Da minha Terra vê-se o Mundo…

Crónica

Nasci embalado pelo arrulhar das águas do Tejo e intuindo a força e a majestade dos vultos negros que se entreviam do outro lado da margem, eterna promessa de feitos heróicos para aqueles que se atrevessem a enfrentá-los. Já não me recordo da primeira vez que os vi ao vivo, ou, pelo menos, daquilo que então senti, mas dizem-me que o meu primeiro Colete Encarnado foi vivido ao colo dos meus pais com apenas cinco meses. Tão pouco me lembro da primeira Corrida, o primeiro ferro ao estribo e de poder a poder, a primeira “verónica” ou o impacto da primeira pega… E isto são questões que, no fundo, pouco interessam…

Porque acredito que hoje, como então, estremeço no mais fundo, quando sinto o tropel, de cavalos, toiros e cabrestos passando a toda a brida pelas ruas da Vila, levando um cheiro do campo à cidade que fica a pairar nas nossas mentes e corações até ao próximo Colete Encarnado ou Feira de Outubro. Porque sei que a emoção e o orgulho de assistir a uma pega do “meu” Grupo de sempre e para sempre (este ano a comemorar a bonita idade de 85 Anos!) são tão fortes e indescritíveis hoje, como o foram no passado e o serão, sem qualquer sombra de dúvida, no futuro. Porque me continua a comover até às entranhas o mais belo e trágico bailado alguma vez inventado pelo Homem, o toureio a pé, a derradeira e suprema forma de Arte. Porque me encho de garbo e bairrismo quando defendo a identidade e sensibilidade muito próprias da nossa “Palha Blanco”, irredutível bastião de sérios e exigentes aficionados e, simultaneamente, a mais generosa e emotiva afición, a par, talvez, com a da Real Maestranza sevilhana. E não, não me parece exagerado que ainda possamos fazer gala do nosso epíteto de “Sevilha Portuguesa”…

Cresci a ouvir histórias e feitos de Toiros e Toureiros, Campinos, Forcados e Cavaleiros, aprendendo com elas, em primeiro lugar, o respeito, o temor e admiração por essa nossa figura de Culto e Devoção que é o Toiro Bravo e em segundo, os valores de Honra, Coragem e Superação presentes em todos aqueles que o enfrentam. Logo fui ao campo e aprendi da Paixão, da Sabedoria, da Arte e do “temple” (ou do tempo, como preferirem) que são necessários para o criar e acarinhar, esperando cumprir o destino que lhe vai impresso na genética, a luta de um bravo até às derradeiras forças. Compreendi então que o objectivo último de o confrontar cara a cara não é mais do que um acto de Amor, em que tentamos corresponder na mesma medida às qualidades que ele tão generosamente nos entrega: Bravura, Nobreza, Honestidade…

Orgulho-me da minha Terra, que teima em lutar pela conservação destes valores, cujos ecos ainda nos vêm sussurrados do outro lado do Tejo ou nos surgem em toda a sua pujança, nos nossos dias de Festas maiores, com as largadas de toiros pelas ruas ou com as lides e pegas na nossa velhinha e castiça Praça. Vila Franca de Xira, ainda e sempre ciosa da sua Identidade e dos ensinamentos que lhe são intrínsecos…

Nesta oportunidade de colaboração com a “Tauronews”, pela qual muito agradeço ao Francisco Mira, ainda muito me hão-de ouvir falar sobre a “Rainha do Ribatejo”.

É que sabem, da minha Terra vê-se o (meu) Mundo!

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