Aposentadoria no exterior: a felicidade de uma nova vida, o peso da solidão

A ideia de **desfrutar da aposentadoria no estrangeiro** cativa um número crescente de franceses. Atraídos pelo clima mais ameno, custos de vida frequentemente mais baixos e um ritmo de vida mais tranquilo, a **expatriação** surge como uma esperança de renovação. Entretanto, por trás desta fachada encantadora, há uma realidade mais complexa. Mudar de país não implica, necessariamente, na mesma abundância de relações sociais. Muitos aposentados que se estabelecem no exterior relatam grande satisfação com sua nova vida, mas reconhecem sentir-se **mais solitários**. Este paradoxo é surpreendente, mas demonstra que um ambiente agradável não substitui, de forma automática, as **relações humanas construídas ao longo dos anos**.

Portanto, **o sucesso da aposentadoria no estrangeiro** não depende apenas do sol, das paisagens ou de um orçamento mais confortável. Mudar-se pode aumentar o poder de compra, proporcionar habitações mais espaçosas e permitir o desfrute de um ambiente mais tranquilo. Apesar desses benefícios, muitos se dão conta de que **recriar um círculo de amigos, hábitos sociais e laços de proximidade** se tornou bastante desafiador, especialmente quando se considera que esses laços foram desenvolvidos durante várias décadas.

Este texto não substitui aconselhamentos médicos. Analisamos resultados de estudos científicos para compreender melhor suas revelações e limitações.

Pesquisas revelam uma realidade aparentemente contraditória.

Por um lado, diversas investigações feitas com aposentados expatriados mostram que avaliam de forma positiva a sua qualidade de vida em seus novos países. Por outro lado, uma significativa pesquisa publicada em 2025 com aposentados neerlandeses revela que aqueles que optaram por viver no exterior afirmam sentir mais solidão do que aqueles que permaneceram na Holanda.

Esses achados, embora contraditórios, não são incompatíveis. A satisfação com a vida está ligada a diversos fatores como clima, segurança financeira, liberdade, lazer e a sensação de ter feito a escolha certa. A solidão, por sua vez, aborda uma dimensão diferente: a qualidade das relações e o sentimento de ser cercado por pessoas nas quais se pode confiar.

Em outras palavras, é absolutamente possível que alguém aprecie a aposentadoria no estrangeiro e a nova vida sob o sol, ao mesmo tempo em que sinta falta dos laços estabelecidos com família, vizinhos e amigos de longa data. As vantagens materiais de uma expatriação podem melhorar o dia a dia, mas não substituem instantaneamente a rede de relações que, muitas vezes, conferem à aposentadoria boa parte de seu sentido e realização.

O que a pesquisa neerlandesa realmente revela sobre a aposentadoria no estrangeiro

Os dados mais robustos sobre a aposentadoria no estrangeiro provêm de um estudo publicado em 2025 na revista Psychology and Aging. Realizado pela pesquisadora Esma Betül Savaş e seus colegas, a pesquisa analisou a situação de 4.995 aposentados neerlandeses em 40 países, comparando-a com a de 1.338 pessoas com idades entre 66 e 90 anos que permaneceram na Holanda.

Todos os participantes que emigraram deixaram seu país após completar 50 anos. Os pesquisadores deliberadamente ignoraram aqueles que se estabeleceram na Bélgica ou na Alemanha, uma vez que tais mudanças geográficas costumam facilitar a manutenção de laços sociais com o país de origem.

O objetivo não era determinar se os aposentados eram felizes, mas sim compreender como sua rede social evoluía após se estabelecerem no exterior.

Duas formas de solidão muito distintas

O estudo distingue duas realidades frequentemente confundidas.

A solidão emocional refere-se à ausência de um relacionamento íntimo, como um cônjuge, um parceiro ou uma pessoa de confiança com quem compartilhar emoções.

A solidão social trata da vastidão e qualidade da rede social. Ela envolve a capacidade de contar com diferentes pessoas em momentos difíceis, receber apoio concreto ou simplesmente ter contatos próximos com os quais se possa ter trocas regulares.

Esta distinção é crucial, pois uma pessoa pode desfrutar de um relacionamento amoroso saudável e, ao mesmo tempo, ter um círculo social restrito.

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Aposentados satisfeitos, mas com uma rede social mais frágil

Imagens Pexels e Freepik

Os resultados mostram que os aposentados expatriados não sofrem mais de solidão emocional do que aqueles que permaneceram na Holanda. Porém, eles relatam uma frequência maior de solidão social.

Assim, 65% dos aposentados vivendo no exterior afirmam que podem contar com várias pessoas em caso de necessidade, contra 71% entre aqueles que permaneceram em seu país.

Analogamente, apenas metade dos expatriados afirmam confiar plenamente em um número elevado de pessoas, enquanto 61% dos não expatriados o fazem. As respostas sobre a quantidade de amigos disponíveis em caso de necessidade seguem a mesma tendência.

Essas diferenças são sutis, mas evidenciam que uma mudança internacional pode dificultar a manutenção de uma rede social forte.

