Há que parar-lhes na frente!

“Era um toiro difícil. (…) Difícil e baixel… Devias tê-lo despachado. – Os toiros – respondeu, encarando-me – não são para despachar, mas para tourear. Há que parar-lhes na frente.” Do ensaio “Sombra e Sangue”, diálogo entre o Maestro José Júlio e o escritor Alves Redol, num hospital de Sevilha após o primeiro ter sofrido uma colhida, na Feira de Abril de 1960.

Há que parar-lhes na frente, há que falar com eles, mostrar-lhes quem manda, com respeito e admiração, é claro, mas com senhorio e galhardia! Francisco, Francisco e António…

Há que os ler, entender, convencer e dominar… Há que crescer na Alma e no querer quando do encontro resulta a derrota… Com Verdade, Pureza e Entrega, há que os Tourear! Borges, Faria e Telles… Três nomes, dois Forcados, um Cavaleiro… Três Toureiros!

Três geniais intérpretes das suas respectivas artes, que marcaram a letras de ouro a história desta Corrida inaugural da temporada lisboeta, 12 de Abril de 2018. E também a marcou o curro da ganadaria do Dr. António Silva. Houve, efectivamente (alguns) TOIROS em Lisboa, como descreve o feliz e reivindicativo slogan associado a esta época taurina na Praça do Campo Pequeno.

Francisco Borges, provavelmente o melhor Forcado de cara da actualidade, construiu um monumento à arte de pegar toiros no quinto da ordem, o imponente “Conciso”, que aplicou toda a força dos seus 650 Kgs para lograr sair ganhador de uma primeira tentativa estoica. Borges “enche” Praça como poucos, impondo a seriedade e a elegância da sua presença através de um cite clássico, centrado e senhorial. “Magnetiza” o público e, mais importante que isso, o toiro que tem por diante e foi desta forma que se apresentou nos dois intentos efectuados, marcando de forma absolutamente irrepreensível os três tempos da sorte de caras e aguentando depois o impressionante poder do Silva, muito ajudado por uma técnica de recuar, de reunir e de se fechar que é nada mais, nada menos, do que perfeita. E se de perfeição falamos, assente numa enorme vontade, valor e entrega, justiça seja feita a todo o Grupo que o ajudou na autêntica guerra que foi parar aquele “comboio”, com destaque para uma intervenção extraordinária do primeiro-ajuda António Cortes. O corolário perfeito para uma grande noite dos Amadores de Montemor, quanto a mim, os grandes triunfadores da Corrida.

O outro Francisco, Faria de apelido, é artista da mesma cepa, precoce e intuitivo, mas já um verdadeiro Senhor. Classe e valor “a raudales”, figura sempre serena e galharda frente aos toiros, independentemente das tentativas já feitas ou das “tareias” acabadinhas de receber, deu mais uma extraordinária lição de “pundonor”, em três tentativas que foram outras tantas pegas, saindo desde logo bastante maltratado das duas iniciais. Tal nunca o impediu de citar com tranquilidade e sapiência, carregar no momento exacto e recuar com temple inato, para finalmente obter o merecido sucesso, com o Grupo de Vila Franca a não corresponder ao seu melhor nível, excepção feita ao terceiro ajuda Bernardo Alexandre, o único que se conseguiu fechar na viagem e ao enorme segundo-ajuda André Matos, que se atravessou literalmente no caminho dos 604 Kgs do relâmpago chamado “Esmeraldo”, o que lhe valeu mais algumas sérias marcas de guerra de quem sempre tudo dá em prol do seu Grupo e dos seus companheiros. Um aplauso muito especial também aqui para o Grupo de Montemor, com três dos seus elementos a saltarem à Praça e a ajudarem na consumação da sorte, vendo como o Faria chegava praticamente destapado junto a terrenos de tábuas. A este último e ao André Matos aproveito aqui para deixar um grande abraço de melhoras, face a gravidade das mazelas sofridas. Esperamos por vocês Forcadões! Francisco, Francisco e Montemor… Ser Forcado: Arte, Valor, Abnegação e Solidariedade!

Mantenhamo-nos na Arte, ou em A(ntónio).R(ibeiro).T(eles), que são, normalmente, uma única e a mesma coisa. E saibamos que a verdadeira, a mais profunda vai muito para além da mera estética. Digamos mais, ao recordar a sua segunda lide (quarta da noite), a estética é um mero subproduto de um outro componente muito mais importante e esse sim verdadeiramente imprescindível da actuação de qualquer artista, a Ética. O bonito é acessório, quando o que transparece essencialmente é a preocupação em fazer as coisas bem feitas, passando em falso as vezes que forem necessárias, bregando com a paciência e a sabedoria que são apanágio dos verdadeiros Maestros, esperando, dialogando com o Toiro, ouvindo as suas perguntas e dando a cada momento as respostas mais correctas. Um compêndio de “toreria” e valor (que manso e bruto foi o Silva, arrancando-se a “tarrascadas” e tapando-se completamente no momento das reuniões), marcado em alguns ferros de antologia, pisando terrenos de muito compromisso, para cravar de alto abaixo e ao estribo (nunca me canso de dizer que, no que a esta questão diz respeito, não há nada por inventar e muito menos a subverter), numa actuação absolutamente “marca da casa”, uma fabulosa mistura de casta, conhecimento e veterania que, como tantas vezes já “clamei”, faz de António o verdadeiro Clássico. Toureiro de Toureiros ou que, pelo menos, o deveria ser, independentemente de alguns momentos mais insonsos, apáticos e desinspirados, como os que corresponderam à sua primeira lide.

