Depois de décadas de dedicação total, existe na aposentadoria uma forma de solidão que traz renovação

Na vida, existem momentos em que tudo parece acelerar. Corremos sem razão aparente, sobrecarregados por obrigações. Esquecemos de respirar, parar e observar o mundo à nossa volta. Os dias passam, todos semelhantes, preenchidos de responsabilidades e papéis a cumprir. Tornamo-nos especialistas na organização, pilares das nossas relações. Porém, em algum momento, surge a interrogativa: e eu, onde estou nesta história?

Ninguém nos prepara para o silêncio. Passamos anos a cuidar de filhos, a dar conta de um trabalho que estrutura o nosso tempo, a moldar a nossa identidade e a definir o nosso valor. Ser o parceiro que pensa em tudo, o colega que dá suporte, o amigo que organiza encontros, o pai que acompanha os filhos, o irmão ou irmã que se lembra de todos os aniversários, o vizinho que saúda educadamente.

Então, de repente, os filhos vão embora.

A carreira chega ao fim, as obrigações diminuem e a casa recupera o seu sossego. Os outros olham para você, sozinho neste silêncio, e pensam: que tristeza. No entanto, o que aprendi, após anos a estudar psicologia e filosofia e observando os meus próximos passando por essa fase, é que a solidão, vista de fora, muitas vezes é muito diferente da realidade interior.

Para muitos, especialmente aqueles que dedicaram décadas a cuidar dos outros, a solidão na reforma não é um vazio, mas sim um reencontro. Não se perde nada; recupera-se algo que estava esquecido. É um momento de reconexão consigo mesmo, com as suas paixões, com o que realmente faz vibrar a sua vida. A solidão transforma-se assim num período de paz e renovação.

Distinção entre solidão e isolamento

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A psicologia sempre enfatizou essa diferença, embora a cultura popular frequentemente a ignore.

A solidão é uma experiência subjetiva de sofrimento proveniente do sentimento de que as nossas relações são insuficientes. O isolamento, por sua vez, refere-se simplesmente ao ato de estar sozinho. Uma é dolorosa; a outra é neutra e, em certas condições, profundamente benéfica.

Um estudo abrangente publicado na revista Frontiers in Psychology investigou os benefícios da solidão em três grupos etários: adolescentes, adultos de meia idade e idosos acima de sessenta e cinco anos. Os pesquisadores descobriram que os idosos se sentiam mais em paz na solidão do que os outros grupos.

Além disso, eles descreveram seus momentos de solidão e os passados em companhia de outros como estados distintos, sugerindo que desenvolveram uma fronteira interna mais clara entre os dois.

Em outras palavras, os idosos sabem fazer a diferença entre solidão e isolamento. Eles compreendem a nuance. Graças à sua experiência com as convenções sociais, aceitam que a solidão é uma escolha e não uma fatalidade, e esta escolha traz uma serenidade que os mais jovens ainda estão a descobrir.

Uma habilidade que ninguém ensinou a valorizar

Uma descoberta que me surpreendeu ao aprofundar a pesquisa foi que a capacidade de apreciar a solidão não é meramente uma característica pessoal, mas sim uma competência. E, como qualquer competência, pode ser desenvolvida, praticada e aperfeiçoada.

Uma pesquisa publicada na revista Behavioral Sciences investigou o que os autores chamam de “aptidão para a solidão positiva” em adultos acima dos cinquenta anos. Os resultados mostraram que aqueles que desenvolveram essa aptidão reportam um nível de bem-estar e realização significativamente maior.

A solidão positiva modula a relação entre as forças de caráter e a satisfação geral com a vida. Ou seja, as pessoas que conseguem apreciar a solidão serenamente estão mais aptas a utilizar os seus outros recursos psicológicos.

Os pesquisadores conectaram essa descoberta aos trabalhos do psicanalista Donald Winnicott, que já defendia em 1958 que a capacidade de estar sozinho é um dos mais importantes sinais de maturidade emocional. Winnicott destacou que essa capacidade de se sentir confortável na solidão não é oposta à habilidade de estabelecer laços com os outros, mas a complementa. Aqueles que se sentem bem sozinhos geralmente se sentem mais à vontade nas suas interações sociais, pois não utilizam essas interações como uma fuga de si mesmos.

Isso muda completamente a percepção da solidão na reforma. Aqueles que apreciam a solidão não são pessoas que negligenciam relações, mas sim aquelas que desenvolveram uma força interior que muitos jovens ainda carecem.

Aprender a valorizar a solidão, uma competência desconhecida

É importante abordar um tema frequentemente negligenciado nas pesquisas, mas que é evidente para quem observa um pai ou avô a entrar na reforma.

Ser tudo para todos durante trinta ou quarenta anos é exaustivo de uma forma que só se revela após a paragem.

