Manzanares em ombros, mas foi Morante quem voou mais alto

Crónica

A crónica da Corrida da Feira de San Pedro Regalado do passado domingo em Valladolid, por Diogo Câncio.

 

Praça de Toiros de Valladolid

Domingo, 13 de Maio de 2018

Toiros de Nuñez del Cuvillo, de bonitas “hechuras”, colaborantes e nobres, excepto o quinto, áspero e curto de recorrido e o sexto, diminuído. Destaque para o bravo e emotivo quarto.

“Morante de la Puebla”, José Maria Manzanares e Alejandro Talavante

Lotação: quase cheia

 

O que é tourear? Como se deve tourear? Para “quem” se deve tourear?…

Gosto de acreditar que o bom toureiro, assim como o bom aficionado, comparecem em cada Corrida com estas questões, entre outras, a bailarem-lhe na mente, esperando que, no final, alguma luz extra sobre as mesmas tenha sido derramada. É também minha convicção que poderá não existir uma única resposta correcta e definitiva para estas perguntas, quer isoladas, quer no seu conjunto e acredito igualmente ser nesta diversidade que reside uma das maiores grandezas e riquezas da Tauromaquia. Não obstante, não será por isso que me vejo impedido de, desde os meus incipientes inícios como apaixonado da “Arte de Montes”, me ter naturalmente decantado por um tipo de tourei(r)o ao qual se deu em qualificar como “artista”. Assim sendo, conhecido o magnifico cartel de San Pedro Regalado, comecei desde logo a preparar a minha próxima “peregrinação”, considerando a presença de três nomes que, hoje em dia e indiscutivelmente, estão entre os mais destacados dentro dessa qualificação. Outra coisa distinta e, por isso mesmo, extremamente interessante e a “encher” o cartel de conteúdo são os diversos conceitos, posturas e personalidades exibidos por estas três enormes Figuras, nas respostas e descobertas que nos vão transmitindo acerca das interrogações formuladas no inicio deste texto. Nesse sentido, a Corrida foi um enorme êxito, já que cada um deles teve oportunidade de nos “explicar” claramente por que caminhos navegam e se definem as suas respectivas Tauromaquias, marcando diferenças no estilo, no fundo e nas formas mas, simultaneamente, tendo como rasgo comum essa “Arte” que tão difícil é de definir, mas tão fácil de identificar quando se trata das inspiradas actuações deste trio…

José António, de La Puebla, a minha fraqueza, o meu “mas allá del bien y del mal”… Toureia para si mesmo e nesse aparente egoísmo reside a sua maior generosidade… Não se engana a si próprio, logo não engana os restantes… Necessita de um toiro bravo e com duração, na medida em que o seu toureio, sem concessões, é exigentíssimo, reunido à figura e sempre rematando “detrás de la cadera”, jamais em linha recta ou a despejar para fora, tirando naqueles passes de peito “antigos”, sem rodar à ombreira contrária, ao serviço da História e da técnica, desafogando o oponente e permitindo-lhe recuperar. Para ilustrar na perfeição isto que digo, saiu em quarto lugar o “Triunfador”, nome premonitório para o que estava por vir, precioso de “hechuras”, como o restante curro, considerando a Praça de segunda, que apresentou precisamente essas características de bravura, acometividade e duração, tão necessárias para que “Morante” fosse “Morante”… Estatuários comprometidos e um “molinete” como só ele e Belmonte serviram de carta de apresentação, a que se seguiram duas séries tandas de derechazos, tão ajustadas e entregues que acabaram por provocar um desarme. Parou a música e, durante uns breves instantes em que soprou o vento e o génio parecia não encontrar local idóneo para continuar a sua obra, toda a Praça susteve a respiração, medo e expectactiva em simultâneo pela continuidade ou não da maravilha que se adivinhava… Mas continuou… Continuou… Continuou… E desatou-se o “manicómio”, essa emoção, essa Magia, que permitem que uma massa humana de milhares de pessoas reaja como uma só, os “olés” arrancados das entranhas, os sorrisos e a Felicidade geral e sem excepção, de quem se sabe cúmplice do único e irrepetível… As séries pela direita foram de um desgarro, de uma entrega e de uma profundidade inultrapassáveis e ao natural esteve igualmente imenso, ante um toiro que teve a virtude suprema de ir sempre em crescendo, contribuindo para uma obra verdadeiramente inesquecível, apimentada por aqueles adornos que nas mãos do “Cigarrero” são maravilha, luz e surpresa puras… Faltam-me as palavras, a pena é fraca e apoio-me em Marcos Sanchidrián, para o site “Mundotoro”: «El toreo de Morante” duele porque no sabes si ese muletazo va a volver, si ese remate es de verdad o es un sueño, si ese cambio de mano o esa forma de salir andando son de hoy o hace un siglo. Morante” conjuga todo el toreo.» A estocada, esta vez sim, como momento final de catarse e libertação, “despacio” e até ao punho, mas o bravo, honrando esse epíteto levantou-se por três vezes antes de finalmente dobrar, deixando o troféu numa simples orelha. Pouco importa, a obra, mais uma, ficará para sempre na memória de quem a presenciou… No seu primeiro, inaugural do festejo, nada de especial a reportar entre o vendaval que soprou e a falta de qualidade do Cuvillo.

