António é uma Lição!

António é uma Lição!
  • 4 de outubro de 2022, Vila Franca de Xira
  • 2ª da Feira de Outubro
  • Cavaleiros: António Ribeiro Telles e João Moura Jr
  • Forcados: Vila Franca de Xira
  • Ganadaria: Vale Sorraia, David Ribeiro Telles e Passanha
  • Direção de Ricardo Dias assessorado por Jorge Moreira da Silva
  • Praça Cheia!
Vila Franca e a sua Feira de Outubro é uma das últimas folhas taurinas do calendário, vou aqui tentar fazer um exercício de reflexão sobre uma das últimas corridas da grande feira taurina que se viveu na Palha Blanco.
A tradicional Corrida de Terça Feira, dia grande da Feira este ano tinha vários ingredientes! Um mano a mano entre António Ribeiro Telles e João Moura Jr. E quando um mano a mano entre dois toureiros é anunciado num cartaz, é por alguma razão. Para resolver, elucidar, esclarecer ou deixar claro quem é cada um dos toureiros frente a frente. Dois estilos, dois conceitos, até duas idiossincrasias diferentes. Tem que despertar paixões, arrebatar as massas, criar um espírito belicoso. E houve disto tudo nesta corrida em Vila Franca, houve competição, houve paixões, houve triunfos e uma praça cheia.
Fazer um Mano a Mano com o António Ribeiro Telles em Vila Franca é um acto de ousadia, coragem “e de os ter no sítio” por parte do João …
No mundo dos toiros, o nome diz muito. Mais do que qualquer apelido ou sobrenome, por mais ilustrados por derivações dinásticas. Quando se diz António está dito, está tudo dito. E mais em Vila Franca de Xira! Ali há um halo de familiaridade cativante. Entende-se, que o ídolo é reconhecido pelo nome é coisa própria, património da humanidade, património daquela terra, património daquelas gentes.
Moura Jr, apostava forte nesta sua temporada dos 15 anos de alternativa. Ir à Palha Blanco desafiar o António, só por isso já era um feito! O João é um exemplo muito convincente da figura que é. O protótipo do toureiro de raça que conquistou seu status com justiça. O João deslumbrou com a sua autoconfiança e com o seu domínio avassalador desde o início da sua carreira e neste momento vive um momento doce da mesma, mas não se tapou e foi à Palha Blanco para se medir com o Mestre.  E a noite no que diz respeito ao toureio a cavalo foi grande!
O Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca comemorava 90 anos e uma das suas maiores referências dizia adeus às arenas, Carlos Silva. Vim de Vila Franca com as consequências de uma noite emocionante de pegas. Vim alegre, animado e confortado pela verdade de um facto que confirma a plena validade do factor que constitui a essência, o fundamento desta arte: a emoção. Quando o Carlos se despediu e despiu a jaqueta houve, em suma, uma chicotada intensa que nos fez reviver tantas e tantas tardes e noites de toiros em que o Carlos foi o homem do leme, a rabejar toiros que nos impressionou e arrepiou, por dentro e por fora. Obrigado Carlos!
Outro dos ingredientes desta corrida era o desafio entre três ganadarias bem distintas, os Vale de Sorraia, os David Ribeiro Telles e os Passanha. Vila Franca vive o Rei da Festa como ninguém num tom embriagado de naturalidade, graça e beleza e muita exigência, quando saí o toiro desta praça, coisa que aconteceu nesta noite. A Palha Blanco quer um animal forte e vigoroso, musculado, com cara ou seja com trapio e com bravura comprovada e duradoura, que “vai a mais” durante a lide. Houve uns quantos que cativaram as bancadas por beleza e comportamento, caso do Sorraia saído em segundo lugar e os dois de Passanha. Os dois de David eram duas estampas mas pecaram por alguma falta de casta. O primeiro de Sorraia foi bruto e pediu muitos papéis.
A noite de António foi colossal, interpretando a sua versão pessoal de toureio a cavalo. Uma espécie de sinfonia em dó maior, com aquele quejío que se fundamenta e vislumbra na sua maneira pessoal de lidar um toiro.
Todos sabemos que António é adorado em Vila Franca. Os aficionados desta praça são especialmente sensíveis à beleza das formas do toureiro que expressa diante do toiro. Sintoniza imediatamente com a sensibilidade do artista. Existe ali um casamento perfeito. Vibra com ele. E faz com o seu entusiasmo explodir como nenhum outro público de toiros no mundo. É uma alegria ver aquele espetáculo inusitado, aquela comunhão que atinge seu ponto máximo de ebulição depois de um ferro cravado ao estribo, um remate de uma sorte de toureiro, ao lidar um toiro ou num simples gesto. A paixão é ali liberta à vontade mais extrema depois de cada lição do Mestre. António e a Palha Blanco são a comunhão perfeita!
Diante do seu primeiro um toiro de Vale de Sorraia, encastado, fiero, difícil de lidar, obstinado em colocar alto o preço da sua lide. Houve um toureiro, que fez o próprio para impor o axioma que torna credível o fundamento principal deste “jogo dramático” que é lidar um toiro destas condições. Grande nos compridos, porta gaiola, sorte da morte incluídas… Aquele terceiro curto que ainda guardo na memória e que levantou a praça foi um compêndio de emoção e amor próprio. Foi o triunfo da coragem e da inteligência contra a versão mais irracional de um toiro.
