“Bússola da Tauromaquia” – Voltaremos mais fortes

Crónica

Voltaremos mais fortes

Esta rúbrica que hoje tem início, com o início do ano 2023, destina-se a analisar os temas mais pertinentes e que mais eco tenham no panorama taurino nacional, com a intenção de destacar aqueles que mais se evidenciam e merecem o nosso aplauso e de criticar sempre de forma construtiva os pontos mais negativos da atualidade tauromáquica. A “Bússola da Tauromaquia” pretende refletir e fazer refletir acerca dos temas nela abordada, e permitir que se encontre o “norte” e não se perca o rumo que permita levar a tauromaquia a bom porto.

Terminado o ano 2022 nada mais há a fazer que um balanço do qual se pretendem retirar aspetos positivos e negativos, para que possamos continuar com as virtudes já evidenciadas e corrigir as carências e os pontos mais negativos.

A nível taurino, talvez a palavra que melhor define o ano agora findo seja “revitalização”. Passados dois anos em que fomos severamente assolados por uma pandemia que nos restringiu em grande medida e nos colocou as vidas em suspenso, dois anos de incertezas e dificuldades que, em grande parte, foram superadas com uma Temporada 2022 de revitalização e que veio provar que a tauromaquia foi e é o espetáculo cultural que mais gente move.
Mas de tudo se deve tirar uma lição e com tudo se deve aprender, porque mesmo o Covid trouxe à nossa tauromaquia alguns pormenores que neste 2022 foram esquecidos e não faria certamente mal que tivessem sido levados em conta. Regressaram em 2022 os espetáculos longos e duradouros, com uma menor percentagem de “tempo útil”. As cortesias voltaram ao que eram (embora não creia que seja o maior problema…) e deram-se voltas e mais voltas, algumas quase que dadas “a martelo”, como que se de uma obrigação se tratasse, dar volta ao ruedo. De quem é a culpa? Talvez de todos. Dos artistas que não se inibem das voltas ao ruedo, do diretor de corrida que as concede, e em último e mais importante plano nosso, do público que se conforma e não protesta.
Mas não só a estes aspetos se deve a demora exagerada dos espetáculos. Outro dos fatores que atrasa e retira o ritmo dos espetáculos é a demora muitas das vezes verificada na recolha das reses lidadas. Não seria viável que o jogo de cabrestos pertencesse à ganadaria titular da corrida? Talvez dessa forma voltássemos a poder vislumbrar também com mais regularidade a muitas vezes olvidada pega de cernelha, que perde todo e qualquer brilho quando a sincronia entre toiro e cabrestos não acontece. Talvez dois problemas solucionados da mesma forma, caso a solução seja viável.

Um outro ponto negativo da Temporada 2022 foi a falta de aposta no toureio apeado em Portugal. Não poderá certamente ser por falta de qualidade dos homens que vestem de ouro, dado o sucesso que alguns dos nossos fizeram lá fora. João Silva “Juanito” foi um dos grandes triunfadores da temporada de Extremadura, Diogo Peseiro evidenciou boas maneiras em feiras importantes como a de Céret onde triunfou e com uma louvável diversidade de encastes. Gonçalo Alves foi a revelação da temporada e alcançou um importante triunfo no I Memorial Iván Fandiño, do qual saiu vencedor em Bilbao. Não serão ingredientes suficientes para que o toureio apeado ressurja em Portugal com a força de outros tempos? Mas com isto não aponto de forma exclusiva (nem perto disso…) aos empresários, pois quando apostam no toureio a pé o que recebem de volta são praças vazias. Tomamos como exemplo da Temporada 2022 a encerrona de Joaquim Ribeiro “Cuqui” com seis Palhas na praça da Moita. Não mereceria o gesto que a praça registasse uma bonita moldura humana?
E certamente se os cartéis de Badajoz ou Olivença fosse montados numa praça portuguesa com tradição no toureio a pé como são a Moita do Ribatejo e Vila Franca de Xira a resposta de público não seria certamente a mesma. Mesmo que nessas praças espanholas parte considerável do público presente seja português. Talvez devêssemos começar a valorizar o que é nosso, que não considero ser pior que o que é dos outros. Não por ser nosso mas por ter qualidade suficiente para competir com o que é dos outros.

