Morrer a viver

Crónica

Quem nos dera a todos morrer como tu, Fernando. Com o coração a bater. Porque tu morreste com o coração a bater. Tu morreste cheio de vida. Não de vida por viver, mas de vida já vivida, e é essa que conta no fim das contas. A vida não é de poupanças, porque tem um fim certo. E tu usaste toda a vida que tinhas para usar. Até um toiro te levar.

A vida não se guarda aos poucos debaixo do colchão, porque não se faz fortuna a poupar a vida. A vida só é uma fortuna quando aproveitada, com o coração a bater, aos saltos, a sair do peito. Quando sentimos. O frio, o calor, a chuva e o vento. O medo, a alegria, a felicidade, o amor. Quando nos damos aos amigos, quando nos damos às paixões. Quando somos o que queremos e livres escolhemos os caminhos a fazer. 

Não é trágica a tua morte. É triste e prematura, mas não trágica. Trágico é morrer na memória dos outros e com a vida vivida a metade. Com um coração que nunca bateu a sério. Que nunca sentiu o que o mundo tinha para dar.

Terias tu vivido a sério sem nunca ter sentido o cheiro do toiro? Sem nunca ter sentido o gozo de uma pega? Sem nunca ter tido medo antes de saltar para a arena. Sem nunca ouvir o silêncio das bancadas enquanto te olhavam. Sem nunca teres sentido os braços dos teus amigos a ajudarem-te e depois os seus abraços na trincheira. Sem nunca ter dado uma volta a praça. Sem nunca beber uma cerveja de penalti num jantar. Sem nunca sentir uma jaqueta e uma farda de forcado. Sem nunca saber o que isso é e o gozo que isso dá. Terias tu sentido a vida?

A tua morte não foi uma tragédia, Fernando. A tua morte, como escreveram, foi de “ataque de paixão”. E não há melhor forma de partir do que a lutar por uma paixão. Porque ser forcado não é uma atracção pela morte. É uma atracção pela vida por inteiro. Quem nos dera a todos morrer como tu, Fernando. Quem nos dera a todos ter paixões como tu. Quem nos dera a todos viver como tu.

Até já Fanã!

Ilustração Pedro Rocha e Mello

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