Corrida do Fogareiro não aqueceu a Moita

A última corrida da tradicional Feira Taurina da Moita, este ano na célebre “noite do fogareiro”, teve o condimento adicional de proporcionar um concurso de ganadarias. Independentemente de se ser apologista deste tipo de corrida concurso que avalia a bravura de um toiro em critérios assente em lides equestres, há que reconhecer que tal acaba por proporcionar competição e alguma diversidade, de resto, num tipo de corrida já enraizada na tradição taurina Portuguesa. Foi no espírito de assistir a uma corrida que tinha o quanto baste para se passar uma boa noite de toiros rodeado de um ambiente envolvente possuidor duma personalidade própria e única como este da Moita é inegavelmente considerado, que a “Daniel do Nacimento”, juntamente com algum vento e um ar fresco que com o passar dos minutos se transformou em frio desagradável, ocupou um terço da sua lotação.
João Moura Júnior, João Ribeiro Telles e Francisco Palha nas lides equestres e os Grupos de Forcados Amadores de Évora e Alcochete, comandados respetivamente por João Pedro Oliveira e Nuno Santana, nas pegas, perfilaram-se frente a 6 toiros de diferentes ganadarias, variados de apresentação e a oscilar, no que toca a bravura, entre o mais e o menos, quer de manso, encastado, cumpridor, franco ou voluntarioso. Bravura, essa, houve pouco para mostrar. Por ordem de saída, foram a praça toiros de Veiga Teixeira (500 kg), Fernandes de Castro (470 kg), Ascensão Vaz (480 kg), Prudêncio (530 kg), Murteira Grave (515 kg) e António Silva (535 kg).

Os toiros foram os competidores principais da noite e nestes, dentro de uma mediania preponderante no que toca a comportamento, avanço para os premiados.

Prémio de apresentação para o toiro de Ascensão Vaz, um bonito jabonero corniaberto com algum trapio, a harmonizar peso com presença e que se admite perfeitamente ser o premiado. O negro de Veiga Teixeira com boas hechuras e excelente cara pareceu um sério candidato, assim como o Grave, toiro também com trapio e linhas harmoniosas como é apanágio desta ganadaria. A apresentação é importante, mas vale o que vale, convenhamos.
Prémio de bravura para o toiro de Murteira Grave, com alguma justiça visto que foi o que mais se aproximou do pretendido neste tipo de concurso, com aquele sempre apreciado aroma a “Toiro”. Toiro sério, entenda-se, que não facilita e que exige, mas nobre e de grande mobilidade, carregando forte a responder à ferragem ou às entradas do cavaleiro nos terrenos que demarcava. Fica um amargo de boca por João Telles na lide deste Grave ter ficado parcialmente refém das montadas, o que num toiro daqueles é fatal. O toiro preto, alto e magro, boa cara e algo selado da Casa Prudêncio, terá sido um digno vencido, mas mais suave, muito menos perigoso, transmitia pouco, embora tenha proporcionado a mais conseguida lide da noite a Moura Júnior que aproveitou da melhor maneira a matéria-prima disponibilizada.
Se prémio houvesse para falta de apresentação, o toiro algo terciado e sem cara de Fernandes de Castro venceria distanciado pela ausência de quase tudo o que é necessário para se competir num concurso de apresentação, exceto uma interessante pelagem de preto entrepelado, salpicado e bragado corrido. A secundar, posiciono o toiro preto bragado corrido, com cara, de António Silva que merecia melhor representação para uma ganadaria que vale muito mais que a imagem dada por este toiro, diminuído de recursos a querer e não poder, que foi apresentado a concurso.
A ausência de bravura foi arduamente disputada entre o estático e de meias investidas toiro de Veiga Teixeira e, pelo mesmo motivo, o toiro de Fernandes de Castro, também ele a refugiar-se permanentemente da luta. Pelo meio, coloco o toiro de Ascensão Vaz, manso mas muito encastado que entrou em praça com vontade de lá sair rapidamente e que depois de se interessar pelo cavalo, demonstrou ter algumas condições de lide, apesar dos adiantamentos e imprevisíveis investidas de manso.

Os cavaleiros presentes, cada um no seu distinto estilo, estiveram cumpridores na generalidade, quase nunca rompendo, tendo sido premiada cada lide com volta para o cavaleiro. Nada de triunfos apoteóticos, tão pouco voltas a mais que o estritamente merecido. As palmas do público acabaram por ser justamente distribuídas nesta “noite do fogareiro” da Moita.

