação não é apenas um defeito de caráter ou um sinal de preguiça.

É uma reação natural do nosso cérebro a tarefas que são vistas como desagradáveis ou estressantes, um mecanismo de proteção contra o esgotamento.

Compreender os circuitos cerebrais subjacentes ajuda-nos a relativizar a nossa tendência para adiar tarefas e abre caminho para novas estratégias para recuperar a motivação.

Portanto, da próxima vez que você postergar uma tarefa, lembre-se: você não é preguiçoso, é apenas humano… e talvez um pequeno empurrão do seu cérebro seja o suficiente para passar à ação.



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