A Festa dos Toiros!

Ao confronto entre o Homem e o Toiro há quem lhe chame Tauromaquia, mas a realidade é que o que existe são várias Tauromaquias. Há também quem o denomine como Festa Brava, mas nem sempre a bravura está presente nesse animal que tanto respeitamos e queremos. Atendendo ao que se passou nas Caldas da Rainha, no passado Sábado, dia 29 de Julho, vamos hoje chamar-lhe a Festa dos Toiros. E digo isto porque a corrida decorreu na sua quase totalidade sob o signo daquilo que deviam ser todas as corridas, com o Toiro como elemento central, com a sua imponência e os seus problemas, ora derivados da bravura, ora da mansidão encastada, mas sempre a fazer-nos lembrar porque é que são tão poucos os que se atrevem a enfrentá-lo e também que a sua missão enquanto toureiros (incluo aqui tanto cavaleiros, como forcados) é compreender as dificuldades que coloca e dar-lhes a melhor resposta possível. Nesse sentido têm motivo para estar muito contentes o ganadero dos “Fernandes de Castro”, os cavaleiros Luís Rouxinol e Manuel Telles Bastos e o Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, o primeiro porque contribuiu com matéria-prima bem apresentada no geral e com muito que tourear e “resolver” e os segundos porque souberam entender na perfeição essa mesma matéria-prima, brilhando pela sua arte, convicção e entrega. Foram assim os justíssimos triunfadores de uma grande noite de Toiros, que ficará certamente na memória de muitos dos assistentes que preencheram uma moldura humana a roçar a casa cheia.

Abriu praça o já mencionado Luís Rouxinol, que frente ao exemplar mais nobre e bravo do “encierro”, mas não o mais emocionante (530 Kgs de peso e a pedir um pouco mais de “cara” face ao bonito e harmónico corpo), andou em plano de Maestro, na forma como absorveu perfeitamente o tranco e a qualidade do oponente, para brilhar sobretudo na brega e no remate das sortes, em ladeios milimétricos, que serviram desta vez, além do sempre muito aplaudido efeito estético, para avivar e manter a constância da investida e o interesse do grande atanásio. Retira-se daqui, ou devia retirar-se a grande lição que aquilo que muitos usam e abusam como um mero “desplante” para chegar às bancadas e ao público festivaleiro, pode e deve também ser utilizado como um efectivo recurso de lide e de verdadeiro toureio, adquirindo, por isso mesmo, muito mais verdade e emoção. Encerrou a sua actuação com um bom ferro de palmo e um par de bandarilhas, marca da casa, sendo-lhe concedidas duas voltas à arena, as quais, muito temo, tenham sido atribuídas mais por esse tal efeito estético do que pelo que constitui de instrumento de pureza para a lide.

A Ana Baptista, cavaleira de corte clássico e de poucas concessões às bancadas, calhou-lhe o único “Castro” da corrida, ao qual, efectivamente, muito pouco havia a fazer. Precioso de apresentação, comprido e com o peso perfeito, engatilhado e algo fechado de córnea foi a absoluta antítese do anterior, em termos de comportamento, manso e reservado em alto grau, tendo para oferecer apenas um par de meias “tarrascadas”, nunca investidas. Fica a recordação de um bom segundo comprido e da atitude pura e sincera que é apanágio desta cavaleira, tentando executar o toureio como mandam as regras, frente a um oponente que nunca o permitiu.

Outro interveniente que andou dentro dos moldes que nos tem habituado foi António Maria Brito Paes, artista de excelsa postura e monta, mas que demonstra muitas dificuldades em aplicá-la no “diálogo” com os toiros. Frente a um oponente mansito, mas com nobreza, permitiu a constante intervenção dos seus peões de brega, numa sucessão infinita e inexplicável de capotazos dentro da arena e avisos vindos da teia, que acabaram por gorar qualquer tentativa de ligação entre cavalo e toiro, precisamente o que o segundo pedia a gritos, face à sua condição distraída. O Director de Corrida entendeu por bem premiar o cavaleiro com volta à arena, mas este, com a habitual seriedade que também é de justiça reconhecer-lhe, entendeu ainda melhor não a dar.

