Uma coragem única que se veste de gala

Há dias, vi a corrida de Domingo da Ressurreição, em Sevilha.

Cartel de excelência e atuações à parte, detive-me, confesso, numa outra matéria que há muito me fascina nestas lides. Fixei o sentido, em especial, na elegância de tudo quanto o ecrã da televisão me oferecia daquela tarde de touros.

Provavelmente por ser mulher, dediquei, desde sempre, particular atenção aos trajes, às fardas e aos detalhes das vestes dos homens que participam na Festa Brava. E também desde sempre me encantei com esta peculiar antítese: Há uma graciosidade e uma elegância nos seus trajes que aparentemente não rimam com a coragem, a masculinidade e o arrojo de um toureiro e de um forcado.

Reparei, de forma mais refletida, ao longo daquela transmissão, no jeito com que os toureiros caminhavam, arrastando o capote atrás como se de um manto real se tratasse. Detive-me no andar curto e suave dos passos que deslizavam sobre a arena e dos corpos cingidos à esquerda pelos lindíssimos capotes de passeio, no momento mágico da saída do pátio das quadrilhas. Associei-lhes gestos de outras tardes e de outras cortesias, de pegas, cites e voltas. Rodopiaram na minha cabeça inúmeros momentos e fragmentos de elegância pura, pois este específico aprumo de que se reveste a Festa Brava é algo de soberbo e é impossível ficarmos-lhe indiferentes.

Forcados e toureiros, feitos de uma coragem única, trajam de gala para desafiar o destino.

Vestem, em ambos os casos, trajes apertados aos corpos de uma beleza inigualável. Não são sóbrios. São coloridos e adornados. Não são lisos. São bordados de ouro e lavrados de flores e de ramagens. Calçam-se uns de meias cor-de-rosa finas e sapatilhas pretas justas, outros de meias brancas rendadas e sapatos afinados de franja.

É algo que de facto me magnetiza, no verdadeiro sentido do termo. Encanta-me este aparente contraste. Desconcerta-me. Como é que por baixo de tanta elegância e subtileza no trajar encontramos tamanha coragem e poder?

Apetece-me dizer que os fatos lhes assentam à medida do corpo e do destino.

Quando simplesmente nos concentramos, sem nenhuma outra distração, no movimento do toureiro com o touro rendemo-nos a uma simbiose única em que ambos se unificam num bailado sublime e inebriante.

Se nos focarmos exclusivamente, sem mais nada contar, no forcado quando chama, elegante e determinado, o touro assistimos a um autêntico galanteio, uma espécie de namoro, que pede a presença do “abraço” intenso e certo, do tudo ou nada, que é consumado na pega.

E aquilo que é um combate não o é. E o aparentemente inexplicável contraste entre a elegância, de um lado, e o masculino arrojo, do outro, não existe. É tão-somente arte.

Acredito profundamente que tudo, na arena, se passa nos limites do racional. Mas também sei que é essa derradeira razão que determina todos os momentos, feitos de extrema elegância e certamente de corações enormes.

Cara a cara, corpo a corpo. Trajados de gala e ouro, vestidos de ramagens e cinta encarnada, atuam como se cada passo e cada gesto fossem os últimos e estes têm de ser perfeitos.

É arrepiante.

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