António Telles e Murteira Grave triunfam em Salvaterra de Magos

Foi com céu nublado mas nada ameaçador com transição gradual a ensolarado logo a partir do 3º toiro e uma temperatura convidativa que decorreu esta corrida concurso de ganadarias em Salvaterra de Magos, apelidada de “Corrida dos Agricultores de Tomate”. As ganadarias que disputavam os prémios em disputa, nas vertentes de apresentação e bravura, seriam por ordem de saída, Miura, Palha, Veiga Teixeira, Murteira Grave, António Silva e Fernandes de Castro. Para lidar tão prometedor curro de toiros, estavam os cavaleiros António Telles, Filipe Gonçalves e Francisco Palha, enquanto que os grupo de forcados amadores de Santarém e Lisboa, capitaneados respetivamente por João Grave e Pedro Maria Gomes completavam o leque de artistas presentes.

Praça cheia, fugazmente salpicada de lugares disponíveis, algo que se apraz registar tendo em conta algumas “casas” bastante mal conseguidas nos tempos recentes. Nesta tarde homenageava-se o Exº Sr. João Ramalho, figura emblemática e ilustre ganadeiro de Salvaterra de Magos, grande aficionado que também foi forcado de qualidade no grupo de forcados amadores de Santarém. No intervalo da corrida, na arena, foram-lhe dedicadas algumas palavras de justo elogio proferidas por João Cortesão e posteriormente descerrada uma lápide, alusiva à ocasião, nas arcadas da praça após aplaudida volta à arena. Durante a tarde, todos os cavaleiros e grupos de forcados fizeram questão de brindar as 1ªs atuações ao homenageado. A empresa de Rafael Vilhais também prestou homenagem, no final da corrida, à ganadaria Miura pela passagem dos seus 175 anos de existência, através da oferta de uma lembrança recebida na arena pelo maioral desta ganadaria.

Era justamente da ganadaria Miura o 1º toiro que saiu à praça, com 5 anos e 605 Kg de peso, um salgado bragado corrido com uma presença a impor respeito e que foi espontaneamente aplaudido pelo público mal saiu dos chiqueiros. O cavaleiro António Telles recebeu o toiro tentando interessá-lo mais pelo cavalo, visto que denotava algum sentido pelos movimentos na bancada, através de 2 compridos bem conseguidos. Um bom curto inicial de António Telles não foi o suficiente para abrir as investidas do toiro que demarcava terreno nos médios e continuava sem se interessar pela boa brega que o cavaleiro ia tentando imprimir. O 2º curto, um ferro de frente e ao estribo terá sido a sorte de maior qualidade perante toiro tão pouco colaborante e serviu para escutar, justamente, música a premiar o seu labor. Nos 2 curtos finais, o toiro além de se defender nos terrenos por si eleitos já se adiantava pronunciadamente e pese a boa brega que o cavaleiro da Torrinha impôs, não foi suficiente para extrair mais “sumo” deste poderoso astado.

Para pegar este sério Miura, perfilou-se para a cara João Grave, cabo do grupo de Santarém. Forcado com inquestionáveis provas dadas, conhecedor dos terrenos e dos meios para tirar partido de uma pega, nesta tarde João Grave esteve abaixo do seu nível habitual. Na 1ª tentativa, o toiro arrancou com muito poder e não perdoou o facto do cara não se “sacar” o suficiente da forte investida, acabando por ser violentamente projetado no instante em que tentou reunir. Na 2ª tentativa teve tudo para consumar a pega após receber e se fechar bem mas a pouca decisão dos ajudas a não atacaram o toiro na zona que mais se impunha, impossibilitou o sucesso da pega num toiro cheio de poder e que não perdoava a mínima falha. A partir daqui o toiro aprendeu o que necessitava. Na 3ª tentativa, o forcado mandou bem no toiro mas este tirou-lhe a cara no momento da reunião, na 4ª tentativa já em curto e com ajudas carregada, o toiro entrou a fazer mal, “despachando” os forcados que lhe apareciam pela frente e acabou por ser numa 5ª tentativa com raça de forcado e o grupo a carregar nas ajudas que se resolveu este complicado problema. A volta apenas foi concedida ao cavaleiro António Telles que se limitou a agradecer a ovação que o público lhe concedeu.

