Crónica do 2º Festival em Mourão: “Está o Inverno a passar”

Crónica

Se o ditado se cumprir, está o inverno próximo do fim. Choveu na segunda e última tarde da feira de Mourão, o que não impediu que a praça se enchesse para assistir a um bom espetáculo.

Novilhos de Murteira Grave, desiguais, 1.º informal, 2.º bravo e com ritmo, 3.º menos enclassado, 4.º com mobilidade e transmissão, 5.º rachado, com lide na querença, 6.º colaborador e nobre.

Quando ainda o público se acomodava nas bancadas, ajustando abrigos e posicionando guarda-chuvas, recebia Paco Ureña o primeiro da tarde, faena com pouca transmissão, pelo facto de ser o primeiro e pelo informalismo do animal, passava na muleta, por ambos os lados, com pouco empuje e formalismo, Ureña esteve profissional perante um novilho que não comprometia, mas que não acabou de chegar à bancada, saudou nos médios.

O segundo foi um bom novilho, com hechuras, ritmo e classe, humilhando desde as verónicas pausadas de boas vindas, de António João Ferreira, para depois na muleta realçar a sua boa condição, derechazos profundos e templados, passes de peito metidos e bonitas tandas pela esquerda. Um animal que não perdia a fixação e queria investir, fazendo-o com ritmo e classe. Volta para Ferreira.

Juan del Álamo não veio a Mourão marcar presença, veio para tourear e confirmar as suas intenções de posicionar-se no cimo do Toureio. Toureiro com muito sítio, com inteligência, deu lide a um terceiro novilho com menos classe, a chave foi deixar-lhe a muleta na cara, ligando passes, melhor pelo lado direito, com mais profundidade, espremeu todo o sumo que este novilho poderia dar, e se tivesse sido outro que não Álamo, nem história haveria para contar. Volta ao ruedo.

O quarto e único a cavalo, maior, com mobilidade e exigente, emparelhava-se e adiantava-se ao Cavaleiro Filipe Gonçalves que esteve muito bem, numa praça pequena, piso escorregadio e um novilho-toiro a apertar, conseguiu deixar-lhe ferros curtos com emoção, deu-lhe distâncias e a faena ganhou importância, rematou com o cavalo russo de ferro Caetano, sempre espetacular.

Este novilho-toiro foi pegado numa boa primeira tentativa, reunião dura e compacta do forcado de cara Carlos Polme, e bem ajudado por todo o grupo, evitando o embate na parede da praça de Mourão. Neste tipo de praças sem trincheira, o papel dos ajudas, se já é fundamental, ganha contornos de vital, e os Amadores de Monsaraz demonstraram como bem se faz.

Não posso, nem quero deixar de realçar mais uma vez a brega cuidadíssima de Cláudio Miguel neste novilho, sempre andado-lhe para trás, poupando capotazos e quando lhos dava, de capote bem aberto e mostrando a saída, cuidou deste animal de forma magistral. A tauromaquia, como outras formas de arte, faz-se de pormenores.

O quinto foi o novilho mais pequeno, até foi ligeiramente protestado por parte do público, e que cedo mostrou desinteresse, rachou, fugia para a querença na porta dos curros e não fora a paciência, inteligência, cuidado e torería de Pablo Aguado, também pouco haveria que contar. Mas não, Aguado respeitou a querença do novilho e lidou-o na porta de curros, muleta sempre na cara, tocando-lhe o focinho, que permitiu tirar derechazos limpos e profundos, sem saídas,ligados, deixando o novilho no sítio do próximo muletazo, pela esquerda mais do mesmo,ficando no entanto mais curto. O segredo estava na muleta sempre pela frente, cozida ao focinho, e foi aí que surgiu o toureio. Grande demonstração de poderio, dando os tempos corretos, reveladora de uma cabeça com ideias muito claras e paciência de um jovem muito promissor. Volta ao ruedo.

No sexto novilho, de investidas mais incertas, menos equilibrado, mas nobre, viu-se um Juanito tentando mostrar todo o seu conceito e recursos, em pouco tempo e pouco espaço, talvez o facto de estar perante o seu público e no seu país tenham tido alguma influência no nervosismo e tentativa de agradar. Não é uma crítica, apenas como eu vi, o toureiro é variedade e fantasia, mas a pureza e estilo próprio só trazem benefícios. Quando novilho e toureiro se equilibraram, mais pausados, no centro do ruedo, Juanito tem uma tanda de derechazos desmaiados, de figura erguida e relaxada, de muito impacto, rematado com um passe de peito tremendo. Com o avançar da faena o novilho foi encurtando distâncias, protestando nos finais e baixou um bocadinho o nível emocional. Volta merecida para o jovem toureiro Português.

Sumariando a tarde chuvosa de Mourão, foi um dia, para quem esteve atento, de pormenores e detalhes, encierro de jogo desigual, mas interessante no conjunto, toureiros dispostos, conceitos distintos, e todos, mesmo todos, não quiseram apenas passar por Mourão, foram ali para tourear, o público respondeu e temos a época encaminhada, se correr como a II Feira Taurina da Sra. das Candeias, prevê-se uma temporada em cheio.

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