Inauguração da Temporada na Nazaré

Praça de toiros do Sítio na Nazaré, corrida noturna de inauguração da temporada neste bonito e castiço tauródromo.

Lidaram-se 6 novilhos toiros de Francisco Romão Tenório num cartel composto pelos cavaleiros João Moura, Tito Semedo e João Moura Júnior, sendo que as pegas estiveram a cargo do Grupo de Forcados Amadores de Coruche, capitaneados por José Tomás e Grupo de Forcados Amadores de Monforte, capitaneados por Ricardo Carrilho.

Com uma temperatura amena mas algum vento a tornar desagradável a noite para os espetadores menos agasalhados, a praça registava cerca de meia casa à hora em que soou a “Maria da Fonte” no ambiente caraterístico desta praça, algo avesso à solenidade e a aplaudir entusiasticamente a maioria das lides e pegas da noite.

João Moura

Recebeu o primeiro toiro da corrida, de 3 anos como todos os restantes desta noite, 570 kg, preto bragado meano, alto e bem composto e com cara de novilho mas que saiu algo “pastelento” na lide apesar de se deixar lidar bem, mas nunca conseguindo transmitir o mínimo de emoção à bancada. Após cravar dois bons compridos iniciais e trocar de montada, a série de curtos foi a cumprir em bom plano, aproveitando a pouca fogosidade do toiro para efetuar uma brega pausada a trazê-lo bem na garupa do cavalo, com boas escolhas de terrenos e de ritmos para cravar que eram conseguidas em sortes frontais de qualidade e com a musica a acompanhar, logo após o segundo curto. A lide alongou-se um pouco, a ponto do cavaleiro ouvir um aviso no curto com que encerrou esta atuação, positiva mas distante do conceito de “emocionante”. O cavaleiro deu volta no final.

O toiro com que abriu a segunda parte da corrida foi um negro bragado corrido com 505 kg, feio de tipo. Moura entrou forte, com uma sorte de gaiola bem conseguida e um segundo comprido de qualidade superior, ficando desde logo com o público na “mão”. O toiro, para não variar, não ajudava na transmissão de emoção, chegando a ser ajudado a “subir a cara” por algumas vezes durante a lide pelos peões de brega, e neste particular, o cavaleiro esteve sempre por cima do oponente, onde esta escassez de emoção e força era ultrapassada pela qualidade da brega e ferragem que o cavaleiro conseguiu impor. Não foi por acaso que logo após um muito bom curto inicial em sorte frontal sem enganos se escutou música. Os três curtos seguintes foram conseguidos com Moura a entrar pelo toiro em sortes frontais com batida ao piton contrário, de qualidade superior, pese alguma aceleração excessiva empregue no quinto curto e sempre com bons remates nas sortes. Ainda foi buscar outra montada e encerrou a lide com um bom curto nos médios numa sorte frontal sem enganos e cravando ao estribo, seguido de um bem conseguido ferro palmito. Maestro Moura saiu da arena em ambiente apoteótico e deu aplaudidíssima volta no final.

Tito Semedo

O cavaleiro de Beja recebeu o segundo toiro da corrida, preto bragado meano, bem composto e aparentando alguma mobilidade acima da média nesta corrida e com alguns sintomas de dificuldade de visão, à porta da gaiola. Cravou dois compridos regulares e trocou de montada e logo após um primeiro curto cravado numa sorte frontal, a “chama” do toiro foi-se dissolvendo e entrou no mesmo ritmo dos irmãos de camada presentes nesta corrida.

Tito continuou a impor o mesmo ritmo e talvez por não ter entendido esta mudança no imediato, acabou por ter 3 passagens em falso antes de conseguir cravar o segundo curto após nova mudança de montada. A investida do toiro já se esvaíra e o cavaleiro foi tentando adaptar ao toiro o temple adequado. A música tocou após o terceiro curto obtido numa cambiada e o cavaleiro ainda cravou um quarto curto a quarteio e um palmito. Obteve uma lide irregular num toiro que se esvaziou completamente ao longo da lide. O cavaleiro deu volta no final.

O quinto toiro da noite saiu à praça anunciando 500 Kg, preto bragado corrido com pouca cara, acapachado e bastante escasso de força. Após dois compridos bem conseguidos, houve uma primeira troca de montada e Tito cravou o primeiro curto num bom quarteio e com alguma emoção, escutando musica logo após este ferro. O segundo curto, frontal com viagem ao piton contrário foi bem conseguido e o cavaleiro efetuou uma segunda troca de montada. Neste cavalo, aprimorou a brega, bem ligada ao toiro que não tinha força nem ímpeto para investidas comprometedoras e foi a aguentar estas escassas e pausadas investidas que cravou mais dois curtos. Nesta altura, o cavaleiro foi trocar pela terceira vez de montada… totalizando quatro cavalos numa lide! Foi com esta montada que efetuou o remate final desta lide, com um palmito inicial a sesgo, complementada com um violino e novo palmito em quarteio, com o público rendido a esta manifestação mais espetacular que artística, com ferros e cavalos a mais para tão pouco toiro, mas aplaudido vigorosamente. Tito Semedo deu volta no final.