João Moura Júnior apenas conseguiu cumprir a ferragem da ordem no Veiga Teixeira que pouco transmitia e praticamente não investia, defendendo-se na sua manifesta falta de força. Algumas sortes a entrar pelo toiro e uma brega provocatória não correspondida foram, apesar de tudo, motivo para escutar musica e conseguir arrebatar algumas palmas por parte do público, numa lide quase sem história.
Na sua segunda lide, tirou partido de um Prudêncio voluntarioso que o fez sentir-se na sua zona de conforto e expor o seu reportório. A música tocou logo após um excelente primeiro curto, frontal e ao estribo, colocou em prática uma brega aprimorada, boas colocações, conseguidas sortes frontais com batida ao piton contrário, por vezes ladeou barbaridades em terrenos e a distâncias de palmo, empolgando o público numa lide que teve uma ligação bem conseguida naquele que foi o momento da noite mais aproximado do triunfo.

João Ribeiro Telles debateu-se com o fraco toiro Fernandes de Castro que lhe coube em sorte e pouco sumo extraiu de tão seca fruta. Faltava força e vontade ao toiro. João Telles empregou-se, usou e abusou do mando num toiro que aparentava dificuldades em vislumbrar certas distâncias, esforçou-se, ouviu musica e acabou por abandonar a arena após cravar a ferragem da ordem, numa lide, também ela com pouco que contar.
O seu segundo oponente foi o bom e sério toiro de Murteira Grave. Recebeu a um bom nível e após ter mudado de montada e ter cravado o primeiro curto, foi logo de seguida obrigado a mudar novamente de montada e o ritmo e lide pretendidos por João Telles ressentiram-se e tiveram de se readaptar. Apesar de tudo, conseguiu o pretendido e por via de uma ferragem correta com boas colocações e cites frontais bem conseguidos, acabou por ser a experiência e qualidade técnica de João Telles que lhe permitiram nivelar-se com um toiro que não foi fácil, pela exigência que impunha na sua lide.

Francisco Palha teve de se adaptar ao manso encastado de Ascensão Vaz que sentiu bastante um primeiro bom comprido e se dividiu entretanto entre investidas bruscas ao cavalo e a procura de uma saída da arena. Após um segundo comprido de excelência, o cavaleiro aqueceu a bancada e “obrigou” a banda a tocar. Nos curtos, o toiro manifestou a sua boa mobilidade e investiu com alegria ao cavaleiro mas a cortar bastante a saída, adiantando-se, na maioria dos casos. Francisco Palha não se entendeu de imediato com as caraterísticas de investida do oponente e o entusiasmo inicial foi-se esvaindo. Apenas conseguiu dar a volta a esta questão no final da série de curtos, mercê de uma maior ligação conseguida e uma brega e preparações bem cuidadas.
A encerrar a corrida, saiu-lhe um toiro António Silva que condicionado e quase sempre a passo, não permitiu o desejado triunfo de Francisco Palha que se limitou a cumprir a ferragem da ordem face às fracas investidas, por vezes descompostas, do toiro e a obter uma lide que se pode considerar, também ela esforçada mas que não chegou para conquistar o público.

Os grupos de forcados em praça nivelaram-se no saldo final das suas positivas atuações, justificando os pergaminhos e o prestígio que desfrutam, com duas pegas à primeira e uma à terceira para cada um dos grupos.

