ARTe

Crónica

Confesso que quando me lembrei de escrever este artigo fiquei algo reticente em relação ao tema. Escrever sobre uma só pessoa motiva a acusações de facciosismo, de ser seguidor de um estilo, de desconsiderar outros… porém, acho já ter deixado bem claro em artigos anteriores que sou aberto quanto aos estilos e não sou partidário de nenhum em especial, só do bom gosto. Há, no entanto, um Homem, quanto a mim, Figura Máxima do Toureio, que merece a minha homenagem e consideração no decorrer da presente temporada: António Ribeiro Telles!

O António tem 54 anos e cumpriu há 4 dias 34 de alternativa, toureia em público há mais de 40 (apresentou-se em Salvaterra em 1975). Podia, pelo tempo que tem de toureio e “status” adquirido, andar acomodado, tourear uma dúzia de corridas com toiros escolhidos, espetar a ferragem da ordem com a classe e sapiência que o caracterizam e ir tranquilo para casa, deixando um ar da sua graça. Isto justificava perfeitamente a enorme paixão que tem pelo cavalo e pelo toiro, e o gosto por tourear. Mas não, António tem para além do mais, um respeito desmedido pelo público, pelo toiro bravo e pelo seu conceito de toureio… e com 34 anos anos de alternativa é quanto a mim o único triunfador português já anunciado a meio da temporada de 2017, passe o que se passar daqui em diante, António Ribeiro Telles é já um dos grandes triunfadores!

As suas primeiras actuações que me lembro bem são do tempo do “Gabarito” e do “Sal e Pimenta”, entrava pelos toiros adentro sem engano para cravar ferros que os que tiveram a sorte de o ver jamais esquecerão. Há quem considere o “Sal e Pimenta” do mesmo nível do “Gabarito”, para mim não, o lazão torrado era muito melhor no momento do ferro, saía muito mais redondo e com uma expressão linda, foi sem dúvida dos melhores cavalos de toiros que vi. António e o seu irmão João foram as primeiras referências que vivi mais de perto, dos primeiros cavalos que o meu Pai vendeu para tourear foram para a Torrinha, e era um deleite ir e sentir o campo, o toureio e a equitação nesta casa. António é tudo isto, há algum toureiro mais “campero”, que traga para a praça mais expressões e lides do campo? Mas há também algum com uma monte mais fina, com uma figura mais bonita a cavalo? Que agradável é poder ver o António a passear a sua classe numa das suas montadas pelo São Martinho na Golegã! A isto junta um toureio puro e verdadeiro, e quando tem o cavalo que aguenta o sítio do ferro dele, as coisas resultam com tanta verdade e emoção que é muito difícil igualar.

É inegável que já desperdiçou triunfos e até cavalos que seriam muito bons por apenas conceber este conceito puro e clássico do Toureio à portuguesa. Mas eu, a António Ribeiro Telles, não achava piada se começasse a cravar pares de bandarilhas e a fazer números de rejoneio…

Depois dos cavalos que mencionei, penso que conseguiu atingir o nível máximo com o “Iraque” de ferro Varela Crujo que, para além de lindo, foi o cavalo mais expressivo e habilidoso com que o vi tourear, compensava alguma fragilidade física com essa habilidade desmedida. Depois o Mágico, um lazão de ferro Lupi d’Orey, poderoso que galopava muito bem, podia com os toiros e aguentou como muito poucos o sítio do seu ginete, ia muito recto direito ao oponente e permitia cravar ferros daqueles que nos levantávamos instintivamente da bancada para aplaudir! Infelizmente partiu uma mão numa corrida em Logroño e terminou prematuramente a sua carreira. Posteriormente teve o “Pintor”, um castanho que também desenhou a sorte na perfeição mas não durou tanto tempo, a verdade é que o sítio que António idealiza é muito difícil aos cavalos aguentarem, a partir de certa altura começou a “atravessar-se” ligeiramente e não voltou a ser o mesmo, mas enquanto suportou, foi dos melhores com que o vi tourear. Muitos cavalos bons têm passado pelas suas mãos e lhe têm dado grandes triunfos e alegrias, mas aqueles a que fiz referência são os que mais me marcaram desde que me lembro de o ver tourear.

Actualmente tem o “Alcochete” com o ferro do Dr. Carlos Ferreira, curiosamente (ou não) filho do “Iraque”, que é quanto a mim um cavalo do nível dos que já mencionei. Tem também um cavalo com o Ferro Brito Paes, cujo nome desconheço, que lhe tem permitido actuações muito positivas e que tenho visto em crescente ao longo da temporada.

O que a mim me surpreende é que ao fim de tantos anos, com créditos já firmados, estatuto de figura e reconhecimento geral, o António, quando tem um cavalo que lhe permite tirar o máximo partido do seu conceito, continue com as mesmas ganas de triunfo, com igual “coração” que lhe permite arriscar ao máximo indo ao sítio onde se conseguem os grandes triunfos, mas onde se podem dar as mais violentas colhidas! Este ano, as actuações de Salvaterra, Évora e Lisboa são autênticos hinos à Arte de tourear a cavalo, plenos de noção de lide, estética e emoção! Ao nível do melhor que vi na minha vida. Por isto, para além de toda a sua trajectória, merece este meu artigo, em jeito de homenagem.

Dever-me-ia ter referido ao visado neste artigo, pela deferência que merece, como Maestro António Ribeiro Telles. Mas, apesar de educadíssimo e do fino trato, inclusivamente com os seus pares (nunca o ouvi desrespeitar ou falar menos bem de um colega), a humildade, naturalidade e simplicidade do Maestro é de tal ordem que penso que se sente bem e faz quase todos os aficionados e amigos sentirem-se à vontade a tratá-lo por António.

Maestro António Ribeiro Telles, muito obrigado por todas as tardes que me tem feito desfrutar do seu Toureio ao longo de tantos anos, e muitos parabéns pela época que está a fazer, onde tem sido um exemplo de conhecimento e experiência, e acima de tudo de verdade e emoção que tantas vezes tem faltado na nossa Festa!

Ultimos Artigos

Artigos relacionados