No terceiro houve a clarividência até encontrar as chaves com as quais resolveu a iminência da bravura do Passanha. O António e o toiro formam a dupla prodigiosa, um interruptor comutado que gera uma corrente emocional de extraordinária intensidade. A brega foi sublime, por vezes os momentos das sortes principalmente no início da lide não foram os melhores, mas como disse quando houve o encontro do toiro e toureiro surgiu a arte de bem tourear a cavalo. Os dois últimos curtos foram de escândalo. Nesta lide houve a cota de emoção colocada seguramente num rincón da memória que guardaremos quantos tivemos o privilégio de presenciar o feito.
No quinto da noite a lide teve a emoção da estética, da arte refinada que surge pela inspiração, dos eflúvios exalados pelo espírito. O António desfrutou e fez-nos desfrutar com cada gesto, com cada detalhe, com cada ferro, com os remates toureiros ou mesmo os desplantes de inspiração. Ali viu-se a naturalidade, graça e beleza, enquanto a praça crepitava de entusiasmo. Como lhe escrevi a quando dos seis toiros nesta praça, volto a escrever: Obrigado António!
Moura Jr foi o retrato vivo da ambição. Como diziam os antigos aficionados, saiu à arena de Vila Franca com a erva na boca e os seus olhos brilhavam com menor vislumbre para alcançar o triunfo. O João foi atitude, vontade e bagagem de alta qualidade que se vislumbra em cada sorte que interpreta. Nem tudo foram rosas nesta noite 4 de Outubro do ano 22, mas a noite acabou em triunfo! Tornando-se uma majestosa caminhada diante dos toiros, uma improvisação órfã de alarido, um saber ser e um saber lidar que acabou de forma avassaladora.
No bravo Sorraia não houve entendimento… O toiro acometia sempre que solicitado pelo cavaleiro, vinha franco e de largo mas por vezes parecia que faltava no momento da sorte e algumas passagens em falso e ou outro ferro de menos brilhantismo fizeram com que a lide acabasse por não romper… A noite começava de maneira difícil para o de Monforte mas…
No quarto a coisa foi diferente! Moura, entendeu perfeitamente o David, com inteligência, lidando o toiro com uma suavidade que foi puro deleite. Até o próprio toiro deve- lhe ter agradecido esta forma de ser lidado, porque apesar do seu fundo de bravura se ir esgotando com o decorrer da lide, acabou por acometer até ao final.  Foi uma lide longa, suave e lenta tentando sempre fazer as coisas bem feitas para no fim apertar e agarrar o êxito. Dando no final da sua obra um recital de toureio caro cravando grandes ferros que puseram todos de acordo.
Com o bravo Passanha veio o triunfo! Houve arte, beleza, raça, toureria… a ementa essencial para por esta exigente praça de pé e aclamar este toureiro. Na parte final da lide houve um despertar de emoções, que parecia que dormiam num qualquer canto da alma dos espectadores. Ou seja, o toureiro sentiu que faltava qualquer coisa e do fundo do seu ser, deu um murro na mesa e de uma vez fez-nos desfrutar da beleza do seu toureio. Três ferros geniais, dois deles em sortes de mourinas muito ajustadas, remates em redondo levando o toiro embebido no cavalo para se recriar em belos momentos de toureio. Preparações sublimes, resumindo três ferros com a sua marca. Grande lide!
A noite de Terça na Feira de Outubro em Vila Franca é noite de exaltação ao forcado vilafranquense, este ano em ano de aniversário 90 anos da sua fundação. Noite de emoções e de despedida do grande rabejador Carlos Silva. O Carlos é um forcado que, surpreendentemente, entrou na lenda sem querer, sem usar marketing e merchandising, foi sempre um homem que fugiu disso. O Carlos é um produto incrível da natureza, um ídolo entre os seus e para os aficionados, prova disso foi o público que enchia a praça o obrigar a dar três voltas à arena. Um mar de gente a reconhecer os seus feitos nas arenas e dois presidentes de câmara, Vila Franca de Xira e Sobral de Monte Agraço a homenagear o mesmo. O Carlos nesta noite rabejou superiormente cinco dos seis toiros, entregando a jaqueta das ramagens no quinto da ordem.
Grande noite de pegas cinco pegas à primeira tentativa e uma à segunda.
Abriu a noite Rodrigo Andrade, numa boa pega à primeira tentativa com o toiro com o toiro a derrotar alto e bruto. O grupo ajudou de forma coesa e a sorte foi consumada de forma vibrante.
Rafael Placido à primeira tentativa numa pega dura, com viagem longa. Novamente o grupo entrou como mandam as regras e foi consumada esta sorte de forma brilhante.
Lucas Gonçalves à segunda tentativa, numa pega em que o toiro entrou duro, grande primeira ajuda de Rodrigo Dotti.
Pedro Silva consumou à primeira numa boa pega.
O cabo Vasco Pereira numa grande pega à primeira tentativa, superiormente ajudado pelo seu grupo com destaque maior para o segundo ajuda, Rodrigo Teles. Rabejando o Carlos o seu último toiro.
Fechou a noite Guilherme Dotti numa grande pega à primeira tentativa, superior esteve o seu irmão Rodrigo a dar uma grande primeira ajuda.
Foi Ricardo Dias o director de corrida, sendo Jorge Moreira da Silva o médico veterinário.

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