Para o quarto toiro da função, com 520Kgs, bisco de córnea, um pouco alto e algo escorrido dos quartos traseiros, estava reservada aquela que foi, quanto a mim, a grande actuação da noite no que à lide a cavalo disse respeito e certamente uma das que irei recordar por muito tempo! O manso “Fernandes de Castro” apresentou um comportamento extremamente variável, com momentos endemoniados de poder e casta, a pedir um toureio (e um toureiro) de superior Inteligência e Coração, para depreender a cada momento o exacto tratamento a aplicar-lhe e teve-o num extraordinário Manuel Telles Bastos, que nos brindou com uma verdadeira lição do que é o toureio a cavalo à portuguesa, de lide e brega intencionais e assentes numa equitação pura, sem truques e espaventos e de sortes frontais, a entrar pelos toiros e a cravar de cima a baixo e ao estribo. Do atrás dito fica a quintessência de um segundo curto em que o toiro se arrancou de forma completamente extemporânea e, num palmo de terreno e numa fraccção de segundo, o cavaleiro deixou o ferro com o valor, os recursos e, ao mesmo tempo a naturalidade e o aparente “sem esforço” só reservados aos eleitos. Tourear é Compreender, para logo Dominar com Arte as investidas: Olé Manuel!

Jacobo Botero teve uma prestação inconstante, manifestada numa alternância entre uma postura mais séria de lide e de toureio e outra mais em plano de “rejoneador”. Ao primeiro conceito pertenceram uma boa e valorosa “porta-gaiola” e um excelente quarto ferro curto e ao segundo, as tentativas falhadas de violinos e uma brega por vezes acelerada e pouco intencional. É um cavaleiro jovem que espero que venha a progredir para uma maior e definitiva proximidade a essa primeira postura. O tempo o dirá… Nota negativa para a apresentação deste quinto “Fernandes de Castro”, volumoso, excessivamente badanudo, sem pescoço e muito pobre de cara, com “hechuras” mais de manso do que de toiro bravo.

Igualmente pobre de cara foi o último exemplar lidado, mas bastante mais apresentável na restante fisionomia, com um comportamento defensivo, carregando com intenções de manso após a cravagem dos ferros, frente ao qual esteve o jovem Luís Rouxinol Jr. em excelente plano, sobretudo no momento da cravagem dos ferros, com o primeiro (cite em curto, de curros para o meio da praça), terceiro, quarto e sétimo curtos a resultarem emocionantes, belos e com verdade. Tivesse desacelerado um pouco o ritmo da brega e impresso uma outra “toreria” nos momentos de preparação das sortes e estaríamos também a falar de um dos grandes triunfadores da noite. Fica a certeza que do pai herdou os bons ensinamentos da arte de bem lidar e cravar e a convicção que o “temple” virá com a idade e com a acalmia das ganas próprias da juventude (que neste momento fazem parte e, inclusivamente, se saúdam) e de quem ainda agora começou.

No capítulo dos homens da jaqueta das ramagens, sortes díspares para os dois Grupos em contenda, com os homens de Vila Franca a roçar a perfeição de caras e ajudas e os do Grupo da casa, em cabal demonstração de valor e determinação, mas menos acertados tecnicamente, enfrentando as adversidades mais com o coração do que com a razão.

Pelos Vilafranquenses abriu praça o forcado Rui Godinho, que mais uma vez fez gala das suas duas mais extraordinárias qualidades: a serenidade no cite e a forma excepcional como consente as investidas, temporizando as reuniões quase sempre no momento perfeito. “Meia pega feita” com a reunião imaculada e a aguentar os três primeiros fortes derrotes do toiro, ficou o restante a cargo de uma entrada no momento exacto do primeiro-ajuda Tiago Oliveira “Salsa”, recebendo o companheiro de lado, seguindo-se o André Arrojado que abafa um último derrote para cima, com os outros elementos a ajudarem no habitual bloco característico do Grupo de Vila Franca. O segundo solista deste Grupo foi o jovem Vasco Pereira, que já pega toiros como um veterano, independentemente da sua condição. Desta vez calhou-lhe um “Castro” que apenas lhe permitiu dar três passos, antes de se arrancar a todo o gás, entrando no momento da reunião com a cara extremamente humilhada, dificuldade resolvida com a técnica dos eleitos, dobrando-se na perfeição e quase fechando-se de mãos à altura dos joelhos, o que impediu que se “empranchasse” e sofresse toda a força do impacto nas pernas. O toiro entrou rapidíssimo e a fugir ao grupo e aí foi mais uma vez determinante a grande ajuda do André Arrojado, que aguentou a viagem junto às tábuas até à recuperação dos restantes companheiros. David Moreira fechou a noite dos rapazes de Vila Franca com uma pega ao segundo intento, após uma primeira tentativa em que o toiro derrotou para cima e logo tirou a cara para o lado, expulsando o forcado de imediato. Voltou à cara com serenidade e desta vez não houve “mangadas” laterais na viagem, sendo prontamente controlado pelas oportunas entradas do primeiro ajuda Diogo Duarte e do segundo Frederico Murta, secundados pelos restantes elementos. Uma excelente actuação do Grupo de Vila Franca, plena da sua habitual coesão nos ajudas e sabedoria dos forcados da cara.

