Corrida mista de Domingo de Colete Encarnado

Corrida mista de Domingo de Colete Encarnado neste 2 de Julho de 2017 na castiça Palha Blanco em Vila Franca de Xira, cheia e com grande ambiente, numa tarde quente aliviada por algumas bem-vindas brisas. A tarde era de justa homenagem ao Maestro Vítor Mendes que foi aos médios duma Palha Blanco toda de pé, receber a primeira grande e sentida ovação desta tarde.

O cartel era composto, de modo algo discutível por um único cavaleiro João Ribeiro Telles que lidava 2 toiros de David Ribeiro Telles, a ser pegados pelo Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira e por 4 toiros de Falé Filipe para a lide apeada que tinha como protagonistas Juan José Padilla e António João Ferreira. Mais um cavaleiro e outro toiro teriam tirado quaisquer discussões acerca da composição deste cartel.

 

João Ribeiro Telles

O cavaleiro da Torrinha recebeu o primeiro toiro da tarde, um bem composto toiro preto ligeiramente bragado traseiro com 560 Kg e 5 anos, da ganadaria da “casa” mas que não tinha cara, quiçá distante de merecer sair nesta praça para lide equestre. Não abundavam as condições ideais de lide, com alternância entre uma investida ou outra merecedora de nota e momentos de recolhimento de quem não lhe agrada a contenda e apenas lança ameaços soltos de demarcação de terreno com um ou outro adiantamento ao cavalo. Foi com este panorama que o João Telles se debateu nesta lide e que soube dar a volta, sem triunfo mas de modo bastante positivo. Nos compridos aproveitou alguma disposição inicial do toiro para a peleia e esteve muito bem, trocando depois de montada para a série de curtos. Aqui conseguiu por meio de uma brega exemplar em que se preocupou sempre em manter uma boa ligação ao toiro, que de ferro para ferro perdia gradualmente o fulgor, alguns bons momentos de toureio equestre. Após o 2º curto a musica já se escutava na Palha Blanco e o 4º curto foi extraordinário, a aguentar a investida e a cravar superiormente. Finalizou esta positiva lide com um “palmito” que serviu de remate à atuação mas nada de novo trouxe. O cavaleiro deu volta no final da lide.

Na sua segunda lide, ao toiro que abriu a 2ª parte, mais um David Ribeiro Telles bem rematado, negro de 540 Kg e 5 anos mas que apesar de estar com mais cara que o toiro inicial, esta também não era digna de realce por não permitir transmissão da ansiada seriedade além de ter denotado alguns problemas de visão. Mas na generalidade, tinha condições de lide e ajudou ao triunfo conseguido por João Telles nesta tarde, com investidas francas, longe de criar crenças pronunciadas em quaisquer terrenos e sempre disponível para o combate com boa reação ao castigo. Os compridos resultaram mas foi sobretudo nos curtos que João Telles abriu o reportório, baseado sobretudo numa ferragem cravada após cites com batidas ao piton contrário quer a dar primazia total ao toiro, quer a entrar em terrenos proibitivos, quer a aguentar e a cravar pelas regras mais criteriosas. A música cedo se escutou e o público entregou-se totalmente ao cavaleiro numa lide alegre e muito toureira, com uma saída apoteótica após um último curto extraordinário com a Palha Blanco eufórica a querer mais e João Telles, bem, a sair por cima. O cavaleiro deu volta e foi aos médios após esta muito bem conseguida lide.

 

Forcados Amadores de Vila Franca de Xira

Para a 1ª pega da tarde o Grupo de Vila Franca teve como protagonista maior na cara o forcado Vasco Pereira que como manda a tradição, brindou aos reis do Colete Encarnado, os campinos. O forcado da cara esteve muito sereno no cite do toiro, mandou nos terrenos ideais, maio caminho entre os médios e as tábuas e com um magnífico temple, carregou, aguentou ligeiramente a fixar a investida, recuou o suficiente e recebeu de modo superior, altura em que se trancou numa bem conseguida córnea que o levou em viagem grupo dentro. Este esteve à altura e nem um ligeiro desviar do toiro para a sua esquerda desmontou a coesão do grupo com as terceiras a entrarem exemplarmente. O remate da pega foi muito bem conseguido através do rabejador Carlos Silva. O forcado da cara deu volta no final.