José Maria Manzanares, dono de uma estética e de um empaque fora do comum, “jogou” igualmente com as suas mais fortes cartas e foi a imagem fiel do conceito que explanou à revista “6 Toros 6” na ressaca da sua passagem por Sevilha, conceito esse que passa essencialmente por “tourear a favor do toiro”, área em que é um Mestre incontestável e da qual devemos ressaltar os imensos recursos técnicos e conhecimento necessários, aliados a uma figura e naturalidade inatas, que resultam em quadros de uma enorme beleza, embora, por vezes, sacrificados à profundidade e à submissão com poderio das investidas. No seu primeiro, nobre, algo mansito e débil, aproveitou as investidas iniciais de maior transmissão e humilhação e deixou-nos um ramalhete de derechazos verdadeiramente extraordinários, por desmaio e “acople”, ao tempo que “Cielo Andaluz”, esse pasodoble tão seu, nos embalava em mais um doce sonho de um dos mais fantásticos estetas do toureio da actualidade. Mimo, parcimónia e classe que a todos nos embeveceram, permitindo-lhe o corte da primeira orelha da tarde, não obstante a estocada muito descaída. Como virtudes máximas no seu segundo, o facto de ter entendido na perfeição o toiro mais “agressivo” da corrida, quer por cara, quer por comportamento, pois entrava nas sortes com ímpeto e transmissão, mas a meio do passe cantava a sua verdadeira condição, levantando a cara e parando o recorrido. Manzanares não duvidou um segundo e, atrasando o cite de muleta, compôs uma faena de passes curtos mas de enorme expressão plástica, absolutamente adequada ao que pedia o oponente e que alcançou, novamente, extraordinárias quotas de beleza e “toreria”, só ao alcance dos eleitos, face a semelhante material. O estocadão a receber, à segunda tentativa, sorte em que é, inequivocamente, um dos melhores da História, deixou-lhe nas mãos outra orelha, com petição atroadora de segunda a que o Presidente, com bom critério, não atendeu. Tarde de um Matador em plenitude, garantia quase infalível de momentos de enorme classe e elegância, alicerçados numa fortíssima convicção interior e domínio técnico.

Talavante é outro dos que foram tocados pela “varita”, intérprete transparente onde os haja, pela forma clara como nos transmite os seus estados de alma frente ao toiro. E em tempos de voragem de triunfos e orelhas a eito, como se de um marcador de golos se tratasse, que bem sabe a contemplação de um Artista que é isso mesmo, imperfeito e incapaz de produzir “obras de arte” em massa, que para isso outras áreas da actividade humana existem. Tal como “Morante”… O seu primeiro, terceiro da tarde foi outro Cuvillo precioso de apresentação, nobre e colaborador, com pouca transmissão, mas que teve a qualidade e durou o suficiente para fazer sobressair o melhor Talavante: emotivo, variado e inspirado nos estatuários iniciais, finalizados com um ajustado cambio pelas costas, templado, profundíssimo e abandonado, em algumas séries de naturais fabulosas, entregue e com muito valor nas “manoletinas” finais, plenas de risco e exposição. Não foi a sua uma faena compacta, fruto das intermitências do próprio oponente, que rapidamente se doeu ao toureio puro e obrigado de Alejandro, mas deixou-nos momentos de absoluto deleite, verdade e pureza, no fundo aquilo que busca aquela massa anónima, mas solidária e compacta de “peregrinos” que vão percorrendo essas Praças em busca do tal raro “mistério dito” que tão bem enunciava Bergamin… Estranhou-se a inexistência de petição de orelha, mas estou certo que tão pouco lhe faria falta para o guisado… Com o último da corrida não teve a mínima hipótese, pois o Cuvillo ficou praticamente inválido após uma “volta de campana”, tendo o Matador abreviado com grande critério e respeito por uma afición que mais do que ver dar passes quer embriagar-se de Toureio…

Tarde excelente em Valladolid, em que Manzanares saiu a ombros, Talavante nos fez levantar e “Morante” tocou o céu…

 

 

 

 

 

Fotografia: Federación Taurina de Valladolid

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