Arte de bem pegar em Montemor

Após alguns anos de interregno realizou-se uma vez mais a tradicional corrida de toiros da Barra de Ouro na castiça Praça de Toiros de Montemor-o-Novo. Desta vez Montemor não foi “Praça Cheia”, mas ainda assim registou ¾ de casa, de um publico que durante toda a tarde se mostrou um tanto ou quanto amorfo no que toca a manifestar-se no decorrer das lides.

Em ano de aniversário do Grupo de Forcados Amadores de Montemor (80 anos cumpridos) alguns antigos elementos decidiram, e bem, organizar esta corrida cuja a receita reverteria para o Grupo.  Dividiram tarefas que resultaram numa organização notável. No intervalo da corrida foi sorteado entre os presentes na bancada, um poldro PSL da Coudelaria de João Pereira Lynce (antigo elemento do GFAM)e 500kg de ração Intacool, que tocou em sorte ao famoso aficionado Guilherme “Telles” do Sobral de Monte Agraço.

O cartel, como não podia deixar de ser na Barra de Ouro, contou com a presença dos dois Grupo mais antigos de Portugal: Grupo de Forcados Amadores de Santarém e Montemor, que disputavam o troféu para melhor prestação. A cavalo António Ribeiro Telles, Luís Rouxinol e Filipe Gonçalves. À praça saíram 6 toiros da mítica Ganadaria Palha, de apresentação irrepreensível e comportamento variado.

No computo geral António Ribeiro Telles sentiu muitas dificuldades no seu lote. O primeiro era bastante reservado, o segundo o maior da corrida, “um taco” que também não facilitou a vida ao Maestro da Torrinha. Se a abrir a corrida, António Ribeiro Telles deu a lide que foi possível ao oponente, já no quarto da tarde, frente a um toiro que pedia a entrega total que António lhe deu, o cavaleiro esteve primoroso na preparação dos ferros, escolhendo terrenos com sabedoria e demonstrando todo o seu profissionalismo. No entanto, este não conseguiu que a lide resultasse redonda devido a alguns toques fruto das bruscas investidas do Palha.

Luís Rouxinol foi, no que toca à lide a cavalo, o ginete triunfador, se assim o podemos dizer. Isto porque o público montemorense pouco ou nada reagia aos momentos mais emocionantes, estando pouco participativo e caloroso ao contrário daquilo que nos habitou. Rouxinol no seu primeiro, bregou com a sabedoria que os anos de alternativa lhe conferem e cravou corretamente, onde destacamos o segundo curto, tendo terminado com um de palmo sem conseguir chegar verdadeiramente ao público. O seu segundo toiro, que apesar de se ter refugiado em tábuas logo cedo, conseguiu imprimir-lhe o seu cunho tão característico, com o seu cavalo “Douro” e a lide resultou alegre com remates dos ferros bastantes ajustados. Terminou com o habitual par de bandarilhas e um ferro de palmo.

Filipe Gonçalves andou correto durante as suas duas lides, na primeira lide esteve discreto sem romper, onde provavelmente poderia ter terminado com mais um ferro. No segundo toiro, com uma lide brindada ao seu colega Rui Fernandes, o cavaleiro imprimiu outra energia que resultou numa agradável lide, variada com ferros de todos os tipos, onde se destacou na brega, cravagem e remate das sortes. Até a efusividade habitual de Filipe Gonçalves sentiu dificuldades em levantar o público do seu lugar.

No capítulo das pegas o abriu praça o mais antigo Grupo do país, GFA de Santarém, capitaneados por João Grave. O próprio chamou a si a responsabilidade da 1ª pega da tarde, que apenas resultou à 2ª tentativa devido à falta prontidão da investida do toiro. Esteve correto e discreto no cite num toiro brindado ao público. O 3º toiro foi pegado por Francisco Graciosa, que após um brinde ao GFA Montemor efetuou uma vistosa pega com o toiro a empurrar até às tábuas, muito bem no cite, a recuar e a reunir. O último do GFA Santarém tocou em sorte ao experiente Lourenço Ribeiro, que à imagem do anterior colega também conseguiu na perfeição realizar os tempos da pega, onde se destacou a ajuda do chamado à arena 1ª ajuda José Fialho.

O Grupo da terra, capitaneado por António Vacas de Carvalho, que acabou por sair o grande triunfador da tarde, pelo troféu que estava em disputa, efetuou um pleno, 3 pegas à 1ª tentativa. Pelos Amadores de Montemor, João da Câmara abriu com “chave d’Ouro” uma pega de plena técnica, fez transparecer fácil a arte de pegar toiros. Ao consagrado Francisco Borges, tocou-lhe o maior e mais sério da corrida, não se antevia uma pega fácil… mas quem tem a arte de Francisco Borges consegue sacar “tudo” aos toiros. A pega resultou limpa, com o toiro a acobardar-se na viagem, pois após uma investida a medir, o forcado “encheu a cara” ao toiro e o grupo ajudou eficazmente. Há quem defenda que devia ter alegrado a investida do toiro, e que assim tirou brilho à pega, eu acredito que Francisco quis fazer exatamente o que se passou.

Fechou a tarde Francisco Barreto, que pegou sem dificuldades de maior, conseguindo assim que os aniversariantes octogenários do Grupo de Montemor fossem os vencedores da Barra D’Oiro. Francisco Barreto ao sair do toiro acabou por fraturar o braço quase inexplicavelmente.

Uma palavra especial às ajudas e rabejadores dos dois grupos que estiveram ao nível que lhes compete, o máximo. Termino realçando a “prestação” que já vem sendo hábito do ajuda António Cortes Monteiro, que uma vez mais demonstrou o seu extraordinário momento de forma.

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