Curro sem jogo para os espadas

Corrida de Toiros dia 26 de Junho

Ao início da noite de terça-feira, com alguns minutos de atraso, e com uma casa com mais de ¾, realizou-se a já tradicional corrida de toureio a pé montada nos cartéis das Sanjoaninas. Tempo sereno e convidativo, ideal para os aficionados rumarem à Monumental de Angra, e assim fizeram, na esperança de assistir a algum “recital”, muito centrados no valor da figura principal, um tal de Roca Rey, que só é desconhecido para quem está offline do universo taurino.

Do cartel faziam parte os matadores de toiros Daniel Luque, Tomás Campos e Andrés Roca Rey, acompanhados pelas suas quadrilhas. Da Caldeira Guilherme Moniz, um curro de Rego Botelho, no geral com boa apresentação, mas quanto ao comportamento, escassos de bravura e notória falta de qualidade na investida. Já lá vamos.

Daniel Luque, a comemorar 10 anos de confirmação da alternativa, regressava à Terceira com ilusão de firmar a sua classe, mas desde cedo percebeu que não teria tarefa fácil frente ao seu primeiro do lote, o n.º 98 de Rego Botelho. Tanto com o capote como com a muleta, não conseguiu brilhar, muito por culpa do oponente que se distraía, entrava brusco na flanela e metia a cara por alto. Juan Contrera, da quadrilha de Daniel Luque, foi colhido ao colocar as bandarilhas, felizmente não passou de um susto. No início da faena, o matador sevilhano levou o toiro para os médios, e começou com a mão esquerda ao natural. Luque empenhou-se, tentou com a mão direita, mas pouco havia a fazer, com o toiro a rachar ao fim de 4 ou 5 séries.

Com o número 12 no costado, saiu à arena o “Heladoria”, toiro a ser lidado por Tomás Campos, que procurou sem medo impor-se entre os colegas de cartel. Com o capote, recebeu por verónicas mas sem grande fulgor. Bandarilhou o terceirense João Pedro Silva, colocando um primeiro par de categoria. Com a muleta, Campos percebeu que o toiro oferecia mais pelo pitón direito, e realizou a faena principalmente por derechazos, ouvindo olés das bancadas, perante um brocho que conseguiu dar mais jogo que o primeiro. Depois de simulada a estocada, saiu da trincheira e recebeu ovação.

Ao terceiro toiro da ordem, eis que entrou em acção um toureiro que é “Rey”, não só de nome, mas que por onde passa tem deixado a sua marca, falamos de um novo messias. Infelizmente, por terras açorianas ficou a marcar passo. Frente ao “Ansioso”, que fez jus ao nome, pouco se viu Roca Rey com o capote, o oponente com linhas desajustadas deu pouco jogo, vindo-se a verificar na muleta, com o toiro a querer desligar de uma desejada simbiose. Destaque para a segunda série nos médios, com a mão direita e a terminar com um passe de peito. Volta à arena forçada para o matador peruano.

Ficava a expectativa do que poderia vir dos curros na segunda parte. Mas o quarto da ordem não permitiu a Luque muito melhor desfecho, faltando alegria na investida perante um toiro que ficava curto. Nas bandarilhas, mais um destaque, desta vez para Jorge Silva. Com a muleta, o artista teve que se impor, mandou mais e esteve mais ligado ao hastado que investia melhor pelo pitón direito. Contudo, e como nos demais, faltava suavidade para que pudesse haver lides mais templadas.

Tomás Campos mostrou-se arrojado frente ao quinto da noite, o n.º 15 de RB. Com o capote em punho, viram-se chicuelinas, abreviadas por uma cambalhota do toiro. Depois do tércio de bandarilhas, ainda pairava o ditado “no hay quinto malo”. Sol de pouca dura, pois quando se parecia que o negro listão de Rego Botelho fosse dar mais jogo, acabou por perder o gás. O jovem matador esforçou-se e sacou tudo o que o toiro tinha para dar, com meia dúzia de séries iniciadas em tabuas por derechazos e ainda mostrou toureio variado por meio de molinetes.

Para terminar a corrida, o n.º 3 e com 534 kg, o toiro mais pesado e com trapio. Roca Rey protagonizou cingidas chicuelinas em terrenos de fora, rematadas com fino recorte. Firme como é seu timbre, tentou impor-se e mandar no seu oponente, iniciou a faena de muleta com uma série de estatuários a pés juntos. Escutou-se música pela Filarmónica Recreio de Santa Bárbara, que abrilhantou com pasedobles toda a corrida. Roca Rey variou com a mão, mas a lide voltou a não resultar, voltou a faltar toiro.

Terminava assim a segunda corrida da Feira de São João, sem percalços de maior, assessorada pelo director de corrida Mário Martins, e pelo veterinário Dr. Vielmino Ventura. Curro de mau comportamento da divisa azul e branca, numa noite em que houve mais artistas que matéria-prima.

André Cunha

Fotografia: Pedro Correia

Artigos Similares

Destaques