Enquanto cai a chuva

Crónica

Talvez um dia, quando das praças apenas reste o ressoar da chuva, o soprar do vento e o romper da erva, nos assome a saudade do que hoje lamentamos. Talvez, quando já não nos doam as costas dos joelhos atrás, nem o rabo, do cimento em baixo. Quando o sol já não nos queime a testa e o suor não escorra pela cara. Nem nos gele o frio do fim da tarde quando o verão decide ir-se embora com o sol e a camisola repousa distante, no banco de trás de um carro.

Ainda nos vão faltar as queijadas, que mesmo sem aparente interesse, comemos num rito de pipocas no cinema. E os vendedores, estacionandos à nossa frente no melhor ferro da corrida, contando moedas pretas, e nós, como que tirando linhas de fora de jogo, inclinados para a esquerda, tentando não perder a cara ao toiro.

Talvez um dia, quando os últimos dos bravos repousem em cima de uma lareira, com a mirada fixa no infinito, nos façam falta as cilhas passadas, as trapadas e as pegas de sesgoE as gamarras, os cabos d’aço, as barrigas em sangue. E os ferros caídos, aliviados e no chão. E que nostalgia vamos ter dos toiros coxos, dos mal-vistos e dos magros.

E quando um dia, na charneca, só crescer a tremocilha ainda nos vão fazer falta os amigos. Os de porta de sector e os que, na escada, aguardam uma nesga de bancada em tardes de “no hay bilhetes”. Ou os que, no bar, aguardam uma nesga de balcão em tardes de “no hay mañana“. Os de tertúlias por noites dentro e os de digressões pelo país fora. E que falta nos farão os amigos de longe, que só os toiros juntam, de tempo a tempo.

Se o mundo dos toiros é um poço de defeitos, é também um poço de amizades. Não fosse este mundo de defeitos, e como é que a vida me traria tantos amigos de tantas partes? Corre-me a memória para o Paiva, o nosso Doc, meu colega neste site. Um anestesista de Coimbra que tem tanto de médico como de poeta, mesmo sem querer. Ou o Mira, o nosso CEO, deste mesmo “espaço”, crescido nos campos de Arraiolos, com um nervoso miudinho tão desmedido como a afición..

De Fátima chegou-me o Carreira, com muito mais fé nos amigos do que na Virgem. De Évora o Marcos, com doses semelhantes de graça e manias. O inigualável Zenkl, de Santarém, com uma “maldade” que me enche a alma e de “aqui”, da minha terra, o Sr Marinho  d”Os Faias”, ou o “Visconde”, o homem mais simpático do mundo.

E sem o grupo, o meu Grupo das Caldas, como teria eu a sorte de encontrar, de Cascais, a loucura sensata do Kreye e a amizade que se vai descobrindo cada vez mais funda do Miranda. A graça pura e magreza extrema do “Terminal”, de Setúbal, e a dinâmica sem limites do Neto, de Mirandela. Ou da cidade “Mãe” do Grupo, os exemplos de vida e bondade, como o Marco e o Fred “Cigano”.

E aqueles que não chegaram pelos toiros, mas que por eles foram ficando mais tempo e mais próximos . O Cunha, maior companheiro de vida, o Calejo meu verdadeiro irmão de quem, às vezes, até tenho saudades, ou o “Doutor” Teixeira, que nem imagina o que gosto que seja meu amigo.

E isto são só alguns, como exemplos que representam todos. Os que ficam de lado, somente ficam porque os dedos não me correm ao mesmo ritmo que bate o coração. Só a este “mundo podre” dos toiros eu posso agradecer tamanhas amizades. Talvez um dia vejamos que nem tudo é tão podre assim. Talvez um dia, quando das praças apenas reste o ressoar da chuva, as memórias e os amigos.

Duarte Palha

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