Crescer nos anos 70-80 fortaleceu 9 forças mentais que raramente encontramos hoje, afirma a psicologia

Numa época não tão distante, a infância era marcada por tardes passadas ao ar livre, onde o cotidiano se desenrolava nas ruas, sobre bicicletas ou à volta de uma bola, sem a vigilância constante de adultos. Retornávamos a casa ao cair da noite ou quando uma voz familiar se fazia ouvir da janela. Naquele tempo, os telefones eram utilizados apenas para falar, não para monitorizar, e as respostas não surgiam a um clique de distância.

Crescer durante as décadas de 70 e 80 significava viver num ambiente radicalmente diferente do atual. Não existiam recompensas constantes, nem proteções excessivas contra o fracasso. O erro fazia parte do processo, assim como o tédio. A procura por algo novo, o tentar e falhar, eram práticas comuns. Esta realidade, por vezes dura, desempenhou, no entanto, um papel crucial na nossa formação interior.

Refletindo sobre o passado, noto que essa forma de crescer nos ajudou a desenvolver capacidades mentais robustas. Vários estudos em psicologia indicam que as crianças daquela época cultivaram habilidades de adaptação, paciência e resiliência, que parecem ser menos frequentes nos dias de hoje. A ausência de soluções imediatas forçava-nos a pensar, a improvisar e a tornar-nos autónomos desde cedo.

Crescendo neste contexto, percebo claramente as diferenças, não só na forma como enfrento os desafios, mas também na maneira como os meus filhos lidam com o mundo, em comparação com muitos dos seus colegas.

O contraste, por vezes, é impressionante. Penso frequentemente que, paradoxalmente, a falta de conforto, controle e assistência nos possibilitou desenvolver uma força interior mais sólida — uma solidez duradoura.

1. Aprendemos a lidar com o tédio e a transformá-lo numa fonte de criatividade

Imagens Freepik e Pexels

O tédio era uma parte inerente do nosso dia a dia. Sem ecrãs para o dissipar instantaneamente e sem conteúdos infinitos à mão. Quando nada acontecia, era necessário inventar algo.

Esse tédio impulsionou o desenvolvimento da nossa imaginação. Brincávamos, desenhávamos, inventávamos jogos, refletíamos. Não havia um programa a seguir: o tempo livre deveria ser preenchido por nós mesmos.

Hoje, o tédio é visto como um problema a ser eliminado rapidamente. No entanto, ele desempenhava um papel fundamental no nosso desenvolvimento mental. Era através do tédio que aprendíamos a estar sozinhos com os nossos pensamentos, a explorar ideias e a transformar o vazio em oportunidade. Uma competência simples, mas formativa, que a abundância de telas torna cada vez mais rara.

2. Desenvolvemos uma concentração sustentada sem luta contra estímulos incessantes

Lembram-se dos tempos em que fazíamos os nossos deveres apenas com um livro e um caderno? Sem guias abertas, sem notificações, sem vídeos do YouTube a tocar ao fundo. Quando queríamos fazer algo diferente dos nossos trabalhos, era preciso levantar e ocupar-se de outra maneira.

Este ambiente desenvolveu, inconscientemente, a nossa capacidade de concentração prolongada. Conseguíamos nos imergir em atividades durante longas horas, seja na leitura, na criação de aventuras com os nossos brinquedos, na construção em Mécano ou, simplesmente, em devaneios.

Esta capacidade de concentração tornou-se cada vez mais rara nos dias de hoje. A maioria das pessoas luta para ler por vinte minutos sem consultar o telemóvel. Desenvolvemos esta aptidão sem sequer pensar, simplesmente porque as atividades exigiam um esforço.

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3. Adquirimos sabedoria financeira através da escassez

Naquela altura, o acesso ao crédito era restrito e as taxas de juros elevadas. Quando queríamos algo, era preciso poupar em dinheiro. E quando o dinheiro escasseava, não havia outra opção senão adiar a compra.

Não havia saldo negativo permitido, aplicações de pagamento ou empréstimos online acessíveis a um clique.

Esse contexto ensinou-nos o verdadeiro valor do dinheiro e a importância de viver segundo as nossas possibilidades. A escassez não era um conceito abstrato, mas uma realidade diária. Cada compra exigia uma reflexão cuidadosa, pois o dinheiro era limitado e palpável.

Crescendo numa família operária, onde os almoços de domingo eram sagrados, mas os extras escassos, aprendíamos a valorizar o que tínhamos. Compreendíamos a diferença entre necessidades e desejos, uma distinção que tinha consequências bem reais.

4. Aprendemos a esperar e a postergar desejos

Queriam saber como era o novo álbum da vossa banda favorita? Tinha de se esperar meses até que ele chegasse às lojas. Uma dúvida persistente? Era a biblioteca que tinha de ser visitada, na esperança de que houvesse o volume certo da enciclopédia.

Tudo levava tempo. E, estranhamente, isso era um presente.

Aprendemos a viver na expectativa, a avançar lentamente em direção aos nossos objetivos, a poupar para alcançar o que desejávamos. Não existia streaming, entregas no dia seguinte, nem respostas imediatas para todas as nossas perguntas.

Essa aprendizagem desenvolveu uma paciência extremamente valiosa nas nossas carreiras, relações e na realização dos nossos projetos de vida.