João Moura Jr. 

O seu primeiro toiro era um preto de 500 kg, pouca cara, de córnea fechada e caída e saiu nobre. Atrevo-me a considerar este o melhor toiro da noite, pese a falta de “sal” que este e todos os toiros manifestaram nesta corrida. Aproveitando a qualidade de investida e a força inicial do toiro, o cavaleiro recreou-se, cravando dois bons compridos e trocou de montada para os curtos. O curto inicial foi muito bom, com o toiro a responder de largo ao cite do cavaleiro que templou muito bem esta investida franca mas, infelizmente, já “a menos” de força. O jovem Moura adaptou-se às condições do oponente, pausou mais a brega com uma excelente ligação ao toiro, ladeando barbaridades e mesmo encurtando as distâncias ao limite, com espetáculo e arte, continuou a cravar bem, ao estribo, em sortes de temple adequado e a aproveitar a nobreza deste toiro que ao contrário da fogosidade, nunca se esvaiu durante a lide. O quarto bom curto e o palmito quarteado com que rematou a lide foram um excelente corolário desta bem conseguida atuação que a par da segunda lide do seu pai João Moura, foram as melhores lides desta corrida, tendo o público premiado o cavaleiro com merecida ovação quando abandonou a arena, o que efetuou só após mais um bom palmito a pedido insistente do conclave. O cavaleiro deu volta no final.

O último e sexto toiro da corrida foi um preto bragado meano de 520 kg e córnea acapachada. Logo na saída e após o primeiro comprido mostrou o que valia, era o manso da corrida. Sempre distraído e com sentido na bancada, apenas reagia melhor ao castigo em que alguma casta o obrigava a perseguir o cavaleiro em típicas arrancadas de manso. As “tarrascadas” que deu após o primeiro curto não anteviam tarefa fácil para o jovem Moura que aguentava as meias investidas do manso para ir cravando e obtendo algumas razoavelmente bem conseguidas sortes apesar das dificuldades. Já a escutar música e a esquivar-se ao adiantar do toiro em cada cravagem concretizada, nomeadamente num bom terceiro curto, trocou novamente de montada. Aprimorou a brega ladeando e adornando-se a distâncias de compromisso nos médios, não se esquivando a alguns toques inevitáveis e o palmito com que encerrou a lide, foi o corolário de uma lide esforçada, muito profissional e a retirar ao toiro tudo o que este não tinha. O jovem Moura Júnior deu volta no final.

Forcados Amadores de Coruche

O cabo José Tomás abriu praça no que toca às pegas desta noite. O Forcado da cara encetou um cite sereno a deixar descansar e a mostrar-se ao toiro, carregou a mandar após os médios, fixou bem a investida franca do astado, recuou o suficiente, recebeu com perfeição e fechou-se bem à barbela numa viagem grupo dentro que não teve dificuldades de maior a culminar uma pega à primeira tentativa que valeu pela técnica empregue. O forcado deu volta no final.

A pega do terceiro toiro da noite foi para o cara José Sousa que teve de efetuar duas tentativas para o grupo conseguir efetuar esta pega. Na primeira tentativa, o forcado esteve bem no cite, ainda aguentou, a fixar a investida, mas ao receber o toiro que ensarilhava, tipicamente pela falta de força resultante do desgaste na lide, descompôs-se e não se conseguiu fechar, sendo desfeiteado logo ali. Na segunda tentativa, o cara subiu um pouco mais e após mandar e aguentar bem, recuou e recebeu uma entrada do toiro, já a defender-se, e fechou-se com eficácia à barbela que logo se transformou em córnea pelo derrote sofrido antes de chegar ao grupo que ainda teve de ir atrás, já que a trajetória do toiro mudou para a direita da formação, acabando por ser o rabejador a ajudar bem o cara e permitir ao grupo recuperar deste desfasamento de trajetória. Pega bem conseguida com volta no final para o forcado da cara.