O cavaleiro Filipe Gonçalves saiu à praça para receber o toiro da ganadaria Palha, um negro de córnea aberta e algo gravito, 500 Kg acusados na balança, com 5 anos e boa apresentação. Dois bons compridos acompanhados de brega adequada e boas colocações, com o toiro a colaborar nas investidas foram um bom pronúncio neste início de lide. Trocou de montada para os curtos e manteve a boa nota artística com uma brega bem ligada que culminou com a cravagem de um bom ferro frontal após viagem ao piton contrário. Nesta altura o toiro mudou de estado e perdeu gradualmente o comportamento voluntarioso antes demonstrado, já não correspondia à boa brega que Filipe Gonçalves tentava impor e adiantava-se em investidas que foram passando a ser apenas demarcações de terreno, apesar das tentativas do cavaleiro para alterar este comportamento com mudanças sucessivas de terrenos. Este labor foi compensado com música após um bom 4º curto, frontal com batida ao piton contrário. As condições de lide do toiro foram-se deteriorando e o resto desta atuação de Filipe Gonçalves decorreu sem algo mais de relevante a acrescentar.

Para a primeira intervenção do grupo de Lisboa, o forcado da cara escolhido foi Vítor Epifânio que esteve bastante correto e sereno frente ao Palha, carregou bem numa altura em que o toiro demonstrava nervosismo pela oposição e recuou corretamente, algo que já não conseguiu na reunião onde esteve a menos e acabou por sofrer forte embate que o fez cair inanimado na arena, tendo que ser transportado posteriormente à enfermaria da praça. Para dobrar o colega, saltou o forcado Duarte Mira que esteve tecnicamente perfeito com o toiro em todos os detalhes, recebeu muito bem e fechou-se numa viagem que não foi fácil já que o toiro fugiu para a direita do grupo que ainda assim acabou por recuperar rapidamente e fechar bem esta 1ª pega da tarde para o grupo de Lisboa. A volta foi concedida a Filipe Gonçalves e Duarte Mira, tendo este recusado a ida à praça. Chama-se a esta atitude, ter bons modos, um sinónimo de respeito pelo colega lesionado. Perante forte insistência do público o forcado acedeu a dar volta.

O 3º toiro da tarde, o maior da corrida, foi enviado pelo ganadeiro Veiga Teixeira. Toiro negro de 4 anos, 615 Kg de peso, bem apresentado, com cara e a “transpirar” seriedade. Francisco Palha recebeu o toiro com um ferro “porta da gaiola” e apesar do toiro não ter saído do curro nas condições ideais, algo desligado, o cavaleiro soube impôr a sua vontade ao oponente e acabou por resultar numa sorte emocionante que chegou de imediato ao público mas com um desfecho nefasto para cavalo e cavaleiro. Na tentativa de escapar à investida impetuosa do toiro, o cavalo levou violento toque contra as tábuas e ficou fisicamente condicionado, assim como Francisco Palha, tendo sido de imediato obrigado a recolher às cavalariças onde o cavaleiro trocou de montada e tentou recuperar da forte dor na perna. Neste espaço de tempo, o toiro foi sendo fustigado na arena com excessivos “capotazos” a ponto de o ajoelhar. Lamentável… Francisco Palha acabou por regressar à arena e reiniciar a lide. Após uma boa brega e preparação, uma grande sorte frontal no 1º curto, já no 2º curto o cavaleiro acabou por ter 3 passagens em falso e após cravar um toque na montada, numa altura em que já eram percetíveis os problemas físicos que o afetavam. Ainda assim, terminou a lide após cravar mais 2 curtos, sempre bem na brega e com preparação cuidada apesar do toiro dificultar cada vez mais a consumação das sortes, procurando o ferro na mão do cavaleiro.

Ruben Geovetti foi o cara escalado pelo grupo de Santarém para tentar a pega de caras a este poderoso Veiga Teixeira. Numa primeira tentativa em que efetuou um cite correto, mandou bem no toiro que foi de investida pronta, recuou mas não consentiu de modo a evitar uma reunião imperfeita em que não se conseguiu fechar e no derrote seguinte, difícil de aguentar para um cara descomposto e ainda sem ajudas, acabou vencido pelo toiro. Na 2ª tentativa, o Ruben esteve tecnicamente perfeito, voltou a mandar no toiro e desta vez recebeu muito bem, enchendo a cara ao astado. O grupo correspondeu com as peças a funcionarem corretamente do primeiro ajuda às terceiras sem dar hipótese ao oponente que conseguiu apenas empurrar até às tábuas. O diretor de corrida apenas concedeu volta ao forcado Ruben Geovetti que se limitou a agradecer nos médios com o tricórnio de Francisco Palha.