Francisco Mascarenhas, Cabo do Grupo das Caldas, chamou a si a responsabilidade de inaugurar as intervenções dos seus comandados, frente a um adversário que, por manso e reservado durante a lide a cavalo, não se adivinhava nada fácil. Teve uma primeira tentativa irrepreensível, com o toiro a entrar e a derrotar forte e o forcado a aguentar o seu poder até ao momento em que um derrote lateral o tirou um pouco fora da cara, acabando por embater de lado no primeiro ajuda, o que acabou por o fazer sair da sorte, num puro momento de azar, sem responsabilidades para ninguém. Esteve novamente perfeito na segunda tentativa, inteligente no cite, esperando o momento exacto, para carregar com toda a convicção, de voz e batendo o pé como mandam as regras, recuando com temple e suportando mais uma vez toda a força e aspereza do toiro, realizando toda a viagem sem se descompor, o que permitiu as excelentes entradas do primeiro e de um dos segundos ajudas, que deram o corpo até à queda e do outro que ajudou soberbamente de lado, com o restante grupo a corresponder. Para o segundo toiro da noite, quarto da função, saltou o forcado António Cunha, para enfrentar o tal manso encastadíssimo que calhou em sorte a Manuel Telles Bastos e que, apesar da espectacular lide do cavaleiro, mantinha a sua condição, poderoso e desafiante. O forcado citou bastante antes de meia praça e o toiro arrancou-se que nem uma seta, não permitindo um único passo à frente de nenhum dos oito homens. Esteve muito inteligente e com valor António Cunha, que aguentou imóvel até ao último momento para recuar e procurar receber a investida no seio do grupo, suportando dois fortes derrotes e ajudado com muito valor por Duarte Palha, mas sendo os dois despejados já praticamente em tábuas, ficando a sensação que faltou uma entrada mais cedo e decidida dos restantes companheiros. Na segunda tentativa ganhou um pouco mais de terreno, com o primeiro ajuda igualmente mais subido, mas o segundo derrote após a reunião catapultou de imediato o Duarte Palha, a que se seguiu uma mangada para o lado e para baixo, o que, aliado à deficiente córnea do toiro, fez com que o caras não se conseguisse manter. A terceira e quarta tentativas, já com os primeiros elementos do grupo quase em bloco e os terceiros ajudas um pouco mais recuados, como era necessário face à violência da investida, foram bastante semelhantes, com o forcado já diminuído a não conseguir aguentar o suficiente na cara para que entrassem os companheiros mais recuados, já que os primeiros eram completamente desbaratados. Nesta quarta tentativa saíram lesionados o António Cunha e um dos segundos ajudas. Saiu à dobra Lourenço Palha, que conseguiu resolver este grande problema, a sesgo e à meia volta após mais duas tentativas. Para a última pega da corrida e da participação do Grupo da Caldas da Rainha saltou o forcado José Maria Abreu, o qual efectuou cinco tentativas, as três primeiras com o denominador comum de que o toiro colocava a cara ligeiramente de lado no momento da reunião e o forcado adiantava o joelho, o que provocava que fosse imediatamente despejado após os derrotes fortes, para cima e para o lado e as duas últimas, já com alguma dose de desorientação, com todo o grupo em bloco à meia volta e sem recuar, também a não serem concretizadas. Saltou para a dobra Francisco Kreye que consumou à sua segunda tentativa, da maneira possível.

E foi assim que saímos desta noite das Caldas, com a recordação e a falar daquilo que sempre devíamos falar no fim de qualquer corrida: dos Toiros, das suas dificuldades e qualidades, desde que alicerçadas na sua pujança e emoção e daqueles intervenientes capazes de o enfrentar e resolver com galhardia, arte e verdade. Que haja o TOIRO e que haja VERDADE em quem dele se põe diante é, no fundo, tudo o que pedimos! Nem sempre é simples e fácil, bem o sabemos, mas será que tem de ser assim tão raro e complicado?…

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