Aqueles que memorizavam números, endereços, itinerários não eram mais perspicazes: dominavam uma habilidade perdida em 2007, nunca substituída desde

A nossa memória pode não estar a declinar; na verdade, pode estar apenas a ser menos exercitada. As gerações anteriores não possuíam uma **memória excepcional**. Viviam num mundo que as forçava a reter, a repetir e muitas vezes a transmitir informações.

Números de telefone, endereços, itinerários e horários, à força de os usarem, acabavam por se gravar na memória.

No entanto, **o ambiente mudou**. Com a chegada dos smartphones, a partir de 2007, esta rotina de memorização começou a desvanecer-se. Uma capacidade que era vital transformou-se numa habilidade quase opcional.

Antes, memorizar era parte integrante da vida diária. Era necessário conhecer o número de telefone dos amigos ou o trajeto para não se perder. Era importante recordar aniversários, horários e informações administrativas, como o número de segurança social.

As pessoas de antes não eram mais inteligentes do que as de hoje; elas apenas treinaram uma habilidade que o nosso mundo moderno já não exige de forma tão constante.

Uma habilidade esquecida que as gerações anteriores treinavam sem perceber

As gerações que precederam a era do smartphone aperfeiçoaram uma capacidade de memorização quotidiana. Retinham números de telefone, endereços, itinerários e pequenos detalhes. Não por serem mais inteligentes, mas porque o seu **ambiente as obrigava a praticar essa habilidade** constantemente.

Como qualquer competência, esta memória precisava de ser mantida através da repetição. Discar regularmente o mesmo número ou fazer repetidamente um trajeto bastava para inscrever a informação de forma duradoura.

Uma habilidade esquecida? Não totalmente, mas sem dúvida muito menos utilizada.

Começámos a confiar a nossa memória aos dispositivos

Os psicólogos falam de **descarregamento cognitivo** quando uma parte do trabalho mental é delegada a um suporte externo.

Este fenómeno não é recente. Platão já se preocupava com as consequências da escrita na memória. Mais recentemente, as calculadoras geraram debates semelhantes nas escolas.

Recordo também uma anedota atribuída a Einstein. Ele teria recusado a memorização de certas informações acessíveis nos livros, defendendo que a mente deveria concentrar-se em pensar, em vez de acumular dados disponíveis em outros lugares.

Nesse contexto, a lógica é válida. Delegar certas informações a ferramentas não nos torna menos inteligentes. Contudo, ao deixarmos de utilizar regularmente uma capacidade, ela começa a enfraquecer.

Uma boa memória não indica uma inteligência superior

Quando alguém recita de cor o número de telefone de um amigo conhecido há três décadas, pode parecer que essa pessoa possui uma memória excepcional.

Na realidade, é provável que esta informação tenha sido repetida centenas ou milhares de vezes, numa época em que a alternativa era procurar o número num caderno.

As gerações mais jovens estão a desenvolver **novas automações**. Segundo uma pesquisa do Pew Research Center, a maioria dos jovens adultos utiliza ferramentas de inteligência artificial conversacional.

Eles aprenderam a pesquisar informações, formular questões, comparar respostas e determinar rapidamente qual delas parece relevante.

A memória foi substituída pelo acesso

Aqui se encontra a diferença essencial. A memória diária de outrora não foi efetivamente substituída por uma nova forma de memorização equivalente, mas foi substituída pelo acesso instantâneo à informação.

Acessar uma informação e realmente conhecê-la não são exatamente a mesma coisa.

Quando o GPS nos orienta até um destino, podemos fazer o trajeto sem construir uma representação mental sólida dos locais. Quando um calendário organiza os nossos compromissos, podemos viver a semana sem recordar a sua organização.

Os pesquisadoress falam em **cognição distribuída**, onde parte do trabalho mental não é mais exclusivamente realizada pelo nosso cérebro, mas pelos dispositivos que nos cercam.

O que esta habilidade perdida nos ensina

A geração que decorava números de telefone não era mais brilhante; era apenas mais prática, adaptando-se a um mundo onde a memorização era crucial.

A verdadeira questão não é se devemos lamentar essa **habilidade perdida**, mas o que precisamos reter do que atualmente estamos a deixar de lado.

Cet article est proposé à titre informatif et de réflexion. Il ne constitue en aucun cas un avis médical, psychologique ou professionnel. Les notions évoquées s’appuient sur des recherches publiées ainsi que sur des observations éditoriales, et ne résultent pas d’une évaluation clinique. Pour votre situation particulière, veuillez consulter un professionnel qualifié.

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