A mãe que geriu a casa, a carreira e a vida emocional dos filhos durante vinte anos não teve tempo de perceber a sua fadiga. O pai que trabalhava cinquenta horas por semana e treinava uma equipa de rugby aos sábados não se deu conta do que estava a negligenciar. O profissional que dedicou a vida a ajudar os outros, como professores ou enfermeiros, não contabilizou o custo acumulado de ser o suporte de todos.

Então, chega a reforma. E o silêncio entra. Pela primeira vez em décadas, ninguém precisa deles.

O que acontece? Eles não preenchem imediatamente esse espaço com novas atividades ou encontros sociais. Em vez disso, instalam-se nesse sossego. Ler um livro sem olhar para o relógio. Caminhar sem um destino certo. Passar uma tarde a não fazer nada e, pela primeira vez em muito tempo, sentir uma paz que mal conseguem expressar.

Não se trata de depressão. É a cura. É o equivalente psicológico a um maratonista que se senta após cruzar a linha de chegada. Esse silêncio não é um sinal de falha; é o que acontece quando alguém finalmente se liberta de um peso.

Por que confundimos solidão e problema?

A nossa sociedade tem um grande ponto cego em relação à reforma e à solidão. Criámos um discurso em torno dos perigos do isolamento nas pessoas idosas, e esse discurso tem fundamentação. A solidão crónica é realmente prejudicial, e as consequências de um isolamento social prolongado para a saúde são bem documentadas e sérias.

No entanto, estamos tão obcecados pelos riscos da solidão que começamos a ver qualquer forma de solidão como um sinal de alerta. Assim que vemos uma pessoa reformada passar tempo sozinha, preocupamo-nos imediatamente e encorajamos à participação em atividades e a compromissos comunitários, tratando o silêncio como um problema a ser resolvido.

Para algumas pessoas, isso é realmente necessário. A solidão verdadeira na reforma existe e merece ser considerada.

Mas para muitos outros, especialmente aqueles que dedicaram suas vidas profissionais a ocupações exigentes em cuidados e serviços, a solidão da reforma é algo muito diferente. Não é a ausência de conexão social, mas a presença de algo que lhes foi negado por décadas: tempo livre, sem obrigações, que lhes pertence inteiramente.

Tentar preencher esse tempo com atividades sociais obrigatórias não só é inútil, como contraproducente. Isso lhes rouba a única vantagem que a reforma finalmente lhes ofereceu: a autonomia sobre a sua agenda, substituída por uma nova série de obrigações apresentadas como enriquecimento pessoal.

O que a filosofia nos ensina sobre reforma e solidão

A filosofia estóica reconhece, desde a Antiguidade, o valor dos períodos de retiro e reflexão. Os estóicos frequentemente falavam da essencialidade de se afastar do ruído do mundo para compreender melhor a própria vida e cultivar a sabedoria.

Nesta perspectiva, existe um conceito semelhante ao da equanimidade: o autocontrole e a aceitação dos eventos como eles se apresentam, sem se deixar levar pelos prazeres ou descontentamentos. Trata-se de uma paz interior estável que não depende das circunstâncias externas.

Acredito que a melhor forma de solidão na reforma assemelha-se muito a esse estado estóico. Não é uma alegria exuberante, nem uma tristeza.

É serenidade. É o sentimento de alguém que viveu plenamente, criou filhos, construiu uma carreira, manteve relações e que pode finalmente deixar de provar a sua legitimidade.

Essa serenidade é a recompensa por décadas de presença. Exige espaço. Exige calma. E requer precisamente o tipo de solidão que aqueles bem-intencionados e de fora frequentemente tentam perturbar.

O que realmente se deve saber sobre a solidão dos reformados

Se um ente querido se encontra na reforma e parece apreciar a solidão mais do que imaginávamos, pode ser que ele não esteja a sofrer. É possível que esteja a recuperar de uma vida passada a ser indispensável, e que a paz que encontra na sua própria companhia seja um benefício que mereceu, e não um mero acaso.

Questione-os sobre como se sentem. Não presuma saber. E se disserem que estão felizes, acredite. A capacidade de estar verdadeiramente à vontade na própria companhia, após décadas a viver para os outros, não é um sinal de declínio. É uma das mais elevadas formas de maturidade psicológica que se pode manifestar.

Sobre temas como serenidade, desapego e a diferença entre solidão e isolamento, inicialmente, observava-os através do olhar de alguém jovem. Hoje, ao ver os meus próximos finalmente a encontrarem-se na serenidade da velhice, compreendo-os de uma forma muito mais pessoal.

A ideia de um ego minimizado não implica se diminuir. Trata-se de não ter mais necessidade de provar nada a ninguém, nem mesmo a si mesmo.

Não é solidão. É a linha de chegada.

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