A iniciar a segunda parte da corrida entrou novamente em praça o cavaleiro António Telles para lidar o toiro pertencente à ganadaria Murteira Grave, preto meio bragado posterior de 5 anos que acusou 540 Kg na balança, possuía uma presença irrepreensível e que inegavelmente veio a ter um comportamento de qualidade durante toda a lide. Sem querenças pronunciadas nem comportamentos de imprevisibilidade, investida franca e nobre, colaborante e nunca elegendo terrenos favoráveis. Um belo toiro de lide. Logo desde os compridos, António Telles tratou de brindar o público com sortes muito bem preparadas através de uma brega de excelência, a manter uma boa ligação ao toiro, com toureio frontal sem enganos por vezes com entradas ao piton contrário, cravando ao estribo na maior pureza das regras e empregando todo o seu saber e experiência para aproveitar o bom toiro que lhe calhou em sorte. Foi uma lide plena de classicismo e onde não se vislumbrou minimamente trabalho em esforço, tudo transpareceu prazer e gosto num labor de elevada nota. Destaque para um muito bom 1º curto, ouviu música após o 2º curto e com o toiro sempre em crescendo e sem nunca desistir da “batalha” culminou a lide após um 5º curto extraordinário, sob forte ovação.

A 2ª atuação do grupo de Lisboa teve como forcado da cara Pedro Gil que esteve bem a citar e a provocar o Grave, mas não consentiu o necessário para evitar uma entrada baixa do toiro, às pernas, recebendo o toiro de modo descomposto e não se conseguindo fechar de pernas o que foi suficiente para, numa mangada para cima, ser vencido antes de conseguir entrar no grupo. Na 2ª tentativa, corrigiu esta imperfeição, “sacou-se” melhor ao toiro o que permitiu uma boa reunião e lhe permitiu fechar-se com perfeição, tendo posteriormente o toiro entrado pelo grupo que esteve coeso a ajudar. No final, volta concedida a António Telles e Rui Gil, sendo que o cavaleiro foi premiado com uma segunda volta à arena, já em solitário e bastante ovacionado pelo público.

O cavaleiro Filipe Gonçalves brindou a sua lide ao ilustre aficionado e criador de cavalos Salvaterrense, Gonçalo D’Ornelas, antes de iniciar a sua 2ª lide da tarde. O toiro que lhe calhou em sorte era da ganadaria António Silva, muito bem apresentado, com boa cara e sério como os restantes, preto de 570 Kg e que acabou por ser o único toiro de 4 anos nesta corrida. Teve um início de lide coreto com 2 bons compridos após preparações bem trabalhadas. Trocou de montada para a lide dos curtos que iniciou com uma boa brega a ladear seguida de curto frontal com batida ao piton contrário e que lhe valeu chegar de imediato ao público. Após uma boa preparação e cravagem no 2º curto o cavaleiro escutou música. Notava-se que imprimia uma velocidade excessiva à lide e tal veio a manifestar-se numa cada vez mais fraca ligação ao toiro. O António Silva já entrava noutro estado com perca de fulgor nas investidas, tornava-se mais passivo e foi-se apoderando parcialmente da arena. Após um 3º curto desastroso, a música parou, Filipe Gonçalves trocou de cavalo mas nem assim se entendeu melhor com o oponente durante esta lide, que acabou por ser de mais a menos e poderia ter aproveitado melhor algumas boas qualidades que o toiro demonstrou possuir no início da lide, eventualmente através de uma brega mais pausada e obtendo melhor ligação do cavalo ao toiro.