Um estudo interessante sobre a aposentadoria no estrangeiro, mas que apresenta limitações

Os próprios autores sublinham que seus resultados devem ser interpretados com cautela.

Trata-se de um estudo denominado “transversal”, ou seja, que observa uma situação num dado momento. Portanto, não é possível concluir que a expatriação é a causa direta da solidão observada.

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Os pesquisadores também não têm informações sobre a situação social dos participantes antes de sua partida. Algumas pessoas podem já ter se sentido isoladas antes de deixar seu país.

Além disso, o estudo se concentra exclusivamente em aposentados neerlandeses. Portanto, os resultados não podem ser automaticamente generalizados para todos os aposentados expatriados, especialmente os franceses, cujos percursos, destinos e hábitos de vida podem diferir.

Por fim, a pesquisa não leva em conta indivíduos que escolheram retornar ao seu país após uma experiência de expatriação difícil.

Felicidade e solidão não medem a mesma coisa

Esses resultados não contradizem os numerosos estudos que demonstram que aposentados no exterior estão, de maneira geral, satisfeitos com sua nova vida.

Uma revisão científica publicada em 2023, que abrangeu 90 estudos sobre migrações internacionais de aposentados, conclui que a maioria dos expatriados avalia positivamente sua qualidade de vida.

Contudo, os autores realçam uma limitação importante: nenhuma das pesquisas analisadas comparava diretamente os aposentados expatriados com aqueles que permaneceram em seus países de origem. Por isso, não é possível afirmar que a aposentadoria no estrangeiro proporciona um bem-estar maior do que uma aposentadoria vivida no país natal.

Uma outra revisão de literatura, publicada em 2021, por Yuan Tang e Tara Rava Zolnikov, apresenta conclusões semelhantes após a análise de 22 estudos realizados na Europa, América, Ásia e África. Os aposentados costumam apreciar o clima, o custo de vida, o acesso aos cuidados de saúde e o ritmo de vida. No entanto, as dificuldades ligadas à língua, à integração local e à falta de apoio são frequentemente mencionadas como principais desafios.

Dito de outra forma, é perfeitamente plausível que alguém se sinta feliz com sua escolha de vida, ao mesmo tempo em que percebe uma lacuna no aspecto relacional.

As relações sociais são construídas ao longo do tempo

A rede de relações de uma pessoa não se forma da noite para o dia. Amizades antigas, vizinhos, colegas ou familiares acumulam, ao longo do tempo, um conhecimento mútuo que facilita as interações e o apoio cotidiano.

Essas conexões não se desvanecem automaticamente ao se mudar para o exterior. Chamadas de vídeo, visitas e viagens costumam ajudar a mantê-las vivas. Contudo, a distância limita pequenos gestos que enriquecem a convivência, como tomar um café, prestar um pequeno auxílio, acompanhar alguém a um compromisso ou estar presente durante imprevistos.

Criar um novo círculo social é uma possibilidade, mas normalmente demanda vários anos.

Na aposentadoria no estrangeiro, novos amigos nem sempre substituem os antigos.

Os clubes, associações, atividades desportivas ou grupos de expatriados fomentam encontros e facilitam a integração. Contudo, construir uma genuína relação de confiança geralmente exige muito mais tempo do que apenas conhecer-se.

O estudo neerlandês revela que 52% dos aposentados expatriados afirmam ter **perdido contato com pelo menos um amigo próximo** desde a sua instalação no exterior.

Essa perda estava associada a um nível mais elevado de solidão social, mas também emocional.

Esse resultado não implica, evidentemente, que toda expatriação leva ao isolamento. Ele ressalta que novas relações e as antigas não desempenham exatamente as mesmas funções na vida cotidiana.

Na aposentadoria no estrangeiro, o casal não substitui um círculo social

Aposentadoria no Estrangeiro

A aposentadoria no estrangeiro é muitas vezes um projeto realizado a dois. No estudo, os aposentados expatriados costumavam viver com um parceiro mais frequentemente do que aqueles que permaneceram na Holanda.

De acordo com os pesquisadores, essa situação pode explicar por que a solidão emocional não é mais predominante entre os expatriados. A presença de um cônjuge oferece um suporte afetivo significativo.

Entretanto, mesmo um relacionamento amoroso sólido não pode substituir o conjunto de interações proporcionadas por uma rede social diversificada. Amigos, vizinhos, conhecidos, comerciantes ou membros da família oferecem cada um um tipo de apoio diferente. Quando essa rede se reduz, especialmente em situações de doença, luto ou dificuldades pessoais, essa fragilidade pode se tornar mais evidente.

Por este motivo, os pesquisadores enfatizam a importância de **distinguir entre solidão emocional e social**.

Misturar essas duas noções sob um mesmo rótulo obscurece realidades muito distintas e pode levar a conclusões simplistas sobre a experiência dos aposentados que vivem no exterior.

Este artigo é apresentado para fins informativos e reflexivos. Não se trata de um parecer médico, psicológico ou profissional. Os conceitos discutidos estão baseados em pesquisas publicadas e observações editoriais, sem conclusão clínica. Para sua situação particular, consulte um profissional qualificado.

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