A frequência com que se fala das gerações passadas parece muitas vezes distorcida. Estes relatos descrevem uma realidade em que a emoção não tinha lugar. Não se tratava de uma dureza quase voluntária, mas de uma forma de viver enraizada. Crescíamos rapidamente, mergulhados numa infância desprovida de apoio, sem nos apercebermos que esse apoio poderia ser solicitado. As feridas, sejam físicas ou emocionais, eram frequentemente minimizadas, e desde cedo aprendíamos a enfrentar a vida sozinhos.
Recordo crianças que, ao cair e se magoar a brincar, voltavam para casa com os joelhos ou os braços esfolados. A reação habitual era simples: limpar e tratar rapidamente a ferida, e retomar a rotina. Não havia grandes palavras de encorajamento, nem sempre um abraço reconfortante, mas uma continuidade inquestionável na vida.
Globalmente, a forma era aceitar e seguir em frente. Porque naqueles tempos, o pensamento predominante era que era preciso avançar, custasse o que custasse.
Esta questão gera muitas vezes confusão quando falamos da chamada geração “dura”. Não se trata de comparações ou de vanglórias, mas sim de descrever uma época em que se aprendia a continuar, sem dar muita atenção ao que se sentia.
Quando se cresce sem apoio, ninguém vem para o resgate

Na infância de outrora, não existia realmente um colchão de segurança. Não apenas a nível material, mas em todos os outros aspetos.
Sofres de bullying escolar? Havia que se arranjar. Um professor gritava contigo de forma injusta? Era preciso aguentar. Um colega maior e mais forte tornava-se no teu alvo no bairro? Havia que aprender a evitar o problema, a correr mais rápido ou a defender-se.
Os adultos não eram necessariamente indiferentes, mas viviam numa época em que a autonomia das crianças era a norma. As reclamações eram frequentemente recebidas com frases como “seja corajoso” ou “arranja-te”. Não se tratava de crueldade, mas de uma forma com que as gerações anteriores foram criadas.
Não havia conselheiros escolares a cuidar do bem-estar dos alunos. Poucas medidas existiam para enfrentar o bullying. A intervenção de adultos raramente acontecia, exceto em casos mais graves. Mesmo nessas situações, a ênfase muitas vezes recaía sobre a resolução do problema em si, mais do que no acompanhamento da dor sentida.
Estudos sobre regulação emocional indicam que as crianças aprendem, desde muito novas, o que “têm o direito” de sentir e expressar, consoante o ambiente em que estão inseridas.
Desde cedo, compreendia-se que as lágrimas não mudavam nada. Queixar-se era visto como sinal de fraqueza. Era, portanto, necessário calar e seguir em frente.
As emoções como um luxo inatingível
Em muitos lares, falar sobre emoções não era encorajado. As figuras parentais estavam ocupadas em rotinas simples: trabalho, casa, refeições, sono. Os estados interiores permaneciam invisíveis e raramente eram expressos.
As revisões na psicologia familiar demonstram que os modelos parentais influenciam profundamente a forma como as emoções são aprendidas e reencenadas.
Até mesmo em momentos de luto ou dificuldades, a contenção era regra
A vida prosseguia, as obrigações prevaleciam e as emoções ficavam em segundo plano. As crianças cresciam num ambiente onde os sentimentos eram pouco verbalizados.
Eventos difíceis como separações, lutos, insucessos escolares, exclusões ou desgostos eram frequentemente vividos em silêncio. Não havia necessariamente espaço para a sua expressão.
Dessa forma, a gestão emocional não era cultivada, mas sim ignorada. Com o tempo, isso poderia dificultar a expressão do que se sente, como se pertencesse a uma língua que jamais tinha sido realmente aprendida.
O preço de “resistir”

Esta forma de crescer podia resultar em adultos habituados a enfrentar tudo sozinhos. Pesquisas indicam que as estratégias de adaptação aprendidas na infância podem persistir até à idade adulta, especialmente no que toca à dificuldade em pedir ajuda ou expor vulnerabilidade. Pedir ajuda torna-se difícil, e mostrar fragilidade pode ser percebido como arriscado ou supérfluo.
Por vezes, esta postura passava de forma involuntária, refletindo-se nas relações com as gerações mais jovens. O reflexo poderia ser minimizar as emoções, procurar uma solução imediata em vez de ouvir.
Com o tempo, uma nova consciência podia surgir: os contextos mudaram, e as crianças de hoje não têm as mesmas necessidades nem referências.
Onde a resistência antes era valorizada, hoje o reconhecimento e a expressão das emoções são considerados essenciais.
Por que defendemos, afinal, essa infância sem apoio?
Então, por que se defende essa infância sem apoio? Por que insistimos em ter sido mais fortes?
Sêmos francos. Não se trata necessariamente de pensar que era melhor no passado. Muitos reconhecem que isso deixou marcas profundas, às vezes ainda difíceis de entender ou de expressar. Pode mesmo ocorrer que certos indivíduos só mais tarde se apercebam do que lhes faltou a nível afetivo.
Defendemos esta época de uma infância sem apoio porque era a norma. Quando falamos de “força”, não se trata necessariamente de orgulho. Muitas vezes, é uma tentativa de dar sentido a uma infância onde a distância era comum, as demonstrações de carinho eram raras e as emoções pouco expressas.
Phrases simples como “estou bem” não refletiam sempre um estado real, mas serviam frequentemente como resposta esperada, uma maneira de evitar aprofundar o que se sentia.
Com o tempo, sabemos que esta forma de agir era mais um hábito coletivo do que uma escolha consciente. As emoções eram muitas vezes deixadas de lado, por vezes em nome da resistência ou da continuidade.
Grande parte dessa geração aprendeu a avançar intimamente mas, esta “força” teve um custo, perceptível muitos anos depois.
Chamá-la apenas de caráter pode também ser uma forma de evitar questionar o que foi vivido.
Uma última reflexão sobre quem teve uma infância sem apoio

Retomar estes temas mais tarde na vida é sempre complexo.
Quantos cresceram com a ideia de que as emoções deveriam permanecer privadas ou até mesmo silenciadas? Mudar esta percepção requer tempo e uma profunda reflexão.
Estudos demonstram que as crenças sobre as emoções e a sua expressão são profundamente enraizadas desde a infância e podem permanecer estáveis durante décadas.
A pergunta que se coloca é a seguinte: quando se insiste em que se foi a geração mais “dura”, trata-se de um verdadeiro olhar crítico, ou apenas de uma forma mais aceitável de narrar o que foi vivido?
Porque por detrás da noção de “força” também pode esconder-se uma antiga habitude: não se detiver nos próprios sentimentos.
A pergunta permanece em aberto.