Por outro lado, 2022 foi também o ano em que regressaram as corridas nas praças desmontáveis, aquelas que por vezes desvalorizamos mas que tanta falta fazem para levar e fomentar a afición nos mais diversos cantos do país. Umas com datas tradicionais que regressaram, outras com datas novas mas no geral todas resultaram em pleno e constituíram um dos grandes pontos da temporada transata.
Também do lado positivo da balança da temporada 2022 não há como não referir aquele que foi, a meu ver, o Momento do ano. Falo da magistral atuação do Maestro João Moura na Arena D’ Évora, no confronto de maestros a 23 de julho. Uma lição de que quem sabe jamais esquece, uma demonstração de que toureia como respira… Naturalmente! João Moura foi e continua a ser um génio da tauromaquia e demonstrou-o nessa tarde. Aguarda-se com expectativa aquela que será a temporada de comemoração dos seus 45 anos de alternativa.

No capítulo do toureio a cavalo é também imprescindível falar dos nomes que seguem na linha da frente, destacados do pelotão, os nossos cavaleiros António Ribeiro Telles, João Moura Jr., João Ribeiro Telles, com Miguel Moura, João Salgueiro da Costa e Luís Rouxinol Jr. a tentarem (cada vez com mais sucesso) inserir-se no seu grupo.
Omiti o nome de Francisco Palha não por esquecimento mas porque creio ser dele outro dos momentos mais destacados da temporada. Francisco Palha regressou à Monumental de Las Ventas passados oito anos da última vez que lá tinha atuado. Chegou, viu e venceu e o seu triunfo fez capa de todos os mais importantes meios de comunicação social taurina do país vizinho. A prova de que os cavaleiros portugueses têm valor mais que suficiente para entrar no mercado espanhol. Apenas faltou naquela noite a concessão da segunda orelha após petição maioritária da mesma, para coroar uma noite quase sonhada.

Louvar ainda os empresários que deram oportunidades aos novos valores, com a realização de algumas novilhadas, nomeadamente a Tauroleve, tanto nas praças da Moita e de Vila Franca, Rafael Vilhais em Salvaterra de Magos e os postos que também outros da classe empresarial deram como oportunidade, nalgumas corridas de toiros, a cavaleiros praticantes e amadores de integrarem cartéis de responsabilidade.

No capítulo das jaquetas de ramagens foi mais um ano positivo na generalidade sendo de realce destacado as diversas atuações realizadas por grupos nacionais no estrangeiro, nomeadamente em Espanha e França. Salda-se, no entanto, como ponto negativo a suspensão de atividade do Grupo de Forcados Amadores de Alter do Chão, depois da atuação a 13 de agosto em Monforte. Talvez seja este um alerta para o excesso de grupos existentes em Portugal, em função do número de espetáculos realizados. Este excesso de grupos implica uma menor rotatividade e forcados menos preparados, o que leva a que situações como a vivida pelo grupo de Alter possam acontecer.

Em último lugar neste balanço, mas não por ser menos importante (pelo contrário…), resta falar daquele que é o rei da festa: o Toiro. Foi um ano em que o campo bravo português evidenciou um elevado nível qualitativo, sendo várias as corridas de nota superior a que se assistiu em 2022 sendo dessa forma impossível nomear, por uma questão de justiça, aqueles que mais se destacaram.

Tem assim epílogo aquele que se deseja o primeiro de muitos capítulos desta rubrica que se tenciona semanal com o propósito de analisar os temas mais pertinentes da atualidade tauromáquica e dar destaque aos momentos de maior relevo da temporada 2023.

Termino com votos de um ano 2023 cheio de triunfos, a nível taurino e não só e que mais um ano possamos desfrutar do melhor que a nossa tauromaquia tenha para nos oferecer.
Saudações Taurinas!

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