Moura Jr. e o Taleguilla de Murteira Grave… A magia tornada paixão!

Quando uma praça de toiros se transforma numa “panela de pressão” cheia de paixões, quando a torneira da bravura e da arte de bem tourear é aberta, e não se consegue fechar, é possuída por um êxtase colectivo, algo muito sério, muito gordo, muito excepcional, e isso aconteceu na arena no quarto toiro em Évora. A paixão nada mais é do que a mudança de um estado de ânimo súbito, um sentimento longe do comum , uma explosão de veemência que toma conta da vontade dos humanos, especialmente quando se encontram numa praça de toiros completamente esgotada com um bravo toiro e um toureiro excepcional diante dele.

 

Ás seis e meia da tarde de 29 de Junho de 2019, três tipologias – ou, se preferir, três ideologias diferentes – foram reunidas em Évora: genialidade, raça e ambição… Os três, muito diferentes uns dos outros. Os três “culpados” do abençoado cataclismo foram João Moura Jr., Francisco Palha e António Prates. Três cavaleiros numa só peça. Três exemplares da espécie humana que nos fizeram sair da Praça toreando pela Feira de São João, como nas memoráveis tardes da muito venerada e velhinha praça de toiros de Évora.

 

Quando há Graves e um só grupo em praça as expectativas são enormes. O desafio de vencer esteve mais que nunca presente numa corrida de São Pedro. Um grupo de forcados é essencialmente um grupo de amigos, e a sua força vem daí e ontem os amadores de Évora foram mais amigos que nunca. Também para eles a tarde foi triunfal. Em Évora houve a celebração da arte de um grupo de homens superarem a bravura de seis toiros.

 

Mas para haver uma tarde assim aqueles que contribuem de forma decisiva para o triunfo, são os toiros. A corrida de Murteira Grave, que comemorava os 75 anos da ganadaria na sua terra, estava bem apresentada, foi variada de capas um castanho, outro negro salpicado quase burraco e os outros negros, bem rematada de carnes e bem armada de caras. Teve três toiros de nota alta (segundo, terceiro e sexto), dois mais reservados (primeiro e quinto) e outro de bandeira, bravo (quarto) ! O toiro sonhado, com honras de volta à arena para toiro e ganadero, dava pelo nome de “Taleguilla” marcado com o Nº62, com 600kg, negro zaino de capa e acapachado de cara.

 

João Moura Jr. teve uma tarde histórica! E não se pense em triunfalismo, esteve “cumbre”, numa daquelas tardes redondas em que um grande artista obtém tudo; Tirou proveito dos toiros; deslumbrou o público com a sua nova sorte a Mourina.

Recebeu o quarto toiro com uma sorte de gaiola para depois levar o toiro toureado no cavalo, e a partir daí nasce uma lide colossal. Pureza, arte e verdade são as palavras que me surgem para descrever Moura nos ferros curtos. Magistral nas distâncias, cita devagar e crava no alto do morrilho, praça de pé. Novamente sai das sortes a tourear, com o toiro a crescer ao castigo. Mas foi com as Mourinas que se deu a explosão! Foi com as Mourinas que a praça se pôs de pé emocionada por ver o compêndio da bravura e da arte naquela arena. Foi com com as Mourinas que a muitos lhe veio à cabeça tantas tardes de gloria protagonizadas na arena da antiga praça por dois mestres, um da arte de bem tourear a cavalo, outro da bravura. João Moura pai e o saudoso Eng. Grave. Vi gente emocionada e eu foi um deles. Com lides assim a festa cresce e agiganta-se!
No toiro que abriu praça Moura teve uma boa lide, cravando bons ferros e bregando com a sabedoria que lhe é habitual,  superando as dificuldades do toiro, que transmitiu pouco as bancadas.

 

Francisco Palha, no segundo da tarde, outro grande toiro, com “fijeza, a arrancar de largo e a vir a mais durante a lide, também fez rugir Évora. Lide emocionante, com cites de praça a praça a deixar arrancar o toiro para no centro da arena deixar ferros magistrais muito ajustados e no alto do morrilho, praça de pé e rendida a Palha. Outra lide histórica neste São Pedro memorável

Com o quinto a história foi outra, toiro tremendamente sério, altivo e desafiante, disse que o seu terreno de luta seria o centro da praça e ali tinham que ir ter com ele… Durante a primeira parte da lide o toiro ainda acometia ao cavalo, mas a seguir ao segundo curto começou a esperar no momento do ferro e complicar a vida a Francisco Palha que com a raça que lhe é habitual partiu para cima, deixando bons ferros numa lide séria e de figura do toureio.