A última atuação desta noite para o grupo de Coruche teve como protagonista na cara o forcado António Tomás. Esta pega acabou por ser consumada apenas à quarta tentativa devido à repartição de problemas diversos. Na primeira tentativa, o toiro veio pronto ao forcado que esteve correto no cite mas faltou fixar melhor a investida e após receber o toiro de modo algo descomposto por uma entrada mais pronunciada com o piton direito, não resistiu a um forte derrote logo após a reunião. Na segunda tentativa, o forcado já não contou com a prontidão de investida mas o toiro já não se defendeu na reunião, entrou bem mas o forcado acabou por sucumbir ao derrote nos médios que já deveria ter sido percebido anteriormente pelo primeiro ajuda, algo tardo nesta interpretação. Na terceira tentativa, o grupo mudou o toiro de sítio e encurtou distâncias. O forcado não aguentou de modo a fixar a investida do melhor modo, o toiro ensarilhou, defendendo-se na sua falta de força e entrou a um forcado completamente descomposto, tendo esta tentativa ficado gorada no imediato. Por fim, na quarta tentativa, com o toiro fora de tábuas e o grupo em curto, o forcado da cara recebeu e fechou-se muito bem, valendo isso, já que o grupo tardou um pouco a fechar a pega. Não foi uma pega brilhante mas valeu a atitude e valentia do forcado da cara que nunca se esquivou à luta apesar das dificuldades enfrentadas. O forcado não teve autorização do diretor para dar volta.

Forcados Amadores de Monforte

O forcado da cara eleito para abrir a atuação do grupo de Monforte foi o forcado Nuno Toureiro. No cite, foi-se tentando mostrar ao toiro que procurava localizar o forcado pela voz deste, devido a alguma dificuldade de visão a distâncias superiores. O toiro foi avançando a passo até conseguir ver melhor o forcado e foi já a entrar nos tércios que investiu ao mando do forcado que após recuar alguns passos e reunir já perto das tábuas, fechou-se bem na córnea do toiro que não causou dificuldades de maior ao grupo de ajudas, numa pega bem conseguida à primeira tentativa. O forcado deu volta no final.

Para a pega do seu segundo toiro, o grupo de Monforte teve como protagonista na cara o forcado Rodrigo Núncio que necessitou de duas tentativas para consumar esta pega. Na primeira tentativa, pese a boa técnica empregue até à reunião, não conseguiu evitar uma entrada baixa do toiro que o “empranchou” e lhe retirou qualquer hipótese de sucesso. Na segunda tentativa, o forcado voltou a estar bem, já teve de ir mais acima do toiro que não respondia tão bem ao mando. O forcado mostrou-se bem ao toiro, conseguiu mandar na investida e após recuar o suficiente, aguentou a entrada do oponente que já não lhe foi “às canelas” como na tentativa anterior e o forcado embarbelou-se bem numa viagem sem problemas tendo sido ajudada com eficácia pelo grupo, já nas tábuas e com o toiro a continuar a empurrar. O forcado deu volta no final.

O grupo de Monforte teve de se entender com o pior toiro da corrida, o tal manso saído em ultimo lugar. O cara inicial foi o forcado João Maria Falcão. Há toiros que dão “meia” oportunidade e este foi desses. O cara esteve muito bem à frente do toiro, aproveitou a investida franca e recebeu bem numa córnea esforçada e a aguentar os derrotes do oponente. A entrada do primeiro ajuda foi oportuna, mas os segundas ajudas ficaram na expetativa e o toiro teve todo o tempo do mundo para, num violento derrote, se livrar de forcado da cara e primeiro ajuda. Na segunda tentativa, deu-me a entender que o primeiro ajuda na vontade de ajudar, acabou por dificultar a tarefa do cara, apesar do toiro continuar bruto e a defender-se cada vez mais. Na terceira tentativa, mais do mesmo, o grupo já deveria estar em curto com um toiro nestas condições e faltava “peso” na zona dos médios. A quarta e quinta tentativas foram novos insucessos, com o grupo já a funcionar muito com o coração e pouco com a cabeça, que culminou na lesão do forcado da cara que teve de ser dobrado por Ricardo Gonzalez. Nesta altura, os terrenos e as distâncias já não eram relevantes, e ao fim de duas tentativas mais, na sétima, o toiro foi finalmente parado pelo grupo numa esforçada pega ao sopé. O forcado não foi autorizado a dar volta.

A direção de corrida esteve a cargo de Francisco Calado que esteve coerente e atento, sem motivos de discordância de critério, na generalidade, por parte dos artistas e do público em todas as lides, numa corrida onde resumidamente os toiros nunca transmitiram emoção e se deixaram lidar quase na generalidade, exceção para o último, os cavaleiros cumpriram com destaque para duas lides, a primeira de Moura Júnior e a segunda de João Moura e os forcados embora tivessem estado bem em quatro dos toiros, demonstraram algum desentendimento nos dois últimos, na realidade, os que apresentaram maiores dificuldades.

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