A montanha pariu um rato

Crónica

Praça de Toiros Daniel do Nascimento, Moita: meia casa visualmente forte.

Rejoneador Diego Ventura / Matador de toiros Andrés Roca Rey

Grupo de Forcados Amadores do Aposento da Moita, capitaneados por José Maria Bettencourt

Touros de D.ª Maria Guiomar Cortes de Moura (Murube), para cavalo (1.º, 3.º e 5.º), de Juan Pedro Domecq, para pé (2.º, 4.º e 6.º)

Suplentes: Cavaleira Mara Pimenta / Joaquim Ribeiro Cuqui

Diretor de Corrida: Manuel Gama, que dirigiu com acerto e descrição, mostrando-se tolerante no atraso, justificado, do matador peruano Andrés Roca Rey.

Muita expetativa e grande ambiente, meia casa forte, ou três quartos, não sou especialista em apuramento de estatísticas, mas visualmente a praça apresentava-se muito bem composta, esperava-se mais, talvez lotação esgotada, mas o facto de haver nessa mesma tarde corrida em Coruche e Cáceres pode ter tirado público na amena noite de 27 de Maio.

A corrida começou com 30 minutos de atraso, pelo facto de Roca Rey, que havia toureado em Cáceres nessa tarde, ter chegado atrasado e visivelmente cansado.

Abriu a noite Ventura com um Maria Guiomar bem apresentado, sem excesso de peso, como aliás todos os irmãos de camada que saíram à arena da Moita.

Touro com galope e tranco habitual naquele encaste, mas pouca transmissão, tardo nos embroques e reuniões, o que levava Ventura a atrasar-se nos quiebros, boa lide, sem toques, sempre colado ao touro, quer na frente, quer pela garupa, mas as reuniões e a ferragem atrasada por falta de empuje do touro, não acudia ao cite e as batidas descompunham a reunião. Faena aplaudida, mas a que faltou touro, Ventura pôs tudo, e os seus cavalos, sem alardes e numa doma perfeita, mostraram a forma em que estão.

Touro pegado à primeira tentativa pelo Cabo José Maria Bettencourt, depois de brinde aos alternantes Ventura e Roca Rey, fez-se silêncio, caminhou sereno, templado, grupo bem colocado e no momento e seu sítio carregou, aguentou e fechou-se corretamente, numa pega que chegou à trincheira, bem ajudada por todo o grupo em cada setor.

O segundo, primeiro para lide a pé, foi um touro terciado, para não dizer mais, alto, feio, avacado, barbeludo, sem presença e sem fundo, muito nobre, pouca força e pouco recorrido, não deu para brilhantismos nem no capote, recebendo, nem na muleta, melhor pelo lado direito, onde andava mais, mas no limite da força, bondoso, sem transmissão, faena curta e que não acabou de chegar ao público. Volta para o Matador.

O terceiro, novamente para Ventura, foi um pouco mais brusco e agressivo, criando mais problemas a Ventura, numa doma perfeita, teve alguns ferros importantes, mas o touro apertou mais e a cravagem ficou mais comprometida, ainda não foi no segundo que se viu o furacão Ventura.

Touro pegado por Nuno Inácio, que após brinde aos seus companheiros de grupo, foi andando com temple e experiência, toureando o oponente e carregando na altura certa, o touro reúne com a brusquidão que havia feito no cavalo e o forcado, embora tenha reunido bem, sai da cara do touro, mas volta a entrar num dos derrotes que sofreu, o grupo entra com rapidez e consumou ao primeiro intento. Volta para ambos.

Passou-se rapidamente para o quarto da noite, sem intervalo, justificado pelo atraso do início.

Voltou o toureio a pé e saiu outro touro sem presença, alto, feio, bem sabemos que o toureio a pé em Portugal não tem o peso idêntico a Espanha, para os ganaderos, mas Moita tem categoria e não se pode mandar uma corrida assim, ou melhor, se investisse, tudo de acordo, mas com esta apresentação e sem investir, como aconteceu, é pena, o nome Domecq pesa muito, mesmo que sejam assim, entender-se-ia se não tivéssemos ganadarias extraordinárias, mas temos…

Enfim, foi o que aconteceu, um quarto mais colaborador, com mais força, igualmente melhor pelo lado direito, protestando nos finais de muletazo, soltando a cara e tirando brilho às tandas. Volta para Roca Rey.

No quinto mudou a noite, explodiu Ventura, o touro com arrancadas francas, reuniões emotivas, e galope colaborador permitiu uma lide à Ventura, sempre colado ao touro, toureando a cavalo e com o cavalo, sem toques, sem esticões, e os três últimos ferros, com o cavalo parado na cara do touro, sem distância, nem sitio para se tirar, mas tirando-se, puseram as bancadas de pé, a Moita rugiu com o bom toureio de Ventura, por cortesia chamou a suplente Mara Pimenta para que fizesse o gosto à mão, cravou dois ferros, muito emocionada pela ocasião, bonito fecho de noite, na parte do toureio a cavalo.

O AP Moita fechou com chave de ouro, numa pega à segunda de Leonardo Mathias, brindada ao aficionado autarca moitense, bem ajudada, no touro mais sério e mais exigente, franco, reunindo bem mas com poder e depois protestando com o forcado na cara, o que fez com que saísse na primeira. Duas voltas para ambos, acompanhados de Mara Pimenta.

O sexto, para pé, foi o pior, sem recorrido por qualquer dos lados, igualmente avacado, alto, cara solta, por alto não permitia nada e baixando-lhe a mão, caía, por muita vontade do lidador, sem ovos não se fazem omeletes. Volta para o toureiro, que ficou surpreendido com a paciência boa vontade do público moitense, justificava-se o saludo.

Realço o gesto de Roca Rey, à semelhança de Ventura com Mara, também Andrés permitiu nos seus três touros, quites a Cuqui, que se mostrou plazeado, tranquilo e capaz de outros voos, destacando-se no último touro, com capote nas costas, centrado no ruedo e com lances muitíssimo aplaudidos.

A montanha pariu um rato não por falta de público e vontade de ver touros, a praça estava quase cheia, e muito menos por falta de compromisso, profissionalismo ou entrega dos toureiros, pelo contrário, foi uma demonstração de pundonor, profissionalismo, inigualável, invejável e desejável em todos. Diego mostrou o porquê de estar na cimeira, cavalos bem arranjados, doma irrepreensível, sem mordidas, sem fantasias, com verdade. Roca, embora se notasse o cansaço da tarde, foi generoso, tentou tirar água de poço seco, por ambos os lados, nos quites, na noite. A montanha pariu um rato por falta de touros, e quando estes faltam, não há nada a fazer.

Fica na retina a atuação do Aposento da Moita, bem comandado, organizado, competente e vistoso, três ferros de Ventura e os seus cavalos, todos figuras do toureiro, um quite de Cuqui, a disposição de Roca e a ousadia da empresa de Rafael Vilhais em montar uma corrida desta importância e com figuras, o resto, o resto ficou por acontecer.

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