Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe

Meia casa de espectadores foi o número que se dispôs para ver tourear Luis Rouxinol, a cavalo, Juan José Padilla e Manuel Dias Gomes, a pé, Grupo de Forcados Amadores de Santarém, capitaneados por João Grave, perante touros de Vinhas e Manuel Veiga (para pé).

A primeira ilação foi o facto de o, até à noite de ontem, blockbuster Padilla, não ter enchido o Campo Pequeno como noutras ocasiões, talvez por esgotamento do seu conceito, fartura dos aficionados, não sabemos, sabemos sim que não encheu.

A segunda ilação é que afinal nem só de palmas baratas, voltas ao ruedo e saídas em ombros vive o Campo Pequeno.

Começando pelo princípio, Luis Rouxinol não teve noite fácil em Lisboa, no primeiro, um Vinhas de conteúdo e de forma muito no tipo Buendía-Santa Coloma, fora de tipo apenas nos quilos a mais para aquela encaste, o que o fez mexer-se menos, animal reservado, com arrancadas prontas ao cite firme, o contrastado cavaleiro não acabou de confiar-se, alguns toques na montada, lide rápida e que passou desapercebida, poderia dizer-se que assim foi por tratar-se do primeiro, onde as pessoas teimam em chegar atrasadas aos seus lugares, mas não, foi mesmo a pouca sintonia entre touro e toureiro que marcou esta faena.

No segundo, quarto da ordem, outro Vinhas gordo, mais transmissor e com investidas por direito e na garupa do cavalo, permitiu a Rouxinol remontar e deixar patente a sua habitual eficácia, sem se poder dizer que tenha sido um triunfo redondo. Cumpriu com touros com as suas teclas que tocar, mais seguro no segundo.

O Grupo de Santarém pegou os dois touros das lides a cavalo à primeira tentativa por intermédio de António Taurino e Francisco Graciosa. Grupo bem fardado e com uma postura disciplinar na trincheira e na praça, brindes discretos, e oportunos, cites tranquilos, dando vantagens a touro, e do grupo, dos ajudas, ao forcado de cara, reuniões corretas, bem acopladas e ajudas eficazes, terminadas com rabejação sem alardes e com categoria. Excelente primeira ajuda ao forcado António Taurino, recuando, dando o peito ao forcado de cara e acompanhando a pega até ao seu final, no meu conceito assim se deve ajudar. Volta em solitário para Taurino e volta para Francisco Graciosa, acompanhando Rouxinol.

A parte apeada teve duas correntes bem distintas, uma primeira, tentativa, de toureio sensacionalista, mediático e espectacular, e outra do toureio conceptualizado, pessoal, relaxado.

Ganhou a segunda, para mim como sempre deveria ser.

Toiros de Veiga irrepreensíveis de apresentação, vazios de conteúdo, melhor o sexto.

Padilla voltava a Lisboa com estatuto de estrela, figura de um toureio que tem o seu lugar, sem sequer beliscar o valor, mérito e entrega de Juan José, mas que é um toureio que pode servir para outras praças, que serviu para o Campo Pequeno, mas que aparentemente deixou de servir.

Passou-se de bestial a besta em apenas 20 minutos.

No seu primeiro Padilla não se confiou, na receção de capote não passou de o habitual, e na muleta, num animal com melhor lado direito, embora protestando no final, soltando a cara e berrando quase desde o tercio de bandarilhas, abreviou. Silêncio.

A bronca veio no último, um Veiga sério e exigente, com muito que tourear, mas muito pouco para Padilla poder dar. Um animal que nem recebeu de capote, ensinado a investir pelo seu primeiro, em bandarilhas foi um caso sério de desconfiança, negligência, mal fazer e até desrespeito pelo público que noutras noites atrás sacou Padilla em ombros, já nem me lembro quantas vezes.

Bandarilheiros perdidos no meio do ruedo, capotes abertos, bandarilhas caídas, repelões, pares postos a uma e uma, uma tristeza. No extremo esteve a quadrilha de Dias Gomes, brega e pares de bandarilhas com aplausos montera en mano em ambos os touros.

Bronca da temporada no Campo Pequeno, de pé, gesticulando, gritando, os aficionados ali presentes mostraram o seu descontentamento.

O animal investia com qualidade para o capote na colocação para bandarilhas, mas assim que Padilla lhe apresentou a flanela encarnada a coisa voltou a descompor-se, desarmado, pouco metido na faena, toques bruscos, deixando-o fora dos lances, esvaziando, faena atrapalhada e rápida e regresso dos protestos.

Manuel Dias Gomes, aquele que vinha em desvantagem, por tourear com o fenómeno do Campo Pequeno, foi o triunfador absoluto da noite.

Disposto, relaxado, toureando para si, despejado, mas sem esquecer o público e a maneira de o manter aquecido, verónicas de mãos baixíssimas, touro a passar perto da taleguilla, ligação e emoção, no primeiro rachado desde bandarilhas, deu-lhe a lide na crença, medindo a faena à medida das investidas, ou perdas de investida e terminando arrimado na própria cara, com o touro vencido.

Gomes dá dois muletazos de joelho fletido rematados com uma trincherilla, dignos da Beneficência de Madrid.

Muita disposição para um animal sem qualidade e cuja mansidão e fugida para tábuas e onde quer que fosse, por muito empenho de Gomes, não serviram para dar volta ao ruedo.

Ao sexto, um touro mais sério, rematando por baixo nos burladeros, Manuel recebeu de verónica e depois de gaoneras metidas, pausadas, sem toques e rematadas num de peito, varrendo lombo com o capote, Manuel ratificou para o que ia e como se encontrava.

Uma vez brindada a lide ao seu amigo e colega João Grave, cabo dos Amadores de Santarém, e certamente lembrando o Forcado que perdeu a vida tragicamente numa pega, realçando assim a solidariedade dos que compõem a Festa, Manuel no centro do ruedo cita com distâncias para um farol apertado e vertiginoso, joelhos em terra, que fez o público sair dos assentos. A partir daí constrói uma faena assente sobretudo na mão direita, por onde o animal tinha maior recorrido, com muletazos largos e templados, roçando o corpo, quando a investida e mobilidade se foram perdendo, já completamente metido na faena, abandonado de conceito e técnica, e carregado de ganas, pelas cercanias e no sítio onde estava, chegou a levar um pitonazo, sem outras consequências.

Mais arrimones, mudanças de mão nas costas, touro metido no sovaco e público metido no bolso.

Duas voltas ao ruedo e triunfo que tanta falta fazia ao Manuel, em primeiro lugar, ao toureio português e ao campo Pequeno, que soube valorizar a qualidade e assentamento em detrimento do sensacionalismo.

Não há bem que sempre dure, a fórmula Padilla parece ter-se esgotado, ou pelo menos se chegou à conclusão que há outras fórmulas, a de Gomes incontornavelmente, e os triunfos não devem ser oferecidos, senão arrancados.

Não há mal que nunca se acabe, Manuel Dias Gomes tinha que ter uma noite assim, as coisas não podiam continuar sem progressos, os êxitos anteriores não foram casualidade, são certezas.

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