 

António Prates, grande triunfador da corrida de São Pedro do ano passado e recentemente alternativado em Alcochete veio a Évora para triunfar novamente. Não terá sido a tarde sonhada, teve por diante dois toiros muito exigentes, pediram muitas contas e não perdoaram deslizes.

Com o primeiro Prates teve uma lide simpática, a deixar bons ferros mas sem alcançar um triunfo absoluto. Correcto nos compridos a receber o toiro na porta dos curros, com o toiro a galopar com emoção. Nos curtos lide de pormenores, mostrando intuição toureira, crava bons ferros, intercalando a lide com uma que outra precipitação.
O sexto foi outro toiro de triunfo grande, arrancava com tudo e para comer tudo, não era fácil estar diante dele, exigia muito oficio e nenhuma distracção, havendo toiro em todos os sítios da arena. Prates voltou a estar correcto nos compridos e nos curtos novamente alguns momentos de precipitação intercalaram com bons momentos de toureio a cavalo, sofreu uma violenta colhida contra as tábuas com o toiro a investir com fiereza e quase metendo cavalo e cavaleiro na trincheira, felizmente sem consequências, remata a lide um um extraordinário ferro a deixar bom sabor de boca para o voltarmos a ver.

 

Honra e glória na arte de bem pegar toiros! Momentos únicos e emocionantes foram vividos nesta corrida de São Pedro protagonizados pelos Amadores de Évora.

Foi com enorme técnica que citou e mandou na investida do toiro para se embarbelar com raça á primeira Gonçalo Pires numa boa pega. José Maria Caeiro, bateu as palmas ao bravo segundo que se arrancou com alegria, à cornea faz uma pega brilhante com o grupo a ajudar bem. Miguel Direito foi para a cara do terceiro, toiro com derrote alto, despejou o forcado na primeira tentativa, na segunda Direito foi ainda mais determinado para o toiro e faz uma boa pega à cornea. Para a cara do Taleguilla foi António Torres Alves, notável forcado dos amadores de Évora, à barbela fez uma pega que foi a continuação dos momentos vividos ontem na lide do quarto toiro, numa palavra brilhante. Para a cara do quinto foi o cabo, João Pedro Oliveira e se até ao momento em todas as pegas se transpirou emoção, quando o forcado salta para a arena o silêncio foi sepulcral e as expectativas atingiram “números” gingantes… O toiro era um verdadeiro comboio de 635kg, durante a lide tinha sido reservado e se todos os toiros são uma carta fechada este ainda era mais. O João é um líder de homens e deu o exemplo para a cara deste vou eu… Toureou o toiro com arte e esperou o momento certo para o mandar vir, o toiro entra com tudo e quando chega às tábuas despeja tudo e todos… O João mostrou um garra e uma valentia enormes e mais quatro vezes lhe bateu as palmas com o toiro a dar forte e feio, mas com o grupo a superar as dificuldades e a praça rendida à raça de oito homens. Ricardo Sousa com outra grande pega de caras ao primeiro intento fechou a corrida, numa tarde de absoluta glória do Forcado, aqui corporizada pelos Amadores de Évora, a defender os valores de Portugal. Uma palavra também para o Manuel Rovisco que rabejou os seis toiros com a arte e técnica que lhe são características.

 

Todos os intervenientes deram voltas à arena. O ganadero Dr. Joaquim Grave foi chamado três vezes (segundo, quarto e sexto toiros) tendo só dado duas voltas uma no quarto toiro e outra no sexto. Também os campinos se quiseram juntar ao triunfo e deram um autentico espectáculo na recolha do quarto toiro, sendo muito justamente chamados para compartilhar o triunfo.

 

Dirigiu a corrida Agostinho Borges e foi a veterinária a Dr. Ana Gomes.

 

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