Corrida do Colete Encarnado

Praça de Toiros Palha Blanco em Vila Franca de Xira, 7 de Julho de 2019.

Corrida mista de Domingo de Colete Encarnado.

Cavaleiros: António Ribeiro Telles e Francisco Palha.

Matador de toiros: António João Ferreira.

Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira, capitaneado por Vasco Pereira.

Ganadaria: São Torcato.

Banda do Ateneu Artístico Vilafranquense.

Direcção de corrida: Lara Gregório de Oliveira, assessorada pelo Dr. Jorge Moreira da Silva.

 

Debaixo de uma agradável temperatura e com grande ambiente acima dos três quartos de casa preenchidos, a tradicional corrida mista de domingo de Colete Encarnado foi um espectáculo onde sobressaiu uma grande vertente emocional perfeitamente identificada com uma das características mais inerentes à essência e intimismo da tauromaquia, independentemente do resultado artístico ter merecido um destaque secundário (algo que apenas surgiu a rasgos), tratou-se de um permanente respeito pelo toiro e pela seriedade que este curro de São Torcato transmitiu na arena e ressoou pela bancada. A Palha Blanco viveu uma daquelas tardes em que foi latente uma inerente atitude mais toureira que artística como sistema adoptado para vencer as dificuldades enfrentadas, ultrapassando os limites do desplante, do adorno e da busca dos momentos de virtuosismo mais refinado. Os São Torcato não eram “montanhas de carne”, eram tendencialmente mansos, com génio e muito incómodos, mas eram sobretudo… Toiros!

A valentia e experiência de António Telles foram as armas utilizadas para aguentar o São Torcato que abriu praça, perigoso e seco nas investidas e que carregava com extrema agressividade na resposta ao castigo. No seu segundo, um castanho já mais moldável nas atitudes, conseguiu alguns dos momentos mais conseguidos da tarde. Neste toiro, a mestria do António foi o suporte para uma lide bem conseguida sobretudo pelos detalhes e conseguindo uma maior ligação a um dos poucos toiros desta tarde que deu alguma margem de triunfo, com um comportamento de menos a mais e culminou com o público de Vila Franca a conceder ao António uma segunda volta, movida por uma cumplicidade e admiração que se sente e se vive sem necessidade de se explicar.

Francisco Palha, no seu primeiro toiro, foi incapaz de ser perfeito porque era manifestamente impossível perante um também perigoso São Torcato, distraído, que nunca se interessou em colaborar, pelo que o Francisco cumpriu com o seu exemplar profissionalismo uma lide esforçada e eficaz, mas com escassas possibilidades de ser muito criativo. O seu segundo toiro, não fossem as barbaridades com que se adiantava nas investidas, talvez tivesse servido para que o Francisco não abandonasse a arena com o amargo de não ter conseguido tourear a gosto numa tarde que tanto lhe diz. Alguns bons curtos conseguidos sempre que conseguia esquivar-se ao adiantar deste toiro foram destaques de realce e a (recusada pelo cavaleiro) volta, acabou por ser merecida.

António João Ferreira esteve sobretudo valente, nos limites, face a dois oponentes perfeitamente “amargos” se seguirmos a célebre analogia entre melões e toiros. O primeiro, com investidas maioritariamente bruscas e com dificuldade em manter o humilhar sem empregar aspereza na saída da muleta, numa lide que culminou com merecidos “castigos” por baixo e que valeu sobretudo por momentos bem conseguidos no capote e pelos bons pares de bandarilhas de Tiago Santos (chamado a escutar ovação) e João Oliveira (era justo ter sido chamado a escutar ovação). O segundo toiro do “Tojó” foi outra não menos perigosa “encomenda” que ainda assim lhe permitiu duas boas sequências de muleta, já perto do final duma lide onde foi tentando arrancar o quase impossível para conseguir uma ligação coerente.

O Grupo de Vila Franca não teve uma tarde descansada, muito pelo contrário, mas esteve enorme face aos problemas que os São Torcato criaram. Sentiu-se nesta tarde o que é um Grupo de Forcados a honrar os seus pergaminhos e prestígio com uma actuação de grande exigência, conjugando competência com inteligência e solidariedade.

David Moreira abriu praça com uma pega à terceira tentativa. O toiro vinha pronto, entrava de modo seco sem humilhar e derrotava desde a reunião, não perdoando na tentativa inicial o recuar um pouco mais que o necessário do forcado da cara e na segunda tentativa alguma imperfeição a receber no momento da reunião. Na terceira tentativa o “Canário” encurtou terrenos e esteve superior a receber e a fechar-se com o grupo muito coeso a responder.

No segundo toiro, o forcado da cara foi Pedro Silva que pegou à terceira tentativa. Também vinha pronto o toiro e apesar do Pedro ter estado bem nas tentativas iniciais, o toiro era bastante áspero após a reunião e se na primeira apenas teve a necessidade de se conseguir livrar do forcado da cara num segundo derrote de cima para baixo, na segunda tentativa parou-se a desbaratar o Pedro (que aguentou até ao impossível) e todo o grupo que foi respondendo com empenho e valentia, mas que não foram suficientes para derrotar o oponente. Na terceira tentativa, a competência do forcado da cara e o querer de todo o grupo conseguiram culminar com sucesso uma pega de grande atitude a um toiro difícil.

O terceiro toiro foi pegado pelo consagrado Rui Godinho de modo superior à primeira tentativa numa pega a um toiro que também veio pronto e veloz, mas que quando se apercebeu, estava envolto na zona das tábuas por um grupo perfeitamente coeso e a toldar-lhe qualquer hipótese de reacção. Neste toiro, a actuação do rabejador Carlos Silva empolgou o público e acabou por ser justamente aclamado para dar merecida volta com o Rui Godinho e António Telles.

A encerrar a actuação desta tarde, o forcado da cara foi Guilherme Dotti que pegou à terceira tentativa. Enfrentou mais um toiro exigente e se na primeira tentativa esteve correctíssimo em todos os tempos, os derrotes do toiro a entrar grupo dentro descompunham e apesar do toiro ter sido parado, o forcado estava fora da cara, tendo-se mantido o grupo na arena para uma nova tentativa. Desta vez, uma entrada forte sem humilhar despachou de imediato o forcado da cara e primeiro ajuda. Na terceira tentativa, o Guilherme encurtou terrenos e veio bem fechado grupo dentro com o toiro a atropelar o esforço solidário dos ajudas até que o terceiro ajuda Diogo Grilo se “trancou” na viagem com o Guilherme, motivo suficiente para que o resto do grupo conseguisse recuperar e se culminasse esta empolgante pega. No final, forcado da cara e ajuda deram volta bastante aclamada.

A Direcção de corrida manteve uma coerência de critérios, compreendeu as dificuldades criadas pelos toiros e o empenho que os artistas manifestaram face às dificuldades, nas suas actuações.

Paulo Paulino

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