Destaque para Miguel Moura na 2ª do Centenário, em Sobral de Monte Agraço

Crónica

Foi na soalheira mas já “pré-outonal” tarde deste domingo 19 de setembro de 2021 que a velhinha mas algo cuidada praça de toiros do Sobral de Monte Agraço recebeu a segunda corrida dos festejos criados para celebrar o seu centenário, com uma bela “casa” a roçar os limites da lotação permitida. O natural entusiasmo pela “Festa dos Toiros” que nutrem as muito aficionadas gentes desta zona oeste interior do país teve oportunidade de presenciar uma corrida capaz de abranger vários estilos e gostos, já que contou com a atuação de 6 cavaleiros: João Moura, Rui Salvador, Ana Batista, Duarte Pinto, Miguel Moura e Duarte Gomes, num cartel rematado pelos Grupos de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira (capitaneado por Vasco Pereira) e de Beja (capitaneado por Miguel Sampaio) que se enfrentaram com um curro oriundo da ganadaria Lopes Branco.

Em jeito de resumo curto, Miguel Moura acabou como triunfador da tarde, os toiros (todos com 5 anos cumpridos), escassos de força e pouco rematados, não transmitiram na generalidade mas também não complicaram lides nem pegas, onde se deram a conhecer novos valores emergentes de ambos os Grupos em praça.

Abriu praça João Moura perante um negro malhado em branco com 490 Kg (toiros com pesos estimados) que deixou muito a desejar quanto a trapio e condições físicas, já que foi ao solo logo após levar o 1º comprido. Sem matéria prima que criasse grande entusiasmo, toda a lide foi levada numa tentativa de poupar o toiro para o ferro seguinte, mas sempre com cravagens corretas.

A Rui Salvador, calhou-lhe em sorte um toiro preto de 480 Kg “baixel” e sem cara. Foi uma lide bastante correta, soube criar e manter distâncias mais em curto adequadas para manter a necessária ligação ao toiro que a rasgos ia dando oportunidade de o cavaleiro se recrear nalguma brega adaptada às condições de lide do oponente e sempre com correção na cravagem. No geral, esteve em bom plano nesta tarde.

A cavaleira Ana Batista teve por diante um negro bragado de 490 Kg com cara mas também bastante escasso de força, apesar de algo voluntarioso. Com alguns problemas a quebrar os compridos, passou sem história aos curtos onde já conseguiu uma brega cumpridora e colocações e cravagens a alternar o bom com o menos conseguido, mas criando alguma animação no público.

Duarte Pinto abriu a segunda metade desta corrida frente a um toiro castanho mourisco de 465 Kg, com cara mas deixando algo a desejar no que toca a força. Também lidou sempre numa tentativa de se ligar em curto ao oponente, única maneira de manter alguma linha de lide frente a este toiro que se desligava quando eram dadas distâncias. Alguns deslizes com cravagens falhadas não deslustraram totalmente uma lide mediana que teve o ponto alto na cravagem do 3º curto.

O jovem Miguel Moura recebeu o 5º toiro, castanho mourisco com 450 Kg de cara fechada e a dar para o acabanado, com um ferro à “porta da gaiola” que de imediato entusiasmou o conclave. Adotou desde logo uma brega também ela a ajudar à ligação necessária, a recrear-se em curto e a expor a garupa ao toiro que esteve sempre muito voluntarioso e atrevo-me a dizer que terá sido o que melhor condição de lide apresentou. As cravagens foram sempre muito bem preparadas e com ferros de qualidade ao estribo, seja em sortes frontais ou com viagem pelo piton contrário. Rematou a lide com 2 bons palmitos e abandonou a arena sob forte ovação e com um saboroso triunfo praticamente garantido.

Para encerrar o espetáculo, David Gomes, cavaleiro fortemente ligado a esta zona do país teve de enfrentar o toiro mais volumoso da corrida, 520 Kg de peso estimado, um preto alto com cara mas pouco rematado e a demonstrar desde cedo alguns problemas físicos na mão direita e quartos traseiros. Também manteve uma boa ligação ao toiro em toda a lide, com uma brega, colocações e cravagens a roçar o positivo, mas nunca deslumbrando e sempre limitado pelas debilidades do oponente. Encerrou-se com um violino e dois palmitos e aproveitou para entre voltas de agradecimento e desplantes na cara do toiro, exagerar um pouco na sua saída da arena.

Os Grupos de forcados amadores de Vila Franca de Xira e de Beja tiveram uma tarde em que aproveitaram para dar “toiro” a jovens forcados em inicio de carreira, algo que nestes tempos de poucas atuações, a maioria delas em corridas que pelo nível de exigência não o permitem e com fases de renovação em curso, mesmo sendo imprescindível acaba por não ser fácil de agendar.