A pega do 4º toiro da tarde, teve como cara o forcado Francisco Faria que brindou a Nuno Moura, fotógrafo que está na génese do recentemente editado livro comemorativo dos 85 anos do Grupo de Vila Franca. O Francisco não esteve na sua melhor tarde, atendendo ao que tem habituado os aficionados. Na 1ª tentativa, pese a boa técnica demonstrada frente ao toiro, não recebeu adequadamente. O toiro procurou-o mais pelo som que pela figura e o Francisco não recuou a “dar voz” o suficiente para evitar uma reunião seca e bruta que o apanhou de modo descomposto e rapidamente o enviou ao solo num forte derrote de “cima abaixo”. A 2ª tentativa foi muito idêntica, mas mesmo descomposto o cara aguentou um pouco mais para cair já em terrenos onde uma “mão” em momento de menor decisão acabou por não surgir. Na 3ª tentativa, o grupo “comeu” distâncias e de modo bastante eficaz e convincente resolveu esta pega, algo distante do brilhantismo ansiado, mas com grande atitude e o valor de quem se levanta, sacode e coloca o barrete voltando a avançar para o toiro sempre com a mesma vontade. Com grande insistência do público, o forcado da cara deu merecida volta.

 

Juan José Padilla

O primeiro toiro de Juan José Padilla saiu nobre, templado e com classe na investida. O espanhol recebeu-o com 3 largas afaroladas seguido de umas verónicas com o temple que o toiro pedia. Seguiu-se um tércio de bandarilhas com uma lide completamente desacertada que espremeu todo o (pouco, diga-se) sumo que o toiro tinha dentro. Depois dos vinte ou trinta capotazos o toiro chegou ao tércio de muleta completamente parado. Sem fundo nem força, refugiou-se em tábuas e Padilla nada pôde fazer. Ovação recolhida nos tércios.

O terceiro toiro da ganadeira redondense, tal como os seus irmãos, deixou a “qualidade” no campo, sendo “mirón” e saído com a cara alta no fim de cada muletazo. Mais uma vez Padilla não pôde “montar o seu espectáculo”. Ainda assim, dentro do seu estilo, tentou sacar o pouco que o toiro tinha para dar, o que chegou a aquecer as bancadas em alguns momentos, sem que a faena tenha chegado de facto a romper. No final entre as várias “manhas” do toureiro (como passear com a bandeira portuguesa aos ombros, durante a volta à praça) o jerezano conseguiu “pôr o público no bolso” e com isso dar uma segunda volta, totalmente imerecida, tendo em conta a faena.

 

António João Ferreira

Ao diestro Luso saiu um primeiro toiro que levava a cara solta e que “investia com as mãos” no capote, não permitindo um grande luzimento. No entanto, chegado ao tércio de muleta, “Tojó” conseguiu algumas séries limpas, de toureio largo e encajado, tendo a faena atingido o ponto alto numa tanda poderosa, com a mão esquerda. A seguir levantou-se vento, o que levou a alguns enganchões e a faena (tal como o toiro) a perder os quilates que chegou a ter. Volta para o toureiro.

Em último lugar saiu um toiro que desde o início se mostrou violento, de investidas curtas e com falta de obediência, que chegou a provocar um “voltaretón” a António João Ferreira, logo no capote. Na muleta, uma lide de valor mas com o toiro a pedir “créditos” e a não permitir luzimento ao português. Uma faena para se viver com o silêncio e expectativa na bancada (sobretudo pelo risco de colhida que se podia dar a qualquer momento) mas que algumas vozes discordantes fizeram “arrancar a música”, depois de momentos de alguma confusão. No final da actuação deu volta à praça que, tendo em conta o cenário, se pode considerar excessiva.

 

Finda a corrida viveu-se o momento mais insólito da tarde. Padilla “em ombros” por sua própria opção com António João Ferreira “a apanhar boleia”. Tudo isto entre uma monumental (e acertadíssima) bronca do público. Quando as saídas em ombros passam a ser contra a vontade do público e apenas por “auto-recriação” muita coisa há a pensar. Não vale tudo.

Direção de corrida a cargo de Manuel Gama, com assessoria do veterinário Dr. José Lourenço, que dentro do que lhe competia esteve correto e quase sempre assertivo pelo que certamente se distancia dos momentos vividos no final da corrida. A Banda do Ateneu Artístico Vilafranquense transmitiu o seu característico brilhantismo ao sonido da Palha Blanco.

Artigos Similares

Destaques