Pelo grupo de forcados amadores de Évora, abriu praça como forcado da cara, João Madeira. Após desfazer uma tentativa inicial para “mover” o estático Veiga Teixeira, mudou-se os terrenos do toiro e com muito esforço de provocação, lá conseguiu pôr o Teixeira a andar. Recuou, recebeu e fechou-se bem à córnea no toiro que investiu em passo acelerado e que só quando sentiu o forcado correu e empurrou forte, ingloriamente, já que o grupo fechou de imediato com coesão. O forcado da cara deu volta no final.
A segunda pega do grupo de Évora ao toiro de Ascensão Vaz teve como cara o forcado Miguel Direito. Esteve bem em frente do toiro, mandou bem quando pretendeu que o toiro investisse e conseguiu uma reunião perfeita à barbela, enchendo a cara ao toiro que após afocinhar na zona das segundas, prejudicando o papel dos ajudas, tentou ingloriamente desfazer-se do forcado da cara que foi sendo acamado pelos ajudas que entretanto, imobilizaram com sucesso o oponente. O forcado da cara deu volta no final.
O sério Murteira Grave teve a desafiá-lo como forcado da cara, o cabo do grupo de Évora, João Pedro Oliveira. O forcado da cara esteve tecnicamente irrepreensível nesta primeira tentativa, fechou-se com vontade numa córnea poderosa e foi em viagem até tábuas, sempre com ajudas a acamar. Inexplicavelmente, quando a situação parecia controlada e com o grupo fechado no toiro, qual castelo de cartas a desmoronar-se, o toiro libertou-se do cara e dos ajudas transformando uma pega praticamente consumada em simples tentativa inglória. Na segunda tentativa, o João Pedro apesar de voltar a estar bem em frente ao toiro, não conseguiu sacar-se a uma poderosa mangada inicial do Grave e foi desfeiteado no imediato com violência. Na terceira tentativa, já mais em curto e com as distâncias entre ajudas mais restringidas, a entrada violenta do toiro foi bem controlada pelo cara e ajudas, que aguentaram bem a aspereza das mangadas do oponente, consumando esta dura pega. O forcado da cara, apesar de autorizado pelo diretor de corrida, recusou dar volta.

O grupo de forcados amadores de Alcochete abriu a sua atuação frente ao toiro de Fernandes de Castro, tendo como forcado da cara Pedro Gil. Desfez uma tentativa inicial na qual não conseguiu pôr o toiro a andar e após mudança de terrenos a retirar o toiro de tábuas e novamente com muita insistência a carregar e a provocar, conseguiu uma investida do toiro que veio praticamente a chouto, mas que ao sentir-se agarrado na boa reunião à córnea do Pedro Gil, resolveu empregar-se, a empurrar, sem grande sucesso, já que o grupo fechou com extrema coesão. O forcado da cara deu volta no final.
A segunda atuação da formação de Alcochete, frente ao toiro Prudêncio, teve na cara o forcado Fernando Quintela. Na primeira tentativa, o toiro entrou bem, mas uma mangada alta a meio da viagem obrigou o forcado a ficar “pendurado”, as pernas não se fecharam, ficaram por baixo do toiro e acabou por ser arrastado ao solo visto que lhe faltou o suporte suficiente para conseguir aguentar a chegada das segundas ajudas, inviabilizando-se assim esta tentativa. Na segunda tentativa, o cara, após receber não se fechou convenientemente e mesmo aguentando com dificuldade um primeiro derrote do toiro, não resistiu ao segundo que venceu forcado da cara e primeiro ajuda em simultâneo com bastante violência, inviabilizando esta tentativa de pega e deixando o Fernando Quintela prostrado na arena muito maltratado. Acabou por ser retirado de maca, num momento pleno de dramatismo, vindo a verificar-se que infelizmente se tratava de uma lesão séria. O cabo Nuno Santana assumiu a dobra ao seu forcado e acabou por consumar uma pega dura numa córnea poderosa, com o toiro a fugir para a direita do grupo, mas o forcado que estava bem fechado, aguentou a recuperação das terceiras ajudas, fechando todo o grupo, de seguida, esta complicada pega. O forcado Nuno Santana, apesar de autorizado pelo diretor de corrida, recusou dar volta.
Para encerrar a corrida com a pega ao toiro de António Silva, o Grupo de Alcochete escalou para a cara o forcado João Machacaz. O cara esteve muito bem, com um cite pausado, aguentou a fixar uma investida de largo, pouco franca e “a medir” do toiro, provocou o necessário para que o toiro ganhasse velocidade, recuou bem e melhor reuniu, numa eficaz córnea que o levou numa viagem áspera grupo dentro, onde o forcado da cara chegou a estar “preso pelas unhas” na córnea, mas uma grande alma e ajudas eficazes, já perto das tábua, ajudaram a que voltasse a ganhar a cara ao toiro e a consumar com sucesso uma pega que pareceu estar perdida e acabou ganha. O forcado da cara deu volta no final.

A direção de corrida obedeceu a critérios de coerência bem conseguidos e esteve a cargo de Rogério Joia, assessorado pelo veterinário, Dr. Jorge Moreira da Silva e o apoio do cornetim José Henriques.

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