Para a última intervenção do Grupo de Santarém, coube ao jovem forcado Francisco Graciosa a tarefa de ir para a cara do Silva. Os detalhes que transpareceram foram de um forcado que citou o toiro bastante sereno e concentrado, soube mostrar-se ao toiro na zona da verdade e aguardar o momento deste se interessar verdadeiramente por ele, aguentando ligeiramente de modo a fixar o toiro antes de carregar e forçar uma investida mais franca que foi curta e lhe deu pouca margem para recuar, mas foi a margem suficiente. Esteve soberbo a receber e trancou-se bem e com convicção o que lhe permitiu uma viagem onde o toiro com a cara alta ia vencendo os ajudas até as terceiras, excelentes, fecharem já nas tábuas. O toiro, poderoso, ainda empurrou numa viagem de um quarto de praça a tentar livrar-se dos forcados, mas o grupo vinha já completamente fechado e a pega ficou consumada. O diretor de corrida concedeu volta a Filipe Gonçalves e Francisco Graciosa mas o cavaleiro recolheu à trincheira após ter agradecido nos médios.

O 6º e último toiro desta corrida pertencente à ganadaria Fernandes de Castro era um toiro bem composto como os restantes, 5 anos de idade, preto com 530 Kg e no que toca a comportamento, tratou-se de um toiro que não deixa saudades, sem qualidade, com muitos “feios”, sempre refugiado em terrenos que o distanciassem da peleia e por vezes com descaradas fugas do cavaleiro. Nos capotes “media” literalmente, sem investir e apenas punha a cara. Um “petardo” completo no que toca a bravura. Francisco Palha, ainda combalido da lesão que o apoquentava, demonstrou grande profissionalismo nesta sua 2º atuação. Não se atemorizou pela falta de condições do oponente, desgastou-se em trabalhosas tentativas de lide, a criar brega onde era praticamente impossível, tentou e ainda conseguiu algumas preparações bem cuidadas com assinaláveis tentativas de cravar em sortes frontais arriscando nos limites, com destaque para o 1º curto “arrancado” pelo cavaleiro que entrou em terrenos proibidos. Foi premiado com música após o 2º curto, fruto do reconhecimento pelo esforço que punha em prática para sacar algo no meio de tanta dificuldade. Os 3º e 4º curtos foram cravados com grande dificuldade entre duas fugas do toiro ao confronto. Ainda pediu mais um ferro, a tentar consertar o que não tinha conserto e foi com grande dificuldade e esforçado que cravou o ferro, isto já depois da música se calar e escutar um aviso. Grande esforço, inglório, de Francisco Palha nesta lide.

Para a última pega da noite, o grupo de Lisboa teve como cara o forcado João Varanda. O comportamento do toiro durante a lide indiciava poder haver grandes dificuldades em parar este toiro que apenas era bom a fugir. O João esteve correto na cara e foi logo que o viu que o oponente arrancou, para “comer” quem lhe surgisse pela frente. O forcado encheu a cara ao toiro e fechou-se bem mas não estava tarefa fácil parar este toiro que nas tábuas desbaratou completamente todo o grupo que apesar de se empregar a grande nível, não foi suficiente para travar a “locomotiva”. João Varanda avanço para a 2ª tentativa com a mesma convicção anteriormente demonstrada, o toiro teve o mesmo comportamento mas desta vez, o cara teve a preciosa e muito eficaz ajuda de Ricardo Lebre que esteve ao mesmo nível elevado do cara, tornando-se figura primordial para que o grupo conseguisse desta vez conter a poderosa entrada do toiro que continuava a empurrar e mesmo com o grupo todo em cima não foi nada fácil de parar. Pega bastante trabalhosa onde foi necessário empregar a alma. No final, o diretor concedeu volta a Francisco Palha e a João Varanda. Francisco Palha vinha nitidamente debilitado pelo problema na perna e apenas agradeceu nos médios uma merecida ovação recebida pelo labor e esforço empregados na lide retirando-se posteriormente para a trincheira. Após insistência do público, justa chamada à praça do ajuda Ricardo Lebre pela sua excelente prestação nesta pega.

Finalmente, restava a atribuição dos prémios em disputa neste concurso de ganadarias, sendo que ambos, bravura e apresentação foram para a Herdade da Galeana de Murteira Grave. Se na bravura não há discussão possível, na presença haveria mais um ou dois toiros com capacidade de lutar por este prémio, nomeadamente o exemplar de António Silva, mas também aqui se pode considerar correta esta atribuição ao bom toiro enviado pelo Engº Joaquim Grave. Também o público não se manifestou contra estas atribuições pelo que se aceita como um consenso generalizado. Dirigiu com critério o diretor de corrida Sr. Rogério Joia, assessorado pelo médico veterinário Dr. José Luis Cruz e colaboração do cornetim, Sr. José Henriques.

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