Sobre os outros protagonistas da noite, os Toiros de António Silva, dizer que, de forma geral, não deixaram os seus créditos por mãos alheias e corresponderam em larga medida à expectativa criada. Nota negativa para os dois primeiros que, não obstante as generosas carnes, apresentaram pouco trapio (não se mede ao quilo, também nunca me canso de bater nesta tecla) e tiveram comportamento condizente, descastados e sempre a choto, sem chama ou emoção. A partir daí todo o curro luziu uma lâmina imponente, com vários exemplares a merecerem os justíssimos aplausos nas saídas de curros e com os últimos três muito encastados, embora com oscilações entre a verdadeira bravura dos já citados “Conciso” (quinto da ordem) e “Esmeraldo” (sexto) e a mansidão agressiva do tal quarto lidado por António Ribeiro Telles, de seu apropriadíssimo nome “Furioso”. Terá razões para estar contente a jovem Ganadera Sofia Silva Lapa, chamada à arena nos dois finais da função, embora eu gostasse mais quando eram os toiros a dar volta (é a eles que devemos render o maior tributo) e só no final das Corridas, avaliado o conjunto em geral, o faziam os Ganaderos, tal como devia ter acontecido nesta noite lisboeta. Mantiveram os “Silvas” a sua bem ganhada fama de estampas imponentes e comportamentos a condizer!

Rui Fernandes pratica um tipo de toureio que não me preenche, de grande efeito nas bancadas e, por vezes, espectacular e emocionante, quando as “cambiadas” ou os ladeios resultam ajustados. O problema é que se obstina em aplicá-lo a todo o tipo de oponentes, independentemente das suas condições, daí resultando muitas vezes, tal como nesta ocasião, uma total falta de “acople”, numa sucessão de ferros a “silhas” mais que passadas e a distâncias muito consideráveis, que não transmitem o risco tão necessário para que a Festa sobreviva com pujança. Lá está, mais do que de estética, a Tauromaquia vive de uma Ética, que só a Pureza e o pisar de terrenos de compromisso conseguem suster.

Duarte Pinto teve igualmente uma primeira actuação desastrosa, com permanentes avisos dos capotes dos peões de brega durante a fase dos compridos e sem revelar qualquer preocupação na lide para os curtos, salvo muito raras excepções, deixando-os em quarteios demasiado abertos. Melhorou o registo no seu segundo, facto a que estava quase “obrigado” fruto das excelentes condições do “Esmeraldo”, sobretudo em dois excelentes ferros compridos, decaindo um pouco nos curtos, notando-se novamente um alívio nas “sortes” que não lhe é característico. É capaz de muito mais, melhor e mais sério, como tantas vezes já o demonstrou. Aguardamos com expectativa…

Para além dos já citados Francisco Borges e Francisco Faria, autores, respectivamente, do quinto e sexto “pegões” da noite, foram ainda solistas, pelo Grupo de Montemor, abrindo a Corrida, Francisco Bissaia Barreto, muito sereno a aguardar que o toiro parasse o choto, para então se mostrar e carregar com decisão, fechando-se numa viagem sem sobressaltos e, no terceiro da ordem, João da Câmara, que realizou uma grande pega, com sangue frio a não se precipitar quando o adversário pareceu querer arrancar e poderosíssimo numa reunião “à Grupo de Montemor”, seguida de uma viagem muito dura, excelentemente ajudada por um Grupo que se mostrou muito coeso e determinado durante toda a Corrida. Do lado dos Amadores de Vila Franca, abriu Praça, no segundo da função, David Moreira, que recuperou bem de um momento de reunião em que o adversário, além de fazer um estranho perdeu as mãos e Rui Godinho enfrentou-se aos 624 Kgs do potente “Furioso”, demonstrando o porquê de também ele ser um dos nomes cimeiros da Forcadagem nacional, dono de um cite pleno de classe e parcimónia, aliado a um temple no recuar ao alcance de muito poucos e a uma garra também superior, todos atributos dos quais teve de fazer uso numa pega que foi igualmente um dos momentos altos do festejo. Mas a verdade é que desta Corrida serão sobretudo recordados três nomes…

Francisco Borges, Francisco Faria e António Ribeiro Telles: “Os Toiros são para Tourear, há que parar-lhes na frente”!

 

 

 

 

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