O Grupo de Vila Franca de Xira alternou duas pegas à 1ª tentativa com uma pega à 2ª tentativa:

João Valença

Jovem forcado em tarde de estreia, pegou à 1ª tentativa com correção e bons detalhes a citar, carregar, recuar e a receber, fechando-se bem num toiro que foi parado já perto das tábuas, depois de bem ajudado pelo Grupo.

Diogo Conde

Num toiro que na 1ª tentativa saiu solto e onde não conseguiu fixar a investida, saiu vencido após uma reunião irregular. Na 2ª tentativa já de modo mais pausado, esteve tecnicamente bem a mandar, a receber e fechar-se, tendo contado com uma “mão” oportuna do jovem Rodrigo Dotti, numa primeira ajuda eficaz, num momento em que o toiro tentava fugir à formação do Grupo.

Rodrigo Andrade

Em mais uma estreia em praça pelo Grupo de Amadores brindou ao “forcado da casa”, Carlos Silva (Carlos do Sobral), e isso foi talismã para arrancar uma das pegas da tarde à 1ª tentativa. Cite correto, mandou no toiro, templou e recebeu com perfeição uma investida com reunião forte e uma viagem a sacudir, mas não o suficiente para derrotar o forcado da cara que vinha bem trancado e a encher a cara ao astado, até culminar com uma entrada coesa de todo o Grupo. Remate artístico para o modo como o Carlos Silva rebejou este toiro, respondendo assim ao carinho e ovação unânime com que a “sua” praça o brindou nesta tarde.

O Grupo de Beja consumou duas pegas à 3ª tentativa e culminou a sua atuação com uma pega à 1ª tentativa:

António Aleixo e Nuno Vitória (cernelha)

Para um toiro sem cara acabou por ser uma primeira opção perfeitamente aceitável tentar a cernelha. A parelha esteve decidida sempre que “inventou” alguma oportunidade para entrar ao toiro. Nas 2 entradas iniciais faltou conseguir que o toiro se virasse para o lado correto (o lado do cernelheiro), sendo que na 2ª tentativa talvez um “puxão” decisivo do rabejador resolvesse essa questão. Na 3ª entrada, o toiro foi vencido sem dar grande luta à parelha de cernelheiros. Aplaude-se a grande decisão nas 3 entradas ao toiro “descoberto” corrigindo a incapacidade de os campinos colocarem o toiro no meio dos cabrestos, algo que tem sido recorrente nas nossas arenas e que resulta sobretudo da latente ausência de “afinidade” entre os toiros e cabrestos intervenientes nessa corrida.

Pedro Fernandes

Sofreu na pele algumas “dores de crescimento” perfeitamente naturais e desculpáveis para um jovem a iniciar-se como forcado, resolveu com brio à 3ª tentativa, bem ajudado, uma pega que valeu sobretudo pela atitude de nunca virar a cara à luta.

Manuel Maria Vicente

O forcado da cara citou e mandou na investida com bastante acerto, sendo que o toiro no último momento acabou por reuniu alto, obrigando o forcado a emendar esta reunião inesperada, o que conseguiu com sucesso já que mesmo “pendurado” nunca perdeu a cara ao toiro. Foi lutando contra esta adversidade que o forcado foi “subindo” pelo toiro enquanto os ajudas procuravam evitar a tentativa de este fugir completamente ao Grupo ao mesmo tempo que tentavam compor o forcado da cara, consumando-se assim à 1ª tentativa uma pega que criou um grau de dificuldade considerável.

Outros destaques:

No início da corrida, a empresa, por intermédio do empresário José Luis Gomes presenteou os artistas intervenientes (cavaleiros e cabos dos Grupos de forcados) e o representante da ganadaria com a oferta de uma pequena lembrança alusiva ao Centenário da praça de toiros do Sobral de Monte Agraço.

A direção de corrida, autorizou todos os intervenientes nas lides (cavaleiros e forcados) a agradecer/volta no final das suas lides e pegas.

No final do 5º toiro o publico presente “exigiu” a presença do forcado Carlos Silva nos agradecimentos/voltas (houve uma segunda chamada) juntamente com o cavaleiro e o forcado da cara.

Após a lide do último toiro, a representante da ganadaria juntou-se a cavaleiro e forcado da cara para receber a ovação do agradecimento/volta final. Foi também anunciado pela empresa a repetição desta ganadaria na próxima temporada.

Num espetáculo que decorreu em bom ritmo, atuou a Banda da Sociedade Filarmónica Olhalvense, tendo a corrida contado com o apoio do cornetim José Henrique, a assessoria veterinária do Dr. Jorge Moreira da Silva e a direção de José Soares.

Imagem de destaque não corresponde à corrida em questão

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