As outras figuras por quem sou

Crónica

Ouve-se com frequência que vivemos uma época privilegiada de figuras. Não tendo ainda idade que me permita, com rigor, comparar com outras épocas e figuras distantes, tendo a concordar com esta afirmação. De facto, sem um grande esforço de memória conseguimos indicar cinco ou seis toureiros excepcionais, dos chamados “de época”, que conseguimos ver em simultâneo nos tempos que correm, com maior ou menor dificuldade para a carteira.

Lembro-me de Juli, como maior mandón, Ponce  o maestro supremo, José Tomas num plano à parte de tudo o que já se viu, Morante e a sua genialidade, as explosões de empaque de Manzanares e o cada vez mais surpreendente e perfeito Talavante. Temos ainda Perera, Castella, Roca Rey e outros que vão “batendo à porta” como Lopez Simon, Ginés Marin, ou José Garrido. Esta será, sem dúvida, uma época (e falo de época não enquanto ano taurino, mas enquanto espaço temporal alargado) de muitas figuras, com maiores ou menores defeitos que esta mesma época possa ter. Sejam os toiros mais ou menos agressivos, sejam as escolas taurinas mais ou menos “castradoras” da personalidade, seja a técnica do toureio mais ou menos “enganadora”, mas esta parece ser de facto uma grande era de figuras.

Mas não é destas que quero tratar hoje. Hoje venho por toureiros que me apaixonam tanto ou mais, muitas vezes, do que as figuras de que falo acima. Toureiros que tantas vezes rareiam, porque poucos são como eles e porque muito mais vezes estão fora do que dentro das ferias. É quando vejo estas “figuras” que espero o verdadeiro “milagre” do toureio acontecer na sua plenitude. Na surpresa de cada muletazo, artista, profundo ou templado e na surpresa do “murro na mesa”, do “aqui estou eu”, da faena de cante grande, protagonizada por alguém de quem nem tantos esperavam tanto. É esse o milagre do toureio na sua plenitude.

Falo de toureiros como Curro Diaz, a “figura entre los demás“. São dele os melhores começos de faena de todo o escalafón e tem ainda o pellizco e naturalidade dos eleitos. Navegando entre “águas” mais “duras” e outras mais “dóceis”, podemos vê-lo cada vez mais a gosto com o encaste Santa Coloma, o que representa um refúgio de arte nestas corridas em que a “guerra” tantas vezes supera a classe.

Mas se falamos de naturalidade no caso de Curro Dias, não poderiamos nunca esquecer aquele que é o sumo representante desta forma tão particular de tourear. Esse “torear como en el pateo de su casa”, essa quase impossível descontracção, da muleta assente nos nós dos dedos e do peito a girar sobre a cintura. Falo, de Juan Mora, um dos herdeiros do Faraón de Camas no que às formas diz respeito. Voltou às bocas do mundo há um par de anos, quando os Deuses do toureio se puseram a vê-lo tourear numa tarde de Madrid. Ainda o espero, esperamos todos os que o vimos, a voltar a fazer o que fez naquela tarde inesquecível.

A coincidência e o bom gosto taurino levaram a que o terceiro toureiro dessa tarde mágica fosse, além dos dois previamente citados, Morenito de Aranda. Um toureiro com uma expressão, temple e mão esquerda que fazem sonhar qualquer aficionado. Ele que parece sempre pronto a dar um abanão à praça de Madrid, em jeito de recordação de como se faz o “toureio grande”, falta-lhe no entanto a consistência, e eventualmente os toiros, que lhe permitam fazer esse toureio tão sublime em muito mais praças, pelo verão fora, mas é daqueles que, quando toureia verdadeiramente a gosto, aproxima o toureio da perfeição, se esta existir.

Do “mundo” das corridas toristas, salta-me à memória Pepe Moral. Um desses toureiros que não abdicou dos sonhos em anos de esquecimento, nem do conceito em anos de fiereza. Além da expressão que lhe chegou dos genes andaluzes, tem a grande virtude (e verdadeiro segredo dos olés mais cantados nas bancadas) da profundidade no toureio. A sua faena ao toiro Amapolo, Miura, da última feira de Abril é um desses milagres de que falávamos acima. Poucos na história terão toureado tão bem um dos de Zahariche.

De entre a privilegiada geração (poucas gerações de novilheiros terão tido toda esta qualidade) que nos trouxe Roca Rey, Garrido ou Ginés Marín, é um nome bem menos sonante o que mais me “fala” ao coração. Da zona do levante e ainda muito pouco visto como matador, Jonathan Varea é aquele que tem um toureio mais pessoal. De sabor agitanado, e carregado de sentimento, é daqueles “toureiros de arte” que sempre se esperam, sem que se saiba bem o que esperar. Assim tenha e aproveite as oportunidades que lhe dêem, e pode vir a ocupar um lugar muito especial no coração dos amantes do toureio de inspiração.

Guardo para o fim aquele que é para mim, infelizmente, um dos segredos mais bem guardados do toureio. Verdadeiro diamante, não por lapidar, mas por descobrir. Quem o conhece sabe que não minto quando digo que é um compêndio da arte de bem tourear. Toreria, pureza, estética, valor, temple, profundidade, arte. A ele cabem-lhe tantos adjectivos quanto aqueles que juntam o toureio à magia. É um toureiro sem limites para o que pode fazer. Não nascem todos os dias matadores assim. Talvez um a cada 10 anos. Fernando Cruz é um desses. Um dos homens que foram feitos para fazer arte com uma muleta na mão. Não fossem os ciúmes que os Deuses da Sorte sentem do amor que as Musas do Toureio lhe “entregaram” e seria Fernando Cruz uma dessas figuras que os poetas cantam, dos que ficam por anos na memória. Dos que ficam por anos em cartéis pendurados como quadros pelas paredes.

Cada vez mais são estes os toureiros com que sonho. Cada vez mais são estes que me levam às praças. No fim de contas é neles que recai a secreta esperança de ver aquela aquela improvável faena sonhada. Que se lhes abram as portas dos cartéis, para que possam eles abrir as portas do triunfo.

 

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