A conquista da eternidade

Crónica

Em 1965, Rafael Astola, novilheiro que não chegaria a tomar a alternativa, toureou Laborioso, um novilho de “Albasserrada”. Este foi o primeiro indulto que ocorreu na Real Maestranza de Caballeria de Sevilha.

Passaram-se 45 longos anos até que novo indulto se verificasse, o do magnífico “Arrojado”, um toiro de “Nuñez del Cuvillo” que tocou em sorte a José Maria Manzanares na Feira de Abril de 2011.

A esta efeméride seguiu-se o indulto de “Cobradiezmos”, um soberbo “Victorino” indultado por Manuel Escribano.
Viajou do Campo Charro para Sevilha, Orgullito, um Toiro de “Garcigrande”, que pisou o “albero” da Maestranza para se confrontar com o Maestro Julian Lopez Escobar – “El Juli”.

Um confronto que mais nos pareceu um encontro, um encontro que tudo mudou!

Encontraram-se matador e toiro bravo, no palco certo, à hora certa e, desse encontro, brotou toda a razão para que a tauromaquia nos surpreenda e nos proporcione emoções sem par.

Este acontecimento marcante suscitou atenção generalizada, gerando diferentes interpretações.

Alguns aficionados, ditos mais exigentes, apontam defeitos a este grande toiro, nomeadamente que raspava, que não era tão pronto na investida, que lhe faltava vibração. Na verdade, pese embora estas características, “Orgullito” fez vibrar os largos milhares de aficionados que encheram as bancadas da Maestranza nesta tarde histórica.

“Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume.” Esta descrição de Miguel Torga, um dos maiores vultos da Literatura Portuguesa, sobre o “Miura” na obra “Os Bichos” não seria aplicável ao epílogo do memorável bailado de Julian com “Orgullito”, do qual resultou um pedido massivo de indulto que veio, afortunadamente, a ser concedido a este magnífico toiro.

As críticas podem ser pertinentes e fundamentadas, mas este espectáculo, em que se “joga” a vida e a morte é, não só a mais verdadeira e pura das formas de expressão artística, mas também um exemplo dos mais altos valores de liberdade e democracia. Aos presentes foi dada a liberdade de expressar o seu desejo de indulto, que se veio a verificar pela forte petição que encetaram, sendo satisfeita a vontade da maioria.

“Orgullito” não é uma máquina, não é infalível, não é perfeito. Ainda bem! Há quem diga que a perfeição não existe, que se trata de uma utopia, mas caso exista será desinteressante e monótona.

Aos comentários jocosos de alguns “puristas” respondemos que não devem recear, pois não se trata de perda de exigência de um dos “públicos” mais entendidos, como é o de Sevilha. Permitam-nos, estes respeitáveis confrades, recordar-lhes que o público de Sevilha tem uma sensibilidade própria, com gostos “esquisitos”, não é melhor nem pior, é dos que melhor sabe ver Toiros, embora veja de forma distinta.

Novos tempos, novas vontades! Nesta época em que os aficionados se sofrem de ostracismo e perseguição por parte da radical doutrina sociopolítica “animalista”, não perdem exigência

mas, sentindo-se “sitiados” num dos seus mais carismáticos “baluartes”, a Real Maestranza de Caballeria de Sevilla, deram uma demonstração de união em torno do que os apaixona – o toiro bravo, rejubilando com a magia da bravura e da arte!

Outra questão não menos importante prende-se com o temor de alguns de que o indulto comece a ser visto mais como um prémio ao matador do que ao toiro. De facto, incontáveis publicações nas redes sociais, levam a que também nos assalte algum cepticismo de que essa confusão de conceitos possa ocorrer, em virtude de muitos aficionados exaltarem o matador em vez do verdadeiro triunfador, o toiro…

Os Aficionados vão aos toiros para ver toureiros…?! Será verdadeiramente um contra-senso? Ou nem por isso… Uns vão mais pelos toureiros, outros pelas ganadarias. O toureio é, indubitavelmente, uma arte, e a forma de apreciar qualquer manifestação artística pode ser tão subjectiva e pessoal como a sua própria criação.

Mas quando se fala de indulto, em nossa opinião, indulto é toiro, não é toureiro!

Não pretendendo, de forma alguma, desvalorizar o papel do matador, supõe-se e almeja-se que o indulto seja muito mais que um premio, é o supremo reconhecimento ao toiro.

Para o matador, indultar um toiro parece ser manifestamente mais marcante do que obter os troféus máximos. Será sentir que através da inspiração artística, recursos técnicos e conexão com o toiro, com a muleta arrastando na arena, o conduziu e orientou no caminho da salvação.

Seguramente, a lide de “Orgullito”, desenhada por outro Matador teria diferente desfecho. “El Juli” é considerado um “toureiro de época”, reconhecido como um dos melhores na vasta Historia da tauromaquia e, nesta tarde, mais uma vez o demonstrou!

É unânime e incontestável que Julian Lopez esteve, como é seu apanágio, absolutamente magnífico, arrebatador e merecedor de ser triunfalmente sacado em ombros pela Porta do Príncipe.

Passados vinte anos da sua alternativa parece superar-se temporada após temporada, um verdadeiro prodígio!
Mas voltemos à questão “torista”, reforçando, prémio é: chamada do ganadero chamado à praça, aplauso no arraste ou a volta à arena do toiro. Indulto é o pleno reconhecimento ao toiro, não é somente um prémio!
O indulto não é “orelhas” nem “rabos”, não são saídas em ombros pela porta grande. O indulto é perdoar a vida, é contrariar um destino traçado.

Indulto é muito mais do que um prémio, é um animal irracional ser capaz de mudar o curso da sua própria inexorável existência, um fado imposto à nascença pelo Homem, que se lhe rende.

É o reconhecimento de características supremas, praticamente exclusivas da espécie Humana, como é o caso da nobreza, da dignidade e da honra!

E quase humanizar o animal toiro bravo, transportando-o para um “patamar superior” ao dos restantes animais irracionais.

E uma demonstração pura da admiração e adoração profundas que os aficionados sentem pelo toiro bravo.
O mistério da bravura é a razão para a Tauromaquia, o indulto é, portanto, o seu pináculo.

Neste momento não importa se “Orgullito” era ou não merecedor de indulto, importa reflectir sobre o respeito. Respeito que nos orgulhamos de sentir por “Orgullito” face ao seu comportamento, honrando os seus pares e a sua própria condição, conquistou a vida retirando-se digna e galhardamente daquele palco que o viu combater como um herói.

Julian e “Orgullito” são um acontecimento extremamente importante para a Tauromaquia, mas suplantaram essa vertente, pois geraram artística representação pura e crua do ciclo da vida e da existência individual!

O indulto não é um prémio atribuído pelo Homem! É muito mais do que isso, o toiro é que conquista a vida. Rende-se o Homem ao toiro, não no decurso da lide, nem no sentido estrito da palavra, porque o toureiro poderia ter realizado a sorte suprema, mas num sentido lato, é uma vénia de reconhecimento.

Toda a Aficion se orgulha de “Orgullito” que, com os seus pequenos defeitos e grandes virtudes, explanou a essência do que é o toiro bravo, essa essência que o torna um símbolo desde tempos imemoráveis…

O indulto é representação da vida e da glória, da conquista da “eternidade”!

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