Bom toureio mas pouca emoção

Crónica

No dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, celebrou-se a tradicional corrida de toiros em Reguengos de Monsaraz, num dia atípico no que concerne às condições meteorológicas, uma vez que o calor abrasador que se costuma fazer sentir nesta altura do ano nesta localidade, deu lugar a uma tarde cinzenta, em que os leques que costumam integrar a indumentária das senhoras, foram substituídos por casacos e agasalhos que aconchegaram os muitos aficionados que acudiram a este espectáculo.

Um cartel rematado, como é timbre da empresa Verdadeira Festa de Vasco Durão, composto por duas das maiores figuras mundiais do toureio a cavalo, João Moura e Pablo Hermoso de Mendonza, e por outra figura que se vem afirmando tarde após tarde, João Moura Caetano, que mostrou em Reguengos o porquê de estar integrado num cartel de tamanha responsabilidade, completando o elenco os Grupos de Forcados Amadores de Montemor e Monsaraz, para lidarem e pegaram seis toiros da divisa dos Irmãos Moura Caetano.

O público acudiu a este atractivo e arrojado cartel e preencheu três quartos fortes da praça José Mestre Baptista.

Antes do início do espectáculo, foram rendidas justas homenagens a João Moura pela comemoração dos seus 40 anos de alternativa, bem como a Manuel Correia, tendo sido cumprido um minuto de silêncio em memória deste último.

Na arena da praça alentejana saiu um anunciado curro de Maria Guiomar Cortes de Moura, propriedade dos Irmãos Moura Caetano, com apresentação condigna para o tauródromo em questão, com excepção do saído em terceiro lugar que além de pequenote estava escorrido. Quanto ao comportamento, serviram para o triunfo dos artistas, foram nobres, suaves, colaboradores e apresentaram mobilidade, no entanto, na generalidade faltou-lhes  força e transmissão, de modo a dar maior dimensão aos triunfos obtidos pelos toureiros.

Talvez por isso, o público tenha estado um pouco alheado do bom toureio que se viu em Reguengos, apenas “aquecendo” a espaços com alguns pormenores das lides de Pablo Hermoso de Mendonza.

Iniciou a função o mais veterano da terna, João Moura, que mais uma vez demonstrou toda a sua classe e genialidade.

No seu primeiro, após se ter dobrado bem e deixado dois bons compridos à tira, iniciou uma lide onde ficou patente toda a sua maestria, mexendo bem no oponente , cravando em terrenos de compromisso bons ferros curtos, tendo finalizado com dois excelentes ferros de palmo. Foi uma lide em crescendo, que ainda assim não chegou como deveria às bancadas, devido à falta de transmissão do toiro que lhe tocou.

No seu segundo, um exemplar bem rematado, sério e mais reservado que o primeiro, o Maestro de Monforte não quis deixar os seus créditos em mãos alheias e após alguma dificuldade na colocação dos compridos, devido a defeitos claros na ferragem, protagonizou uma lide também ela de bastante valor, com destaque para os ferros colocados em terceiro e quarto lugar a entrar nos terrenos do toiro, mostrando que é um toureiro sério que nunca quer defraudar o público.

Se houve um triunfo maior nesta corrida, ele pertenceu a Pablo Hermoso de Mendonza.

É um toureiro que tem uma conectividade especial com o público português, que o acarinha como a nenhum outro.

Abriu o mote no seu primeiro toiro, com uma lide com princípio meio e fim, baseada num toureio ligado, sem tempos mortos, com sortes superiormente preparadas e rematadas.

Cedo reparou que a força não abundava no toiro que lhe calhou em sorteio, tendo praticado um toureio suave de forma a conseguir que o oponente tivesse a durabilidadenecessária para poder executar a faena que levava idealizada.

Apesar do bom toureio que se viu, também esta lide não chegou ao público como devia, muito por culpa da falta de transmissão do hastado nos momentos de reunião.

Na sua segunda lide, abriu o livro e conseguiu elevar ainda mais a fasquia, com um toureio baseado numa brega de distâncias ajustadíssimas, coroada com bons ferros em sortes executadas ao piton contrário.

Foi uma lide recheada de pormenores de bom gosto, onde imperou o galope a duas pistas na preparação das sortes, com mudanças de direcção simplesmente deliciosas, que chegaram ao público que aplaudiu o Cavaleiro de Navarra em pé.

Não se adivinhava fácil a tarefa de João Moura Caetano, apertado entre dois “figurões” do toureio mundial, e saindo depois da apoteose de Pablo, no entanto, o cavaleiro de Monforte não se quis ficar atrás dos seus colegas e andou também ele francamente bem.

No seu primeiro, dobrou-se superiormente com o toiro que lhe calhou em sorte para colocar os compridos da ordem. Quando à ferragem curta, desenhou uma boa lide onde imperaram as preparações criteriosas das sortes, tendo estas resultado de belo efeito, com o cavalo a tirar-se muito bem no momento do ferro.

Se tinha estado bem na primeira lide, melhor esteve na segunda.

Montando o seu cavalo estrela, deliciou os presentes com um toureio ao ralenti, onde imperou uma “brega” a curtas distâncias, culminado com reuniões ajustadas e precisas com suaves batidas ao piton contrário.

No capítulo das pegas , as duas formações não tiveram problemas em pegar os seis toiros, efectuando seis pegas à primeira tentativa. É certo que os toiros foram suaves e que não deram um único derrote, mas também não é menos verdade que os Grupos não complicaram o que parecia fácil.

Assim,  pegaram por Montemor José Maria Vacas de Carvalho , Vasco Carolino e Francisco Borges, por Monsaraz Paulo Caturra, Miguel Valido, e Hugo Torres.

Em jeito de resumo, foi uma corrida com grandes momentos de toureio, mas que os triunfos dos toureiros não tiveram a expressão devida junto do público, uma vez que faltou o ingrediente fundamental numa corrida de toiros – EMOÇÃO.

Todos sabemos que o encaste “murube “ é um encaste que é do agrado dos toureiros porque lhes permite realizar um certo tipo de toureio que outro tipo de toiros não permite, mas também não é menos verdade que a falta de “som” e agressividade nos toiros saídos na arena de Reguengos de Monsaraz, fizeram com que a generalidade das lides não chegasse ao público como deveria ter chegado, tendo este saído da praça em consonância com o tempo frio que se fazia sentir.

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