Ferros de Frente

Crónica

Decidi neste artigo escrever a minha opinião sobre diferentes abordagens daquele que considero ser o ponto alto e mais importante aspecto para o triunfo de uma lide equestre: a colocação dos curtos de frente!

Independentemente da importância do receber dos toiros para os deixar preparados “no ponto” para a lide (cada toiro deve ser “parado” de forma adequada) e, posteriormente, da espectacularidade dos desplantes, adornos, alardes e remate das sortes, penso que só podemos chamar uma actuação de um grande triunfo se houver verdade na colocação das bandarilhas, isto é, de frente e com emoção deverá ser o expoente máximo de uma grande actuação. Não vou considerar assim ferros de recurso como sesgos ou “à meia volta” para me debruçar apenas em três tipos de ferros: de frente sem engano, ao piton contrário e com batida ao piton contrário.

Para que executadas com esta espectacularidade e emoção máxima, creio que em comum todas estas sortes devem ser executadas com cavalos com uma índole muito toureira (valentia, capacidade de guerra e expressão) e muito boas bases de equitação que permitam colaboração total com o ginete e compreensão das ajudas.

De frente sem engano, o cavalo deve partir direito, numa linha recta definida entre o seu peito e o testuz do toiro saindo redondo o mais em cima possível recebendo o oponente na espádua para permitir cravar ao estribo. Nesta sorte não há qualquer engano, para resultar com emoção o cavalo tem de ter um grande coração (assim como cavaleiro) para não abrir o quarteio antes do tempo, assim como uma grande agilidade para conseguir “sacar-se em cima do toiro” sem ser tocado, visto que durante a trajectória o toiro nunca é enganado na direcção a investir. Teoricamente, é a de mais difícil execução para resultar num daqueles ferros que levantam a praça da bancada e que nos ficam na memória! Não são muitos os binómios que o atingem na perfeição, os que mais recordo são António Ribeiro Telles com “Gabarito” (quanto a mim o melhor) e posteriormente com “Mágico” e “Pintor”; Rui Salvador com “Importante” e mais recentemente Vítor Ribeiro com “Alcochete”.

Os ferros ao piton contrário, têm em comum com os de frente o manter sempre da mesma trajectória, mas diferem no apontar ao lado de dentro, isto é para lá do piton esquerdo do toiro, para sair igualmente pelo piton direito, transmitem ainda mais a sensação de “entrar pelo toiro adentro”, com ligeira diferença que toiro em vez de ir a direito é levado a fazer uma trajectória para o sentido oposto da saída do cavalo. Julgo haver mais cavalos e cavaleiros a conseguirem ir ao sítio da “verdade” com esta sorte. Dos que vi, o seu intérprete máximo foi João Salgueiro, com “Herói”, “Isco”, “Fuzileiro”, “Van Gogh” e “Zamorino”; e o seu mais fiel seguidor foi quanto a mim Pablo Hermoso de Mendoza com “Chicuelo”, “Chenel” e “Caviar”.

Na teoria o ferro com batida ao piton contrário seria o de mais fácil execução, mesmo tendo em conta que se tem de ensinar o cavalo a “bater”. Um dia à conversa com o Sr Eng José Samuel Lupi perguntei: “Tio, com o Sueste apontava ao piton contrário ou fazia uma batida?”, ao que me respondeu “ Ao princípio ia ao piton contrário, com o passar do tempo, o cavalo começou por si a dar uma “pancadinha”, o que o ajudava a ele e a mim também um bocadinho!”. Apesar de facilitar por levar o toiro ao engano, a batida ao piton contrário que se resume em arrancar direito e em cima do toiro, apoiado nas pernas, o cavalo rodar para o lado do piton esquerdo já em muito curtas distâncias, mudando a trajectória do toiro para depois sair igualmente pelo piton direito, houve cavaleiros e cavalos que o fizeram de uma forma tão cingida saindo da batida tão perto da cara dos toiros que acho que a teoria do facilitismo fica por terra aquando destes casos. Os melhores intérpretes que vi foram o Distinto (o da coudelaria Freire) primeiro com Rui Hipólito (em estilo “kamikase”, cheguei a ver o cavalo a fazer duas batidas encostado às tábuas com o toiro a vir) e posteriormente quando adquirido por Paulo Caetano, igualmente cingidos, mas com mais domínio da sorte; Rui Fernandes com o “Damasco” e o “Fado”; e por último Diego Ventura com o outro “Distinto” e com a égua “Milagro”.

Qualquer uma das três sortes devem ter em comum os cavalos saírem redondos na cara dos toiros, quanto mais em cima, mais emoção trazem, recebendo, por fim, o toiro na espádua para o embroque perfeito, permitindo ao cavaleiro cravar ao estribo!

O toureio enquanto Arte, é passível de várias interpretações dos seus admiradores, eu não tenho impor a minha a ninguém, só manifesto a minha maneira de o sentir! Como defendi anteriormente, não estou preso a nenhum estilo ou linha toureira, estou sim à verdade, estética e emoção das lides, assim sendo considero que só com ferros de frente e com verdade consigo sentir esta Arte na sua plenitude!

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