A capacidade de adiar a gratificação é um dos melhores sinais de sucesso, e as limitações da época ensinaram-nos esta lição sem compaixão.

5. Aprendemos a tornar-nos independentes por necessidade

Na minha adolescência, a minha mãe frequentemente enviava-me para fazer pequenas compras com uma lista escrita à mão e dinheiro ao vivo. Sem telemóveis para telefonar se esquecesse ou não entendesse algo. Sem GPS para me orientar. Tinha de dar conta de mim mesmo.

Não se tratava de negligência. Era apenas o normal. E isso ensinou-nos a confiar no nosso próprio julgamento, uma confiança que a conectividade permanente não permite hoje.

Tínhamos de tomar decisões sem consultar imediatamente alguém ou procurar a “resposta certa” online.

Aprendemos a resolver problemas, porque não havia outra escolha. Perdidos, tínhamos de perguntar aos outros ou voltar atrás. Esquecer o bilhete da cantina para o almoço? Precisávamos de encontrar uma solução… ou ficar com fome.

Esses pequenos desafios forjaram em nós uma confiança sólida na nossa capacidade de enfrentar adversidades.

6. Aprendemos a conhecer e afirmar quem somos, independentemente da opinião alheia.

Na época, os “Likes” nas redes sociais não existiam para validar se a nossa roupa estava apropriada ou se a nossa piada tinha graça. Era necessário decifrar as interações, perceber as reações reais e construir uma identidade sem feedback instantâneo.

Isto permitiu moldar uma identidade mais estável. Não nos ajustávamos continuamente às reações online, nem comparávamos as nossas vidas com as versões idealizadas dos outros. A nossa autoestima foi sendo edificada a partir das nossas capacidades e interações reais.

Cabelo rebelde? Não havia problema; essa fotografia Polaroid seria a única do dia. Sem filtros, sem segundas tentativas, sem edições. Aprendíamos a aceitar a imperfeição, porque era tudo o que tínhamos, mesmo que a nossa cabeça parecesse estranha na foto da turma, devido ao corte de cabelo mal feito por nossa mãe na véspera.

7. Forjamos a nossa força mental através de experiências reais

Ninguém nos protegeu da realidade. Se não conseguías vencer uma equipa durante um torneio, sentias o peso desse insucesso na pele.

Os professores corrigiam trabalhos com caneta vermelha e os treinadores gritavam. Nem todos recebiam troféus.

Era sempre agradável? Absolutamente não. Mas preparou-nos para um mundo que se preocupa pouco com o nosso estado emocional.

Aprendemos desde cedo que a vida é injusta, que às vezes perdemos e que as críticas não são uma fatalidade.

Isso permitiu-nos desenvolver uma resiliência que nos ajuda a erguer-nos após as quedas, sem desmoronar. Não levamos o fracasso para o lado pessoal, pois já fomos confrontados com ele desde a infância.

8. Aprendemos a superar dificuldades através de tentativas e erros

A tua viatura avariou-se? Tinhas de aprender a repará-la ou encontrar alguém que o fizesse. Precisavas de gravar uma música na rádio? Era necessário ser engenhoso para pressionar o botão de “gravar” no momento certo.

Não podíamos procurar soluções no YouTube, nem descarregar aplicações. Os problemas exigiam dedicação e uma verdadeira abordagem para serem resolvidos, muitas vezes após várias tentativas malsucedidas.

Isso ensinou-nos a perseverança e a criatividade de uma forma que o acesso instantâneo a respostas nunca poderia proporcionar.

Crescer a partilhar um quarto com irmãos e irmãs implicava negociar constantemente espaço, privacidade e recursos. Não havia uma aplicação para gerir conflitos, nem métodos estruturados. Era preciso desenrascar-se ou enfrentar as consequências.

9. Formámos verdadeiros laços sem a intermediação do digital

Queres ver amigos? Encontrávamo-nos em suas casas ou num local combinado. Não havia SMS para coordenar, nem cancelamentos de última hora por mensagem.

A tua palavra tinha peso: para cancelar, era preciso telefonar ou deslocar-se a casa da pessoa para explicar a situação.

Essa realidade fortaleceu laços mais profundos. Quando passávamos tempo com alguém, estávamos totalmente presentes. Sem telemóveis a distrair, sem redes sociais a consultar. Apenas uma conversa verdadeira.

Hoje, vejo pessoas a lutarem para manter o contacto visual durante uma conversa, absorvidas pelos seus telefones.

Nunca desenvolvemos esse reflexo, porque simplesmente não tínhamos essa opção. A nossa atenção estava exclusivamente voltada para o outro.

Uma última reflexão

Essas qualidades não surgiram de um grande plano ou de uma filosofia parental superior. Elas são o resultado das limitações tecnológicas e sociais da época.

Desenvolvemos a nossa resiliência diante das dificuldades, a nossa paciência por necessidade e a nossa independência por falta de alternativas.

A ironia é que todos os nossos avanços tecnológicos foram concebidos para facilitar e melhorar a vida. Em muitos aspectos, conseguiram.

Mas também fizeram desaparecer alguns obstáculos que, sem intenção, contribuíam para moldar o caráter e as competências essenciais.

Compreender essas diferenças não implica nostalgia ou uma reivindicação de superioridade. Antes de mais, significa conscientizar-nos do que arriscamos perder e refletir sobre como podemos re-aprender essas habilidades num mundo que já não as impõe naturalmente.



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